head artigos 18maio2016

Karla Estelita Godoy [1]

"[...] Meu caminho divide,
de nome, as terras que desço.
Entretanto a paisagem,
com tantos nomes, é quase a mesma.
A mesma dor calada,
o mesmo soluço seco,
mesma morte de coisa
que não apodrece mas seca. [...]"
(“O Rio”, de João Cabral de Melo Neto)

O poema de João Cabral de Melo Neto é a narrativa poética de uma viagem pelo rio Capibaribe, quando se vislumbram distintas paisagens físicas e humanas desde sua nascente, no sul da Paraíba, ao mar do Recife. O contraste entre a fluidez dinâmica do rio e certa inércia do sertão torna explícitas as contradições que revelam o quanto a natureza “está fadada à destruição e à morte, ao menos, enquanto persistir o sistema social que produz e reproduz tanta miséria”. (TRIGO, 2012). Ao interrogar uma geografia impregnada de cicatrizes sociais, o poeta registra suas impressões, que vão do encantamento de um olhar quase turista ao realismo de uma imagem da degeneração ambiental.

O olhar do turista, segundo John Urry (1996), construído por meio de signos, é direcionado para aspectos da paisagem que não lhe são comuns. Logo, a fim de ofuscar tudo o que se torne dissonante dos objetivos do consumo estético, iniciativas que vertem a cultura e o fenômeno turístico apenas em mercadoria – às quais não deveriam sequer ser chamadas de políticas públicas –, criam ou transformam lugares e instituições, com o pretexto e a finalidade de atender tais anseios de um suposto turista ávido pelo incomum, embora, muitas vezes, pasteurizado e homogeneizado por um modelo que, sem se perceber, anula a diferença.

Isso pode gerar o que aqui chamamos de “paisagismo cultural”, ou seja, espécie de turistificação da paisagem, que vise exclusivamente a atrair cada vez mais turistas, numa quantificação confundida, talvez propositalmente, com sucesso e acesso. Esse volume crescente do turismo acelera o processo de monumentalização das cidades (GROYS, 2002) e, muitas vezes, os museus passam a ser o escolhido ícone de reconfiguração de determinada paisagem cultural. Na medida em que o processo de turistificação muda a paisagem de forma drástica e altera significativamente os costumes locais com a inserção de hábitos e novas formas de consumo do espaço (PIRES; CASTRO, 2016), os museus, se distantes da esfera social e do contexto espacial de que deveriam fazer parte, correm o risco de se tornarem meros objetos técnicos, que, segundo Milton Santos, “não têm outro significado senão o paisagístico.” (2008, p. 105).

Cumpre ressaltar que entendemos paisagem como “o conjunto de formas que, num dado momento, exprimem as heranças que representam as sucessivas relações localizadas entre o homem e a natureza” (SANTOS, 2008, p. 103). A definição está em consonância com a Portaria Nº 27, de 30 de abril de 2009, que estabelece a chancela [2] da Paisagem Cultural Brasileira, definindo-a, em seu Artigo 1º das Disposições Gerais, como “uma porção peculiar do território nacional, representativa do processo de interação do homem com o meio natural, à qual a vida e a ciência humana imprimiram marcas ou atribuíram valores”. Logo, a paisagem concreta e atravessada por objetos passados e presentes pode ser compreendida como o pedaço visível da configuração territorial, composta por “elementos naturais e artificiais que fisicamente caracterizam uma área”. (SANTOS, 2008, p. 103).

Para além da multidão crescente de imagens-objetos, próprias do espetáculo, entendido por Guy Debord (1997) como a principal produção da sociedade atual, distintos museus vêm sendo criados ou revitalizados para compor paisagens culturais. Contudo, ao escolher o tema do Dia Internacional dos Museus deste ano de 2016, o ICOM (International Council of Museums) alerta para a responsabilidade que as instituições museológicas devem ter com suas paisagens culturais, pois todo o conhecimento e a experiência deles oriundos devem contribuir para o exercício ativo de sua gestão e manutenção. Compreendendo que uma das principais funções dos museus é a proteção do patrimônio, tal missão deve ser praticada dentro e fora de seus muros, ampliando e implantando atividades na paisagem cultural e patrimonial que os cerca. O próprio instrumento da chancela prevê que se valorize a relação harmônica com a natureza, estimulando a dimensão afetiva com o território e tendo como premissa a qualidade de vida da população.

