Ana Virginia Pinheiro [i]

Uma discussão perene no universo da Biblioteconomia de Livros Raros questiona o caráter do livro raro, único e precioso (Cf. PINHEIRO, 1989) como item de Biblioteca ou de Museu. Essa discussão foi desencadeada, provavelmente, no pioneiro How to catalog a rare book, de Paul S. Dunkin (1951, p. 85, tradução e grifos nossos), que afirmou que “o livro raro é um objeto material fascinante [...]. Quem o procura apenas para lê-lo pode satisfazer-se com um microfilme ou uma reimpressão. O fato de que o livro raro é um objeto material deve ser a tônica de qualquer abordagem sobre ele”.

Livros raros da Fundação Biblioteca Nacional (Brasil). Foto: Ana Virginia Pinheiro.

Livros raros da Fundação Biblioteca Nacional (Brasil). Foto: Ana Virginia Pinheiro.

Na verdade, ao longo de sua obra, Dunkin reitera o caráter do livro raro destacado por Gabriel Peignot (1802, 1817), e ainda hoje considerado, sob o aspecto da Bibliografia e da Bibliologia; isto é, o livro raro como conteúdo (o livro que se lê) e como continente (o livro que vê), relevando respectivamente, a informação registrada e a informação material – aspectos indissociáveis, de fato, em qualquer forma de abordagem do livro raro, na Biblioteca ou no Museu.

A perenidade da discussão envolve papéis e personagens de um mesmo cenário: os espaços de reserva de acervos de memória.

No âmbito das instituições de guarda de acervos, a sustentabilidade é um tema complexo e ainda em desenvolvimento, designado de modo personalíssimo – a sustentabilidade das instituições, associando desenvolvimento e meio ambiente, sob as dimensões econômica, cultural e social, sem relevar, com o mesmo peso, a questão da sustentabilidade nas instituições e com as instituições.

Uma abordagem tripartite da sustentabilidade (de-em-com) pode configurá-la como elemento motor da missão de instituições guardiãs de acervos memoriais, à luz da natureza dos materiais que suportam o registro do conhecimento armazenado e do diálogo continuado com personagens, nos variados e múltiplos cenários onde é delineado o futuro e onde é cultivada a permanência da condição humana – no caso em análise, a Biblioteca e o Museu.

Estas instituições guardiãs se imbricam, com uma missão comum, quando o objeto de sua motivação é o livro raro – situação verificável desde Alexandria, na Antiguidade, quando uma biblioteca modelar foi desenvolvida em torno do Mouseion, o templo das musas (CHAGAS, 2005), o lugar de produção e de preservação das artes e das ciências.

Nesse contexto, o sentido de sustentabilidade, associado à função do livro raro preservado em acervos memoriais, emerge como um princípio de responsabilidade social e de gestão de coleções, realmente, sistêmico.

Sustentabilidade é um princípio que reza que os usos necessários do presente, compartilhados ou particularizados, não podem gerar efeitos nefastos no futuro ou, ainda, no presente, inviabilizando usos necessários de mesma qualidade (Cf. COMISSÃO MUNDIAL SOBRE MEIO AMBIENTE E DESENVOLVIMENTO, 1991, p. 9-10). Para evitar que aqueles efeitos se consolidem, antes ou enquanto usar, é essencial conhecer, respeitar, promover e defender o que é ecologicamente equilibrado, economicamente viável, socialmente justo, culturalmente múltiplo e moralmente diverso. Estes aspectos destacam o viés de isenção na guarda, na autonomia da instituição guardiã perante quaisquer poderes e valores que intentem definir ou delimitar, segundo interesses oportunistas, mesmo que, potencialmente, longevos, o que pode e o que não deve ser preservado.

A isenção alicerça o caráter da curadoria de livros raros, na função de garantir que esta e a próxima geração tenham acesso às edições originais, no formato em que foram produzidas ou o mais próximo disso, em conteúdo e materialidade.

Considerando que o termo “sustentável” (do latim sustentare) designa sustentar, no sentido de defender, cuidar (Cf. GORDINHO, 2011), é possível entender que a curadoria de livros raros articula-se como ação sustentável, posto que se ocupa da gestão de acervos bibliográficos e da luta contra o desaparecimento, intencional ou acidental, da memória humana impressa.

