- O caso do repatriamento do canhão El Cristiano à República do Paraguai -

Andre Andion Angulo [1]

          Temos no presente uma discussão muito interessante no meio museológico nacional – a devolução do canhão El Cristiano que foi tomado como troféu de guerra pelo Exército Brasileiro durante a guerra do Paraguai. Na verdade esta discussão não se circunscreve ao “mundo dos museus”, já se revelaram posições apaixonadas de ambos os lados, os que estão a favor e os que são contra tal devolução.

          Não quero aqui nestas 3 laudas tentar historiar o que foi a Guerra do Paraguai, apenas um preâmbulo - temos 3 correntes: a que assinala que Brasil, Argentina e Uruguai tentaram se proteger de uma desmedida pretensão expansionista de Solano Lopes; outra de linha marxista que indica que o Império Britânico não desejava uma potência bélica e econômica em franjas meridionais do planeta e outra que aponta um processo de construção de Estados nacionais indicando a constituição de uma supremacia brasileira na América do Sul.
Quero apenas tecer alguns comentários sobre a construção simbólica do ato de devolução de El Cristiano que marcaria uma posição do Brasil em relação uma possível harmonia político-social entre os países do Cone Sul.

          O referido conflito armado envolvendo os 4 países que criaram no século XX o MERCOSUL ocorreu entre 1864 e 1870. Vale ressaltar que essa guerra destruiu o Paraguai e até hoje este nosso país vizinho não atingiu o seu desejável desenvolvimento por conta deste conflito. Assinala-se também que uma guerra não tem vencedores, todos os 4 países sofreram perdas de vidas irreparáveis, daí vem a pergunta: Será que realmente temos de apreciar máquinas de morte em nossos museus como troféus de guerra? Tudo bem, a pergunta anterior é extremamente capciosa, refaço-a: Será que em nossa escala de valores simbólicos, patrimonial e museológico temos de nos sobrepor aos valores igualmente simbólicos, patrimoniais e museológicos de uma atual nação amiga? Um país que sofre ainda todos os percalços econômicos e sociais por conta deste conflito?

          O referido canhão (ou obuseiro, segundo alguns entendidos em armas) El Cristiano foi feito com o derretimento do bronze de sinos das igrejas paraguaias. Não tem como se camuflar este gritante valor simbólico para a sociedade paraguaia, ressaltado pela inscrição em sua lateral Da Religião para o Estado ordenada pelo comandante Francisco Solano Lopez, cuja data de morte – 1º de março – marca o final do conflito, ao mesmo tempo que batiza a então principal rua da capital do Império Brasileiro - a Rua Direita - no centro da cidade do Rio de Janeiro.

          E os nossos sinos? Nos dizem alguma coisa? Há pouco tempo, em 2007, foi solicitado o registro como Patrimônio Cultural Brasileiro da Linguagem dos Sinos das igrejas mineiras. O pedido de registro da linguagem dos sinos no Livro das Formas de Expressão abrange São João del-Rei, Mariana, Ouro Preto, Catas Altas, Congonhas do Campo, Sabará, Serro e Diamantina.

          A linguagem dos sinos funciona noticiando ocorrências recentes, como a morte ou o nascimento de moradores locais. O tipo de dobre dos sinos atua como um código que identifica o quê exatamente está havendo. Por causa do constante barulho nas cidades, e também porque algumas igrejas adotaram o sino eletrônico, a linguagem dos sinos está se perdendo, junto com o trabalho dos sineiros. “Transformar essa cultura em patrimônio imaterial é uma forma de impedir que a tradição se extingüa”, enfatiza a técnica do Iphan Maria Lúcia.

Fonte: http://bit.ly/caj8cp

          Há mais de 140 anos o Paraguai derretia os seus sinos para forjar canhões (El Cristiano, El Criollo). Os sinos antes dobravam para comunicar missas, falecimentos, casamentos e outros encontros sociais em terras paraguaias. Os sinos dobravam anunciando encontros, harmonizavam o espaço social, até eles serem “dobrados” em armas, marcando o maior desencontro que a humanidade pode ter entre os seus pares – a guerra declarada entre Estados.

          Muito se argumenta que o canhão El Cristiano é tombado como patrimônio histórico brasileiro e que para o repatriamento ao Paraguai necessitaria de ser destombado; estaria ele no Livro do Tombo Histórico. Em rápida pesquisa por meio eletrônico no Arquivo Noronha Santos do Instituto do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional-IPHAN não encontrei o seu tombamento, mas é fato que integra o acervo museológico do Museu Histórico Nacional, registrado então como acervo museológico nacional. Vale assinalar que o tombamento ou o registro museológico é um ato administrativo cuja justificativa se dá por uma escala de valores da sociedade; valores estes não econômico-financeiros, mas simbólicos do ponto de vista sócio-cultural.

