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Átila Tolentino [1]

A professora e museóloga Maria Célia Santos, em muitos de seus textos, defende que os museus detêm o seu acervo institucional e seu acervo operacional. O acervo institucional do museu é formado pelos materiais arquivísticos e iconográficos de que dispõe, além de fotografias, plantas, testemunhos de várias naturezas, bem como toda documentação produzida. O acervo operacional, por sua vez, extrapola os muros do museu. Compõe-se de todo tecido urbano apropriado socialmente, no qual se inserem a paisagem, estruturas, monumentos e equipamentos em que se percebe não só a sua carga documental, mas também a sua capacidade de alimentar as representações do homem em sociedade (Santos, 2008).

Essa percepção de Maria Célia reforça que a atuação dos museus e do profissionais que neles atuam vai além das quatro paredes da instituição e não está confinada no objeto musealizado em si, mas também nas relações sociais produzidas a partir dele e do homem com o seu meio. Nessa perspectiva, os ensinamentos da professora e museóloga dialogam amplamente com a temática posta em discussão, neste ano de 2016, para o Dia Internacional de Museus, ou seja, “Museus e paisagens culturais”.

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Na propositura desse tema, o Conselho Internacional de Museus – Icom quis chamar a atenção para a responsabilidade das instituições museais no seu papel de contribuir, por meio dos conhecimentos produzidos e pelas atividades que desenvolvem, na proteção e gestão das paisagens culturais que os cercam, entendidas estas como um patrimônio e, na linha do que ensina Maria Celia, também como constitutivo do seu acervo operacional. Além disso, exige que a ação museal esteja comprometida com a intervenção social, no sentido de que o museu está inserido em determinado território e dele faz parte. Assim o museu é visto como um instrumento de dinâmica social, comprometido com o homem, seus problemas e anseios, sobretudo com a comunidade a que atende diretamente.

A literatura acadêmica sobre o assunto dá conta que a paisagem cultural não está somente no plano do visível; ela incorpora, na verdade, as interpretações e os significados que os indivíduos lhe atribuem, ou seja, é fruto de uma construção social e da relação entre eles ao longo do tempo. Nesse sentido, Simone Scifoni e Flávia Brito do Nascimento (2010, p. 32) afirmam que a identidade da paisagem é “dada não somente pela forma, mas também pela maneira como as populações a apreendem, ou seja, pela ideia de pertencimento”. Ou, como define a Convenção Europeia da Paisagem (2000), importante documento de referência na área, ela “designa uma parte do território, tal como é apreendida pelas populações, cujo caráter resulta da ação e da interação de fatores naturais e/ou humanos”. Ao mesmo tempo que a identidade da paisagem é formada a partir da apreensão dos indivíduos, ela também contribui para a consolidação da nossa identidade coletiva e propicia a formação de culturas locais e o bem-estar humano (Convenção Europeia da Paisagem, 2000).

Algumas instituições museais já assumem papel de destaque no trabalho com a paisagem cultural, sendo esse tema pauta constante das ações que desenvolvem junto às comunidades que atendem e ao público visitante. É o caso do Museu Comunitário da Escola Viva Olho do Tempo, que se localiza no Vale do Gramame, zona rural da capital paraibana, João Pessoa.

Esse Vale está situado às margens do rio que leva seu nome e abrange comunidades rurais, indígenas, quilombolas e, devido à expansão imobiliária, já conta também com uma parcela de população urbana. Entre as expressões culturais existentes nessa região banhada pelas águas do rio, podem ser destacadas o coco, ciranda, capoeira, poesia popular, lapinha, quadrilha junina, pesca, forró pé-de-serra, cultivo e manuseio de ervas, além de narrativas lendárias. É, portanto, uma região rica em recursos naturais e com grande vivacidade cultural.

