head artigos 18maio2016

Manuelina Maria Duarte Cândido [1]

Ao longo do século XX, mas tendo como uma das inspirações os museus etnográficos ao ar livre surgidos no século XIX na Escandinávia, começam a se constituir novos modelos museológicos que Meijer-Van Mensch e Van Mensch (in Pettetsson, Hagedorn-Saupe, Jyrkkyö & Weij, 2010) caracterizam como saídos da especialização disciplinar para a especialização geográfica: são inicialmente museus locais, que na Alemanha se configuram em um termo ligado ao sentimento de pertencimento a um local, o Heimatmuseum. Mais tarde outras experiências buscam esta conexão com o local, como os museus de vizinhança e os ecomuseus. Há uma quebra de paradigmas na qual a coleção não é mais necessariamente o motor do processo de musealização, mas um campo de relações: entre pessoas, seu patrimônio e seu meio ambiente (território) e, em especial, a qualificação destas relações em proveito do desenvolvimento da sociedade. Daí a conexão entre o conceito de ecomuseu e museu integrado, enunciado na Mesa Redonda de Santiago do Chile em 1972, sobre O Desenvolvimento e o Papel dos Museus no Mundo Contemporâneo, em que integração passou a ser palavra de ordem e o caminho da especialização dos museus e das coleções deu uma nova guinada em direção à interdisciplinaridade.

O conceito de museu integrado dialoga com o de paisagem cultural, adotado pela UNESCO em 1992. No Brasil o Instituto do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional estabeleceu o instrumento de preservação denominado paisagem cultural em 2009, por meio da Portaria nº 127, que cria uma chancela para “porções peculiares do território nacional, representativas do processo de interação do homem com o meio natural, à qual a vida e a ciência humana imprimiram marcas ou atribuíram valores”. O Rio de Janeiro foi a primeira paisagem cultural urbana reconhecida em todo o mundo pela UNESCO.

Particularmente, a noção de que é “a ocorrência, em determinada fração territorial, do convívio entre a natureza, os espaços construídos e ocupados, os modos de produção e as atividades culturais e sociais, numa relação complementar capaz de estabelecer uma identidade que não possa ser conferida por qualquer um desses elementos isoladamente” que caracteriza a paisagem cultural, indica grande potencialidade para a conexão entre esta e a noção de museu integrado, quando compreendido como a quebra de paradigmas capaz de ampliar a relação homem-objeto-cenário de público-coleção-edifício para sociedade-patrimônio integrado-território.

Como campo, a Museologia se configura, segundo Chagas, a partir da relação entre seres humanos, objetos culturalmente qualificados e espaços socialmente constituídos: museu não é algo dado, mas um código compartilhado, ou seja, é o argumento museológico que caracteriza algo como museu, seja uma cidade, um parque natural, um jardim zoológico. O processo de musealização é, segundo o autor, um “dispositivo de caráter seletivo e político, impregnado de subjetividades, vinculado a uma intencionalidade representacional e a um jogo de atribuição de valores socioculturais. Em outros termos: do imensurável universo do museável (tudo aquilo que é passível de ser incorporado a um museu), apenas algumas coisas, (a que se atribuem qualidades distintivas, serão destacadas e musealizadas) [...]” (Chagas, 2003, p. 18).

Defendo aqui que para a Museologia, a preservação corresponda a processos de musealização tidos como a aplicação de procedimentos da cadeia operatória museológica, a saber, salvaguarda [2] e comunicação [3] patrimoniais que corresponde ao universo de aplicação da Museologia, a museografia.. Estes seriam princípios comuns aos mais diferentes modelos museológicos possíveis diante das ondas de transformação que reviraram o pensamento e as práticas museológicas contemporâneas (Duarte Cândido, 2003). Cada vez mais experiências estão centradas no conceito de referências patrimoniais opondo-se à práxis do colecionismo e tornando o museu espaço de interação social com o patrimônio. O momento é de uma ampliação conceitual e de uma mudança de papéis, tanto para os museus quanto para a sociedade, nessa relação. O ponto de partida é uma nova compreensão do que seja o objeto, patrimônio integrado, envolvendo aspectos de nossa herança – cultural e natural – interpretada pela ótica interdisciplinar.