Esta ponderação reitera a ideia de que “talvez, a resposta ao desafio da sustentabilidade possa ser encontrada na razão da existência de cada museu ou de cada instituição e seja esse o contributo para a sustentabilidade da sociedade ou comunidade em que se integra ou à qual se dirige, ‘apenas’ pelo cumprimento da sua missão” (SILVESTRE, 2015, p. 10).

Vale dizer que a missão da curadoria de livros raros vai além da guarda do registro; pressupõe a ação pró ativa de salvaguarda, isto é, envolve políticas de preservação que contemplam a materialidade do registro (conservação, restauração, acondicionamento, armazenamento, inventário e segurança), alcançam o conteúdo (microfilmagem, digitalização, reedição, descrição e disponibilidade), e se estendem através de iniciativas que estimulem o sentido de pertencimento da coleção (exposições, oficinas, seminários, visitas técnicas, entrevista de referência, atendimento remoto, edições fac-similares, parcerias – institucionais e interinstitucionais), concretizando e multiplicando possibilidades de acesso e de discernimento, alicerçadas no fundamento de que informação preservada é informação difundida.

O livro raro, isolado ou em coleções, salvo raras exceções, classifica-se na categoria de bens culturais protegidos pelo Estado, isto é, “quaisquer bens que, por motivos religiosos ou profanos, tenham sido expressamente designados [...] como de importância para a arqueologia, a pré-história, a historia, a literatura, a arte ou a ciência” (BRASIL, 1973, Art. 1º e alínea “h”). Convém esclarecer que a palavra “importância”, aí, não presume seleção, mas, exaustividade, que está pontificada no reconhecimento de que “quaisquer bens”, documentários de um ambiente cultural – bom ou mau, são passíveis de ações que viabilizem sua permanência (enquanto dure o suporte ou subsista o conteúdo), favorecendo a capacidade humana de “interagir com o mundo”, continuamente.

Raro e sustentável é aquele livro cuja relevância como bem cultural está no testemunho que materializa, e não em valores contingenciais ou transitórios da comunidade ou público alvo a que se destina.

Desse modo, entre os livros raros de reconhecida importância, se incluem aqueles que um dia tiveram esse significado e não mais o detém (livros proibidos, por exemplo), assim como outros, que jamais o tiveram (tais como livros de autores, tradutores e comentadores proibidos), e que de alguma forma, por sua própria existência, traduzem ou representam o processo de edificação intelectual e de construção da identidade cultural daquela comunidade ou público alvo.

Enquanto esse modelo de ação sustentável não se realiza como estratégica sistêmica, em nível nacional e internacional, contra o desaparecimento de livros raros por apagamento da memória (destruição de bibliotecas, por ação, inação ou sinistros) e pelo colecionismo perverso (furtos de partes ou da íntegra de itens bibliográficos), efeitos irremediáveis já se verificam no presente e marcam seu lugar no futuro, possibilitando a reflexão defeituosa do passado – na Biblioteca ou no Museu – e minimizando a expectativa de um futuro, efetivamente, melhor.

