head artigos 18maio2016

Pedro Paulo A. Funari [1]

O que são paisagens? Há já uma particularidade linguística nessa questão. O Conselho Internacional de Museus (ICOM), ao apresentar o tema Museus e paisagens culturais, introduziu uma diversidade de conceitos. Em inglês, há uma ênfase particular na terra (land), por oposição a outros termos que existem nesse idioma e que se referem ao ambiente urbano (cityscape) e até mesmo vista do céu (skyscape). Já nos idiomas neolatinos do ICOM, em francês e espanhol, a expressão paisagem (paysage, paisage) deriva de país, termo que designa a terra e precisa de adjetivos para designar a paisagem urbana ou do céu. Isto significa que a paisagem cultural define-se pela relação entre o ser humano e a natureza, pois a terra (land) e o país são criações humanas. Neste âmbito, paisagem cultural apenas intensifica, com o adjetivo, o aspecto humano do contexto natural. Paisagens, portanto, são uma mescla daquilo que cresce e frutifica (este o sentido de physis, em grego, e de natura, em latim, aquilo que nasce e cresce) e de como os humanos interpretam, manipulam e transformam o ambiente. Paisagem cultural, com esses dois termos, coloca a ênfase nessa apropriação humana.

Assim, tanto museus como paisagens culturais estão centradas no ser humano, cujas características são as mais contraditórias. Quando somos otimistas e benevolentes, definimos o humano por seus atributos mais altruístas: sua capacidade de ajudar, de forma desinteressada, o semelhante ou mesmo o diferente. Os cães são o testemunho dessa característica humana, pois é uma espécie que depende da generosidade humana e dela participa. Por outro lado, os gregos antigos já diziam que o conflito estava no centro de tudo, polemos pater pathon, “o conflito é o pai de todas as coisas”. A guerra é a mais antiga das instituições humanas, atestada desde os primórdios. Portanto, a humanidade de paisagens e museus não pode garantir, apenas por isso, que seja benéfica e construtiva.

Os museus estiveram, há muito tempo, a serviço da opressão, na medida em que o nacionalismo e o imperialismo fundaram essa instituição. O próprio conceito de paisagem serviu, em certo sentido, para que apenas alguns usufruíssem das benesses. Isto tudo continua, ainda, em nossa época. Há tantas paisagens que são apanágio de muito poucos. Os próprios museus servem, tantas vezes, a poucos. Museus e paisagens culturais, neste sentido, estão conectados, em aspectos essenciais do ser humano, em suas duas grandes tendências antagônicas: cooperação e competição, altruísmo e arrogância, bem comum de todos, ou de um indivíduo ou comunidade. Os avanços dos museus foram notáveis, com a inclusão, em muitos aspectos, das paisagens culturais, em sua diversidade e mesmo contradições. Há mesmo muitos museus que se integram, de forma admirável, à paisagem e dão a oportunidade a seus frequentadores de terem experiências únicas. São, contudo, uma minoria e sempre há a questão central, relativa à missão do museu em sua interação com a paisagem cultural. Os museus serão tanto mais humanos, quanto puserem sua interação com a paisagem como instrumento de libertação, de respeito à diversidade e de crescimento dos instintos humanos mais gregários. Esta tarefa talvez seja muito mais difícil do que parece, tendo em vista os impulsos destrutivos do ser humano. Mas, por isso mesmo, esse desafio merece todo o nosso empenho coletivo.

[1] Professor Titular do Departamento de História.
Coordenador do Núcleo de Estudos e Pesquisas Ambientais – Nepam.
Universidade Estadual de Campinas

 

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