Considero, portanto, que o processo de musealização ocorre a partir de uma seleção e atribuição de sentidos feita dentro de um universo patrimonial amplo, resultando em um recorte formado por um conjunto de indicadores da memória ou referências patrimoniais tangíveis ou intangíveis, naturais ou artificiais, indistintamente. A preservação é tomada, aqui, como equivalente a processo de musealização, e é realizada pela aplicação da referida cadeia operatória formada por procedimentos técnico-científicos de salvaguarda e de comunicação patrimoniais, em equilíbrio. Representando tanto a responsabilidade pela herança constituída para o futuro, como a comunicação permanente e processual, esta cadeia operatória é necessariamente inserida em um contexto de planejamento e avaliação, ou seja, é contínua, não uma linha de operação: cada estágio de avaliação realimenta o planejamento. A preservação, ou processo de musealização, abrange desde a seleção das referências patrimoniais à devolução para a sociedade, que por sua vez produz novos bens patrimoniais e interfere em novas seleções e atribuições de sentido, em moto contínuo.

Ao adotar como tema para a Conferência Geral em Milão e para o Dia Internacional dos Museus em 2016 o tema Museus e Paisagem Cultural, o Conselho Internacional de Museus (ICOM) evoca a responsabilidade dos museus perante o patrimônio tangível e intangível que caracteriza os diferentes territórios, encorajando-os para a ação intra e extra-muros e realçando seu potencial para contribuição com os processos de gestão territorial e desenvolvimento local sustentável. Lembrando que as paisagens são dinâmicas e que preservá-las não consiste em congelá-las, o ICOM reforça uma ideia presente nas primeiras formulações do conceito de ecomuseu, que por possuir este prefixo eco é, muitas vezes, confundido com um museu da natureza ou um parque natural, enquanto que para ser ecomuseu há necessariamente uma população habitando este território. A ideia ecológica presente no termo ecomuseu não prescinde do elemento humano como parte desta ecologia. Para retomar o pensamento de Rivière, vale lembrar que o ecomuseu funciona como um espelho onde uma comunidade se percebe e projeta sua imagem para as demais. Além disto, tudo nele é apresentado em função do homem: seu meio ambiente, suas crenças, suas atividades da mais simples à mais complexa (Desvallées, 1992, p. 26).

Estes conceitos não são novos mas os museus raramente se libertaram de seus muros lançaram o olhar para seu entorno. Em geral, permanecem voltados para as coleções. É, portanto, pertinente que o ICOM lance o tema Museus e Paisagens Culturais como provocação para mais uma vez os museus pensarem sobre o fato de que o que preservam é no máximo uma pequena amostra (referências patrimoniais) de um universo referenciado muito mais rico, dinâmico, que está fora dos seus muros e sobre o qual lhes cabe refletir e atuar.

[1] Historiadora, especialista em Museologia, mestre em Arqueologia e doutora em Museologia.
Membro da Subcomissão de Conteúdo do Comitê Organizador da 23ª Conferência Geral do ICOM, no Rio de Janeiro, em agosto de 2013.

[2] Documentação e conservação.

[3] Exposição e ação educativo-cultural.

Referências bibliográficas

  • MEIJER-VAN MENSCH, Léontine ; VAN MENSCH, Peter. « From disciplinary control to co-creation – collecting and the development of museums as praxis in the nineteenth and twentieth century. » In : PETTERSSON, Susanna; HAGEDORN-SAUPE, Monika; JYRKKIÖ, Teijamari; WEIJ, Astrid (eds.). Encouraging collections mobility: a way forward for museums in Europe. S.l.: Finnish National Gallery / Erfgoed Nederland / Institut für Museumsforchung / Staatliche Museen zu Berlin – Preussischer Kulturbesitz, 2010.
  • CHAGAS, Mario de Souza. Imaginação museal: museu, memória e poder em Gustavo Barroso, Gilberto Freyre e Darcy Ribeiro. Tese apresentada ao Programa de Pós-Graduação em Ciências Sociais – UERJ, para a obtenção do grau de doutor, Rio de Janeiro, 2003.
  • DESVALLÉS, André. Vagues: une anthologie de la nouvelle museologie. Paris: W M. N. E. S., 1992. Vol. 1.
  • DUARTE CÂNDIDO, Manuelina Maria. Ondas do Pensamento Museológico Brasileiro. Lisboa: ULHT, 2003. (Cadernos de Sociomuseologia, 20). 259 p.

 

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