A Escola Viva Olho do Tempo – Evot, criada em 2004 como uma instituição social sem fins lucrativos, desenvolve projetos e atividades na área da educação não formal, cultura e meio ambiente, por meio de ações compartilhadas com a comunidade local e promovendo a convivência entre gerações. O que se busca é a valorização das culturas e identidades locais. O seu museu foi criado no mês de maio de 2010, com a exposição de objetos do cotidiano da comunidade, relacionados à pesca e ao trabalho rural. Sua exposição foi reconfigurada em 2013, montando-se um novo circuito expositivo intitulado “Vale do Gramame: memórias e vivências” [2] , em que se buscou mostrar as referências culturais da região e os problemas causados pela poluição do rio Gramame, a partir do olhar dos mestres e mestras de cultura popular locais.

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Poderíamos afirmar que o rio Gramame é o grande personagem na exposição. De forma leve e fluida, como as águas do rio, o circuito expositivo segue seu curso e mostra ao público tanto as belezas como os problemas sociais do Vale do Gramame. Um barco, centralizado em uma das salas da exposição, traz em seu interior apetrechos e instrumentos de pesca (tarrafa, samburá, cova, ratoeira, remos, candeeiro, balaios, etc), remetendo ao universo ribeirinho local. Como é comum nos barcos construídos pelos mestres barqueiros, ele traz uma frase escrita em sua lateral. Nesse barco, a frase instiga o visitante a refletir sobre um problema social peculiar a muitas comunidades ribeirinhas e extremamente atual para os moradores do Vale do Gramame e que impacta diretamente no modo de vida das pessoas e na sua paisagem cultural: “O Velho Gramame quer viver em águas limpas”. Com essa estratégia, denuncia a poluição por que vem passando o rio, em função da implantação de inúmeras fábricas e indústrias no seu redor.

O rio é assim personificado; ele é o Velho Gramame que resiste, persiste e deseja viver. Essa é uma grande luta da Evot e do seu museu, que, por meio da politização das memórias coletivas do Vale do Gramame, mobiliza a população local e outros atores sociais, encabeçando a campanha pela revitalização da bacia hidrográfica da região.

Esse exemplo que vem do Vale do Gramame demonstra como um museu pode engajar-se na preservação e valorização da paisagem cultural que o cerca, com o envolvimento ativo e o protagonismo de diferentes atores sociais. E também confirma que a potencialidade da atuação do museu não está limitada a sua coleção e que suas ações podem expandir-se e extrapolar-se ao território em que está inserido e buscar atender aos anseios da sociedade, de uma forma integral.

A destruição do rio equivale à perda de um símbolo. O rio, para qualquer comunidade que vive às suas margens, configura-se como um signo, carregado de significados. E, para o Vale do Gramame, não é diferente. Essa paisagem cultural, banhada pelas águas dos seus rios, comporta as suas memórias e identidades. Seja o rio de outrora, vivo e com suas águas cristalinas, ou rio de hoje, doente, mas digno de luta e persistência.

[1] Graduado em Letras e especialista em Gestão de Políticas Públicas de Cultura pela Universidade de Brasília. Mestre em Sociologia pela Universidade Federal da Paraíba.
É da carreira de Especialista em Políticas Públicas e Gestão Governamental, com atuação no Instituto do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional.
Coordena a Casa do Patrimônio da Paraíba, projeto de educação patrimonial vinculado à Superintendência do Iphan na Paraíba.

[2] O catálogo da exposição, em versão virtual, pode ser acessado no blog da Casa do Patrimônio da Paraíba, disponível em http://casadopatrimoniojp.com/?page_id=729

Referências

  • CONVENÇÃO EUROPEIA DA PAISAGEM. Florença, 20/10/2000.
  • NASCIMENTO, Flávia Brito do; SCIFONI, Simone. A paisagem cultural como novo paradigma para a proteção: a experiência do Vale da Ribeira-SP. In Revista CPC. São Paulo: USP, n. 10, p. 29-48, maio/out 2010.
  • SANTOS, Maria Célia T. Moura. Encontros museológicos: reflexões sobre a museologia, a educação e o museu (Coleção Museu, Memória e Cidadania, 4). Rio de Janeiro: MinC/Iphan/Demu, 2008.

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