Levando em conta tais considerações, os conhecimentos produzidos pelos museus devem ser compartilhados com o território em que se situam, a fim de que se ofereçam às comunidades circundantes diferentes modos de perceber a paisagem e com ela lidar. Não estão excluídos desse alcance os visitantes espontâneos e esporádicos dos museus, dentre os quais os turistas. Essa categoria de público também se insere na paisagem, e, mais que isso, observa o espaço, enquanto com ele interage, e sobre ele desperta impressões, percepções, sensações, tal como acontece no olhar quase turista do navegante do rio Capibaribe.

É necessário que se faça, nesse momento, antes de seguir o fluxo do raciocínio, breve distinção epistemológica entre paisagem e espaço, por vezes tratados inadvertidamente como sinônimos. Se, embasados no arcabouço teórico do geógrafo Milton Santos (2008), paisagem é considerada um conjunto de objetos reais-concretos, pode-se acompanhar o autor para afirmar que 

o espaço resulta da intrusão da sociedade nessas formas-objetos. Por isso, esses objetos não mudam de lugar, mas mudam de função, isto é, de significação, de valor sistêmico. A paisagem é, pois, um sistema material e, nessa condição, relativamente imutável: o espaço é um sistema de valores que se transforma permanentemente. (2008, p.103-104).

Desse modo, na medida em que o espaço acontece, em situação única e sempre em um tempo presente, os turistas, mais que a comunidade – porque a esta é facultada a possibilidade de participação mais efetiva e constante –, levarão consigo não somente o registro da paisagem cultural, como também os efeitos que nela o espaço produziu.

Eis as razões pelas quais a paisagem cultural, ao passar pelo processo de turistificação, que irá envolver a transformação de uma localidade em um destino turístico, não deve  resumir-se a uma maquiagem ou adorno, que tornem apenas o espaço belo e atrativo, tal como num “paisagismo” alienado dos processos socioculturais e socioambientais. O termo não é adotado, aqui, como a arte e a técnica de planejar e organizar a paisagem, nem mesmo utilizado como distintivo de uma área do conhecimento, mas sim com uma acepção que envolve a ideia de artificialismo e superficialidade, aderida a uma visão estritamente mercadológica.

Quando, então, um museu é criado como elemento que compõe certa paisagem, e, inclusive, escolhido como o atrativo cultural mais expressivo do ambiente, assumindo, consequentemente, o papel de centro difusor de uma narrativa de conscientização e compromisso com a realidade em torno dele, suas ações devem extrapolar seus contornos. Assim, deveria compreender-se como um misto de cultura e natureza, que se hibridizam, de modo a se tornarem uma unidade complexa e inseparável.

Parte da sociedade considera os museus, em suas tipologias mais convencionais,  instituições voltadas para o passado. Entretanto, fugindo de tal concepção limitada, pode-se afirmar que os museus são transtemporais, já que atravessados por tempos diversos que se conjugam mutuamente. Se a ideia de futuro está embutida nessa concepção, quando, em torno de um determinado museu preocupado com o amanhã, impõe-se uma clara realidade de degeneração ambiental, as contradições emergem avassaladoramente e revelam, tal como se deu com o olhar do poeta que seguiu o rio em direção ao Recife, as mazelas de uma sociedade que nenhum paisagismo é capaz de ocultar. E, nessa hora, tanto para o nativo da comunidade como para o turista acidental, a narrativa de preservação da natureza e do ambiente circundante, e o compromisso do museu e das ditas políticas públicas de turismo com as gerações futuras, entram em evidente conflito. O museu torna-se o catalizador de oposições nada sutis que habitam a paisagem cultural e coloca-se a serviço de um “paisagismo cultural” contraditório ao papel que deveria exercer.

Se os museus desejam ser “instituições para além de sua apropriação como produto” (GODOY, 2010, p. 200), deveriam, como orienta o ICOM, propor, desde seu nascimento, ações conjuntas [3] voltadas para a administração do espaço intra e extra muros, que respeite os valores de sua comunidade e de sua paisagem, inserindo-se como participante ativo das políticas públicas e urbanas, definindo e implementando políticas relacionadas com a proteção, a interação e a responsabilidade ética sobre a paisagem cultural.

“Considerada uma das grandes responsáveis pela prática do turismo” (LOHMANN; PANOSSO, 2008, p. 106), a paisagem não pode, portanto, ser descolada das funções do museu.  É como se o rio não desembocasse no mar. Tal como em outro trecho do poema “O Rio”, de João Cabral de Melo Neto, subintitulado “Os dois mares”,

A um rio sempre espera 
um mais vasto e ancho mar. 
Para a agente que desce 
é que nem sempre existe esse mar, 
pois eles não encontram 
na cidade que imaginavam mar 
senão outro deserto 
de pântanos perto do mar.
(“O Rio”, de João Cabral de Melo Neto)

Resta saber, portanto, em que Rio os museus querem navegar.