          Os detratores da devolução invocam o histórico dos destombamentos no Brasil como ações perversas; não digo que não o foram – São João Marcos, cidade caffeira do século XIX na região sul do Estado do Rio de Janeiro é o primeiro e o mais tenebroso exemplo (ainda mais pelo fato de que não teria havido necessidade de se dinamitar o centro de São João Marcos, expulsando seus habitantes, pois tal lugar não foi alagado pela barragem planejada para a geração de energia elétrica). Casos municipais são igualmente escabrosos, revelando as faces da especulação imobiliária selvagem como foi o caso do Cine Icaraí em Niterói, destombado pela Câmara de Vereadores para que o lugar cedesse espaço a mais um espigão em Niterói. Assinala-se, no entanto, a louvável ação do INEPAC – Instituto Estadual do Patrimônio Cultural do Estado do Rio de Janeiro que retorna com ambos os tombamentos  –  a esfera estadual tomba o Cine Icaraí e tomba as ruínas de São João Marcos, este para que “caso semelhante não aconteça novamente em terras fluninenses”.

          Mas orientando-se por uma escala de valores de nossa sociedade, que almeja(ria) uma harmonia social, o ato de destombamento também cabe em novas escalas de valores. Se atualmente tentamos construir uma nova unidade sul-americana, onde possamos tecer a formação de um bloco econômico, social e identitário onde o Brasil busca sim a sua hegemonia em uma relação sul e sul e, principalmente, um relação sul e norte, é lógico que devemos rever a propriedade e, principalmente a mediação realizada com acervos que também dizem respeito à História de países com que hoje temos relações diplomáticas saudáveis e que fazem parte de um conjunto de forças que respalda o Brasil em sua nova posição de vanguarda mundial. Afinal de contas, quando um presidente dos Estados Unidos da América se referiu a um presidente do Brasil desta forma - “Esse é O cara!”.

          Ou vamos preferir sempre ignorar os uruguaios e chilenos (sim, eles são extremamente organizados e nossa elite política e econômica tem inveja), ter uma implicância eterna com os argentinos (tudo bem, na Copa do Mundo, de 4 em 4 anos ,não me ouçam durante um jogo de Brasil e Argentina, é mais forte do que eu...) e ”zoar” os paraguaios, dizendo que tudo deles é falsificado. Talvez tenhamos certa culpa nisso sim, nós, brasileiros, além de argentinos e uruguaios, temos sim nossos “pecados” com os paraguaios há 140 anos. E mesmo que muitos aqui achem que estamos “imunes” a este país considerado de 3º mundo, contraponho outro acervo de um grande museu brasileiro aqui para conseguir me expressar.

          O Museu da República, na década de 90, apresentou uma exposição denominada A Ventura Republicana – uma das vitrines tinha as seguintes peças que ainda hoje integram o acervo desta unidade museológica – um tênis NIKE e um fuzil AR-15, que aludiam à entrada de crianças e jovens no tráfico de drogas no Rio de Janeiro, o tênis de uma famosa marca americana fazia referência à sociedade de consumo atual e o fuzil a forma como aqueles excluídos, os rebotalhos desta sociedade de consumo poderiam adquirir dinheiro e poder em seus micro-territórios.

          Vale lembrar que grande parte do tráfico de armas na América do sul tem o Paraguai como ponto receptor e emissor. Estes acervos devem nos fazer refletir sobre o nosso presente – se hoje o Rio de Janeiro está sitiado entre milícias e traficantes, apesar do todos os esforços do Governo do Estado com as UPPs – Unidades de Polícia Pacificadora, um dos grandes pesadelos de todas as classes sociais do Rio é a bala perdida, a bala que sai de fuzis que entram pelo Paraguai, impossibilitando uma harmonia social em terras cariocas.

          Será que realmente não deveríamos repensar esta relação entre o canhão El Cristiano do Paraguai que está no Museu Histórico Nacional e o fuzil AR-15 traficado do Paraguai do Museu da República? Será que o ato de devolução de El Cristiano ao Paraguai como ato político e simbólico, logicamente conjugado com ações de ajuda mútua e cooperação técnica em relação ao patrimônio paraguaio que já vem sendo realizadas por nossas vinculadas do Ministério da Cultura (IBRAM e IPHAN) não poderiam orquestrar uma almejada atmosfera de harmonia social? Harmonia esta tanto entre os países do Cone Sul quanto em nossas cidades? Esta é a minha provocação para o tema Os Museus para a Harmonia Social.

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[1]
• Museólogo (Corem 2ª região 617-I) do Museu da República – IBRAM – MinC
• Coordenador do Circuito Sítios Históricos da República
• Membro da Associação Brasileira de Museologia
• Vice-Presidente da Associação de Servidores do Instituto Brasileiro de Museus

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- Publicado originalmente em 18 de maio de 2010 / 0:0 por Editoria RM

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Nota do Editor - esse artigo teve 15 acessos desde sua publicação original em 18/05/2010 até 17/05/2016. Está publicado na versão acima a partir de 12/12/2017.

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