Aline Vieira de Carvalho [1]

          Quais seriam as funções e responsabilidades das instituições museológicas frente ao ideário de harmonia social? Para respondermos a essa questão, precisamos, em um primeiro momento, refletir sobre o próprio conceito de museu. Isto porque, de acordo com a ótica teórica de investigação, a compreensão sobre os alcances e limites desta instituição pode variar consideravelmente.

          As instituições museológicas possuem um contexto de nascimento; suas formações estão atreladas ao surgimento das nações européias nos séculos XVIII e XIX. Os museus, voltados ao amplo público, substituem grande parte dos gabinetes de curiosidade que eram usados por grupos restritos de pessoas como elemento gerador de diferenciações sociais.

          Os gabinetes de curiosidade atribuíam status sociais a famílias nobres e burguesas espalhadas por toda Europa. Com a Revolução Francesa e todos os movimentos nacionalistas que se alastraram pelo continente europeu, no século seguinte, não era mais importante diferenciar a nobreza e a burguesia do “resto social”. Ao contrário, tornava-se crucial para a consolidação do conceito de nação a elaboração de um cidadão ideal.

          Inseridos nas propostas nacionalistas, museus eram criados reunindo materialidades que pudessem atribuir sentidos ao “ser francês”, “ser italiano”, “ser alemão”, e ao pertencimento às diversas outras nações nascentes. Assim, o recém criado cidadão francês, por exemplo, poderia encontrar provas materiais da grandiosidade daquela nação no Museu da República (1793) e no Museu dos Monumentos Franceses (1795).

          Além do contexto nacionalista, os museus inserem-se em um contexto iluminista de organização e explicação do mundo. Da mesma forma em que as ciências são elaboradas no século XIX – obedecendo a métodos específicos de investigação – os museus eram estruturados para reproduzir determinados contextos sócio-culturais, mas de forma ordenada, limpa e criteriosa. Ainda que o caos reinasse no contexto externo à instituição, não deveria haver problemas organizacionais no âmbito interno. O museu estaria sempre ordenado em temas, coleções, acervos, entre outras categorizações; trazia uma visão sistemática e científica do mundo.

          Apesar de mais de dois séculos entre os primeiros museus e as instituições atuais – tempo marcados por mudanças epistemológicas na Museologia - muito se preservou de uma suposta “essência” dos primeiros museus. Desde a forma de organização até a premissa da criação de grandes heróis. Desta forma, não podemos afirmar que os museus são espelhos da sociedade. Ao contrário, os museus são criações humanas, realizadas em contextos específicos e repletos de intencionalidades. Os museus podem gerar a inclusão ou a exclusão de determinadas identidades de acordo com o interesse daqueles que os dirigem, os organizam e os mantém. Se os museus são espelhos, eles refletem os interesses daqueles que estão organicamente envolvidos em suas idealizações e ações.

          Desde a década de 1960, no entanto, com a explosão dos Movimentos dos Direitos Civis, do Feminismo e da Contra-Cultura, muito se tem discutido sobre como tornar o museu um espaço multicultural (Semprini 1999). Estas questões tornaram-se ainda mais latentes na Museologia após a década de 1980; período marcado pelo final das ditaduras militares na América Latina e pela progressão dos deslocamentos de grupos culturais entre as nações, em especial, dos países que foram colonizados durante o imperialismo europeu para as terras dos colonizadores. Esses novos contextos culturais e políticos, atrelados às discussões pós-modernas nas ciências humanas, geraram a necessidade de repensar o significado da instituição museu e as formas de estruturá-las.

          Nesta nova situação, profissionais vinculados à área dos museus e dos patrimônios têm se perguntado como seria possível acolher “outras culturas”, valorizando suas diferenças. Ou, como seria possível inserir na instituição museu “outras culturas” em um mesmo nível que “a nossa cultura”. A grande questão que deveríamos nos fazer, no entanto, é como definir o que é “a outra” ou “a nossa” cultura. Onde estaria a nossa autoridade para definir o que é o “eu” e o “outro”, ou, ainda, o que está inserido ou excluído.

          O filósofo indiano Akkel Bilgrami afirma na apresentação do livro Humanismo e Crítica democrática, de Edward Said, que enfrentamos uma “fetichização da diversidade e uma adoção fácil da presente tendência multiculturalista” (2004,12). Questões sobre como “nós” vamos “incluir outras culturas”, se não bem conduzidas e ponderadas, podem ser inseridas neste multiculturalismo raso, que gera novas exclusões embora acredite que as está atenuando. Talvez, para orientar nossas discussões, devamos partir da premissa de que existam diferenças entre as identidades individuas e coletivas, mas que essas diferenças não devam ser escalonadas em degraus de autoridade ou legitimidade.

          Neste sentido, podemos encontrar no Humanismo a ponderação do igual valor entre os seres humanos. O museu, portanto, pode se tornar mais complexo e se democratizar ao valorizar a participação de uma pluralidade de identidades coletivas para a construção de suas representações. Com a consideração da igual importância das identidades, e a criação de espaços democráticos, quem sabe, não possamos caminhar para a imaginada harmonia social.

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Agradecimentos

Agradeço a Janine Ojeda e a Equipe da Revista Museu pelo convite para publicar este ensaio. Aos professores Lourdes Dominguez, Luiz Estevam Fernandes Pedro Paulo Funari, Lúcio Menezes, Sandra Pelegrini e Gilson Rambelli pelas constantes oportunidades de reflexões sobre as relações entre Museus, Patrimônios, Arqueologia e Sociedade.

Bibliografia citada

BILGRAMI, A. (2004). “Apresentação” (9-13). In: Said, E. Humanismo e Crítica democrática. Companhia das Letras.
FUNARI, PP. & PELEGRINI, S. (2006). Patrimônio Histórico e Cultural. Rio de Janeiro: Jorge Zahar Ed.
SEMPRINI, A. (1999) Multiculturalismo. Bauru: Edusc.

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[1]
• Pesquisadora – Nepam/ Unicamp
• Pós-doutoranda Fapesp - História/ IFCH – Unicamp

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- Postado em 18 de maio de 2010 | 0:0 por Editoria RM

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Nota do Editor - esse artigo teve 15 acessos desde sua publicação original em 18/05/2010 até 17/05/2016. Está publicado na versão acima a partir de 12/12/2017.

 

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