Referências

  • BÁEZ, Fernando. História universal da destruição dos livros: das tábuas da Suméria à guerra do Iraque. Tradução Léo Schlafman. Rio de Janeiro: Ediouro, 2006.
  • BRASIL. Decreto Nº 72.312, de 31 de maio de 1973. Promulga a Convenção sobre as medidas a serem adotadas para proibir e impedir a importação, exportação e transferência de propriedades ilícitas dos bens culturais. Diário Oficial [da União], Brasília, DF, 1 jun. 1973. Seção I, parte I, p. 5298-5300 . Disponível em: <http://www.planalto.gov.br/ccivil_03/decreto/1970-1979/D72312.htm>. Acesso em: 15 maio 2015.
  • CHAGAS, Mário. Cultura, patrimônio e memória. Revista Museu: cultura levada a sério, Rio de Janeiro, 18 maio 2005. Disponível em: <http://www.revistamuseu.com.br/18demaio/artigos.asp?id=5986>. Acesso em: 12 maio 2015.
    Nota do Editor - esse artigo foi republicado em novo endereço a partir de 04 julho 2017 - Disponível em: <http://revistamuseu.com.br/site/br/artigos/18-de-maio/18-maio-2005/3099-cultura-patrimonio-e-memoria.html>
  • COMISSÃO MUNDIAL SOBRE MEIO AMBIENTE E DESENVOLVIMENTO. Nosso futuro comum [Relatório Brundtland]. 2. ed. Rio de Janeiro: Ed. Fundação Getulio Vargas, 1991.
  • DUNKIN, Paul S. How to catalog a rare book. Chicago: ALA, 1951.
  • FILIPE, Graça. O poder dos museus: refletindo sobre as missões e a sustentabilidade dos museus, em teoria e na prática. In: ICOM (Portugal). Encontro Museus e sustentabilidade financeira. Porto: Museu Nacional Soares dos Reis, 7 nov. 2011. Disponível em: <http://www.icom-portugal.org/multimedia/Ficheiros/Filipe_%20G_%20O%20poder%20dos%20museus.pdf>. Acesso em 16 maio 2015.
  • GORDINHO, Mariano. O termo “sustentável” vem do latim sustentare, que significa sustentar, defender, favorecer, apoiar, conservar e cuidar. João Pessoa: UNIPÊ, Centro Universitário de João Pessoa, Metrado em Direito e Desenvolvimento Sustentável, 5 set. 2011. Disponível em: <http://www.unipe.br/noticia/2011/09/05/o-termo-sustentavel-vem-do-latim-sustentare-que-significa-sustentar-defender-favorecer-apoiar-conservar-e-cuidar>. Acesso em: 15 maio 2015.
  • MARTINS, Marcio Moreira. Tráfico ilícito de bens culturais: atividade preventiva e repressiva do DPF [Departamento de Polícia Federal]. In: ENCONTRO SOBRE O ENSINO DE PRESERVAÇÃO, 2.: Biblioteconomia, Documentação e Preservação de Acervos de Memória na cidade do Rio de Janeiro, 2012, Rio de Janeiro. [Arquivo de apresentações em .PPT]. Rio de Janeiro: UNIRIO, Escola de Biblioteconomia: Fundação Casa de Rui Barbosa, 9-11 jul. 2012.
  • PEIGNOT, Gabriel. Dictionnaire raisonné de bibliologie. Paris: Villier, 1802.
  • PEIGNOT, Gabriel. Manuel du bibliophile, ou, Traité du choix des livres. Dijon: l’Imprimerie du Frantin, 1817.
  • PINHEIRO, Ana Virginia. Que é livro raro?: uma metodologia para o estabelecimento de critérios de raridade bibliográfica. Rio de Janeiro: Presença, 1989. (Prêmio de Biblioteconomia e Documentação/INL, 1986).
  • SILVESTRE, Rui. Museus para uma sociedade sustentável: que futuro? Boletim ICOM Portugal, Lisboa, série III, n. 3, p. 10-11. Maio 2015. Disponível em: <http://issuu.com/icomportugal/docs/boletim_icom_portugal_s__rie_iii_n._568e7d3e2b2970/1>. Acesso em 17 maio 2015.
  • SUSTAINABILITY and museums: your chance to make a difference. London: Museums Association, 2008. Disponível em: <http://www.museumsassociation.org/download?id=16398>. Acesso em: 17 maio 2015.

[i] A Autora:
• Bibliotecária e Documentalista;
• Mestre em Administração Pública (FGV/EBAPE);
• Chefe da Divisão de Obras Raras da Biblioteca Nacional brasileira;
• Professora Adjunta da Escola de Biblioteconomia da Universidade Federal do Estado do Rio de Janeiro (UNIRIO), onde leciona desde 1987;
• Principais trabalhos publicados: “Que é livro raro?” (Presença, 1989 – “Prêmio Biblioteconomia e Documentação do Instituto Nacional do Livro), “A ordem dos livros na biblioteca” (Interciência/Intertexto, 2007) e “Cimélios flamengos que atravessaram o mar” (capítulo de “Um mundo sobre papel”, Edusp/Ed UFMG, 2014).
• Dedica-se a estudos sobre gestão de acervos bibliográficos de memória, segurança e colecionismo, envolvendo a avaliação intelectual e patrimonial de bibliotecas.

 

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