Referências

  • DEBORD, Guy. A sociedade do espetáculo. Rio de Janeiro: Contraponto, 1997.
  • GODOY, Karla Estelita. Turistificação dos museus no Brasil: para além da construção de um produto cultural. In: Anais do Museu Histórico Nacional. V. 42. Rio de Janeiro: MHN, 2010.
  • GROYS, Boris. A cidade na era da sua reprodutibilidade turística. Cidades: Etnografias Metropolitanas. 25ª Bienal de São Paulo. São Paulo: Fundação Bienal de São Paulo, 2002.
  • IPHAN. Maria Regina Weissheimer (Org.). Paisagens culturais. Brasília: Depam - Departamento de Patrimônio Material e Fiscalização, 2009. Disponível em: <http://portal.iphan.gov.br/uploads/ckfinder/arquivos/Livreto_paisagem_cultural.pdf>. Acesso em: 29/04/2016.
  • MELLO NETO, João Cabral de. O Rio ou Relação da Viagem que Faz o Capibaribe de sua Nascente à Cidade do Recife. 1954. In: Poesias completas: 1940-1965, Rio de Janeiro: J.Olympio, 1986.
  • LOHMANN, Guilherme; PANOSSO NETTO, Alexandre. Teoria do Turismo: conceitos, modelos e sistemas. São Paulo: Aleph, 2008.
  • MELO NETO, João Cabral de. O Rio ou Relação da viagem que faz o Capibaribe de sua nascente à cidade do Recife, 1953. Disponível em <http://www.jornaldepoesia.jor.br/joao05a.html>. Acesso em: 29/04/2016.
  • PIRES, Claudia Moreira de S.; CASTRO, Jânio Roque Barros de. Paisagem e lugar no contexto da turistificação de Guaibim-Valença, BA: uma leitura a partir das políticas públicas e da comunidade local. Disponível em: < http://www.uesb.br/eventos/ebg/anais/5h.pdf>. Acesso em: 29/04/2016.
  • SANTOS, Milton. A Natureza do Espaço: técnica e tempo, razão e emoção. 4 ed. São Paulo: Editora da Universidade de São Paulo, 2008.
  • TRIGO, Luciano. Em ‘O Rio’, João Cabral faz viagem poética pelo Capibaribe. 2012. Disponível em: <http://g1.globo.com/platb/maquinadeescrever/2012/11/21/1269/>. Acesso em: 30/04/2016.
  • URRY, John. O olhar do turista: lazer e viagens nas sociedades contemporâneas. 3 ed. São Paulo: Studio Nobel; SESC, 2001.

[1] Professora Adjunta IV do Departamento de Turismo da Universidade Federal Fluminense.
Vice-coordenadora e professora do Programa de Pós-graduação em Turismo – PPGTUR/UFF, e do curso de Bacharelado em Turismo da Universidade Federal Fluminense.
Coordenadora Geral do Grupo de Pesquisa Turismo, Cultura e Sociedade – UFF (certificado no Diretório dos Grupos de Pesquisa no Brasil – CNPq) e do Grupo de Estudos e Pesquisas em Turismo e Museus.
Coordenadora de Disciplina do curso de Licenciatura em Turismo (Educação a Distância) da Universidade Federal Rural do Rio de Janeiro (UFRRJ) e da Universidade Federal do Estado do Rio de Janeiro (UNIRIO) pelo Consórcio CEDERJ.
Pós-doutorado no Programa de Pós-graduação em Antropologia da Universidade Federal Fluminense (UFF), Doutora em Políticas Públicas e Formação Humana pela Universidade do Estado do Rio de Janeiro (UERJ), Mestre em Memória Social e Bacharel em Museologia, ambos pela Universidade Federal do Estado do Rio de Janeiro (UNIRIO).
Currículo Lattes: http://lattes.cnpq.br/7899304734293116

[2] Chancela é uma espécie de selo de qualidade, um instrumento de reconhecimento do valor cultural de uma porção definida do território nacional, que possui características especiais na interação entre o homem e o meio ambiente. (IPHAN, p. 18, 2009).

[3] Para tanto, deve-se abrir para escutar a sociedade, e com ela estabelecer diálogos que gerem sentidos de pertencimento ao espaço público. 

 

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