head artigos 18maio2016

Paulo César de Campos Morais [1]

Museus históricos possuem a capacidade de produzir intercambio cultural entre povos. Por exemplo, o antropólogo José Reginaldo Santos Gonçalves nos atenta para um item culturalgeralmente tido como pouco relevantepara estudiosos, a rede-de-dormir. Presente em diversas atividades práticas e instâncias importantes da mediação entre a alma e o corpo, entre o imaterial e o material. Gonçalves se refere à rede-de-dormir, abordada com maestria por Luis da Câmara Cascudo:

“Em seu livro, Cascudo afirma que, adotada no século XVI pelos colonizadores europeus, a rede-de-dormir passa a integrar a vida cotidiana da colônia, de forma bastante extensiva, até meados do século XIX, quando vem a ser progressivamente substituída pela ‘cama’ (considerada então como um objeto ‘civilizado’, por oposição à rede, que será associada à ‘barbárie’, ao ‘atraso’) (Gonçalvez, 2005: 23)”.

Nas redes os indivíduos sentavam, deitavam, faziam refeições, conversavam, mercadejavam, traçavam planos e políticas (ibdem: 23-24). Ou seja, a rede é um elemento da cultura indígena adotado pelos colonizadores e que permanece nas residências brasileiras. Podemos citar também os contatos físicos do abraço e do beijo ou elementos da culinária indígena como herança ou influências culturais presentes no Brasil.

No entanto, quando visitamos museus históricos brasileiros, pouco ou nada observamos daquela cultura, presente na nossa miscigenação. Os ferozes embates e intercâmbios do período colonial são ignorados. Inconscientemente ou por inexistência de objetos, temas e iniciativas, a ausência da cultura indígena nos museus históricos brasileiros é uma lacuna recorrente.Ter-se-ia mais a dizer da cultura afro-brasileira devido à escravidão de seus membros enquanto a indígena teria sido dizimada? Ou seríamos mais recalcitrantes aos “selvagens” por terem imposto pesadas perdas materiais e humanas aos invasores brancos? Ou nosso tipo de sociedade é avesso ao estilo de vida integrado à natureza?

Não se ignora a existência de museus indígenas. A intenção é questionar essa história fragmentada dos museus históricos. Índios, negros e brancos habitaram contemporaneamente a mesma região que se tornou o país chamado Brasil.Hal Langfur entende que o conflito armado entre colonizadores e índios (sobretudo botocudos) do sertão oriental das Minas Gerais não representa o encerramento da interação cultural nessa fronteira colonial. “A resistência violenta nuncafoi o único mecanismo de ação nativa. Casos de adaptação e cooperação, fuga, oposição não violenta, rendição e incorporação pacífica também ocorreram (Langfur, 2005: 258).” As primeiras tentativas de ocupação datam de meados do século XVIII, mas a pacificação ocorreu somente no início do século XX.Demeados do século XVIII até 1801 os botocudos foram responsáveis pelo abandono de mais ou menos 80 fazendas produtoras de alimentos, fato representativo da capacidade indígena de atrasar a colonização portuguesa.(ibidem: 283 e 261)

Certamente a ausência da cultura indígena dos museus não pode ser creditada à inexistência total de registro dos confrontos, Hangfur afirma haver registro da ocorrência de 85 confrontos entre indígenas e portugueses entre1765 e 1804 (2005: 270). Ou seja, é possível contextualizar fatos da história da colonização aos embates luso-botocudos.

Parece-me que estas indagações podem instigar pesquisas sobre a relação colonizadores e indígenas (e tais relações ocorriam nas periferias de centros urbanos com Vila Rica e Caeté). E havendo pesquisas a possibilidade de uma história mais abrangente torna-se mais provável e capaz de habitar as moradias da cultura dominante.

[1] Sociólogo. Doutorado na UFMG. Pesquisador da Fundação João Pinheiro.

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