Rui Mourão [1]

          O museu, enquanto instituição encerrada num espaço concreto, existe no presente. Está sempre na atualidade de quem se coloca diante da exposição. A pessoa contempla o passado que lhe é apresentado e enriquece sua visão de mundo, com a operação automática que se estabelece entre sua experiência de vida e as informações de outro tempo – outro espaço, outro presente – que se revelam como novidades para ele.  O momento em que o fenômeno ocorre é eminentemente criador.

          Ao tomar conhecimento dessa realidade e sabendo que as peças produzem significado ao se combinarem, chegamos à compreensão da natureza educacional do museu. Criação humana surgida por acaso, como mero gabinete de curiosidades, ele evoluiu no tempo, acabando por exibir a sua dimensão de linguagem, que dizer, como um recurso a mais que o homem dispõe para entender o universo que o cerca. Dispondo de recursos que lhe permitem atuar fora dos limites físicos das paredes que aparentemente o constrangem, possui condições para interagir com a comunidade e até mesmo, nesses dias de intensa movimentação de estrangeiros, contribuir para ampliar a compreensão do mundo, através do diálogo de culturas.

          Não é por acaso que o reconhecimento de um museu minimamente organizado começa pela verificação da existência de um setor educativo, apto não apenas a orientar o visitante sobre o que se acha exposto, mas para desenvolver projetos complementares do ensino formal, qualificando melhor as novas gerações, cujo preparo não pode ficar restrito à mera instrumentação científica ou operacional. A abordagem dos valores constitutivos do substrato imaterial de uma cidade, de uma região ou de um país, o aprimoramento da sensibilidade do educando, que precisa ser situada para ser legítima, é algo que o museu pode acrescentar.

          Essa linha de trabalho voltada para a preservação da memória de um povo, considerada no mais amplo sentido, se identifica com a educação patrimonial, principalmente quando essa última, na fase mais recente do país, passou a se ocupar também das manifestações culturais intangíveis. Podendo se beneficiar, em conseqüência, da longa militância do Instituto do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional – que caminha para ser de quase um século –, o museu encontrou um aliado que contribui para torná-lo mais compreendido e melhor aceito pela sociedade. Mas não é só por essa razão que, nos dias que passam, já seja difícil encontrar alguém que não reconheça a importância das casas de exposição, que havendo surgido quase de maneira espontânea, terminaram por ser arroladas entre os ícones do nosso tempo.

          Uma das ações inovadoras do Setor Pedagógico do Museu da Inconfidência, desenvolvida em conjunto com a Secretaria Municipal de Saúde – o Projeto Girassol – foi capaz de demonstrar que as possibilidades educacionais de um órgão, em princípio destinado a exposição, podem se estender a campos muito diferenciados. A atividade resultou de sugestão de psicólogas do Departamento de Saúde Mental, que visualizaram, nas atividades desenvolvidas pelo Inconfidência, um caminho para promover a abordagem de pacientes em tratamento naquela unidade. Eram pessoas que se encontravam aprisionadas numa espécie de limbo, devido à perda da memória e, consequentemente, da noção de valores. O primeiro grupo recebido pelo museu-escola serviu como teste de experiência, tanto para os profissionais da saúde quanto para os educadores. Os recém-chegados, assim que se sentiram à vontade no ambiente de camaradagem criado pelos técnicos, foram solicitados a falar sobre si próprios, numa tentativa de fazer soltar a sua memória. Dizendo quem eram, onde viviam, que ocupação tiveram. Complementando essas seções de vasculho subjetivo, num programa de visitas continuadas, eles foram conduzidos ao Inconfidência, a outros museus, a igrejas e  outros monumentos, a ruas e praças da cidade. O mergulho na escuridão do passado começou a produzir resultados. Aqueles seres incompatibilizados com as relações externas de sociabilidade começaram a se emocionar com a lembrança de atividades profissionais que tiveram, relacionado-as aos lugares por onde passavam. Cada qual se sentiu levado a assumir na medida do possível a sua personalidade, a perceber aos poucos que tivera e continuava tendo, na companhia de outras pessoas, um lugar dentro da cidade em que nascera. A flor estava virando a sua corola na direção do sol. A consagração dessa experiência veio com o Prêmio David Capistrano, concedido pelo Ministério da Saúde em 2002, na III Conferência Nacional de Saúde Mental, e pelo Prêmio Andrés Bello, da Espanha, em 2009.

          Imersão ainda mais arrojada no meio social está sendo conseguida em experiências como a do Museu da Maré, no Rio de Janeiro, e nos chamados ecomuseus, presentes em diversos estados. A iniciativa carioca, que documenta o caldo cultural gerado dentro de uma favela, repercute com força, produzindo efeitos em dois sentidos. O visitante passa a conhecer melhor a vida dentro desses aglomerados humanos, que subsistem em contraste com o ambiente dos bem aquinhoados cá fora e, por outro lado, o prestígio crescente de uma instituição hoje universamente reconhecida como centro de cultura, funciona como capa protetora, legitimando o grupo populacional que foi capaz de gerar os documentos patrimoniais expostos. Os ecomuseus, ao valorizar o que um bairro, uma cidade ou uma região possui digno de ser admirado, herança de uma coletividade que no passado fez história, têm alargado o mapa cultural do país, trazendo melhoria econômica a esses lugares, com o incremento da atividade turística.

---------------------------

[1]
• Bacharel em Direito pela UFMG e Mestre em Letras Brasileiras pela UNB.
• Escritor e Professor.
• Diretor do Museu da Inconfidência, atuando na Direção do MI desde 1974.

--------------------------

-Postado em 18 de maio de 2010 \ 0:0 por Editoria RM

Copyright 2010. Revista Museu. Todos os direitos reservados.


Nota do Editor - esse artigo teve 15 acessos desde sua publicação original em 18/05/2010 até 17/05/2016. Está publicado na versão acima a partir de 12/12/2017.

Agenda

Seg Ter Qua Qui Sex Sáb Dom
1
2
3
4
5
6
7
8
9
10
11
12
13
14
15
16
17
18
19
20
21
22
23
24
25
26
27
28
29
30
31