Vânia Dolores Estevam de Oliveira [1]

Goiânia fez 82 anos em 2015 e, como uma cidade jovem, seus idealizadores, governantes e até mesmo muitos de seus moradores, cultivam a imagem de modernidade, progresso e riqueza econômica, em sintonia com os ideais de seu tempo. Por ser recente, muitos de seus habitantes expressam a noção de que, por sua pouca idade, Goiânia não tem história, numa clara associação entre esta ciência e um passado necessariamente remoto, conceito há muito ultrapassado pelos historiadores. De igual modo, seus governantes e habitantes cultivam a imagem de centro urbano com uma das melhores qualidades de vida do país, auto intitulando-se "capital verde do Brasil". No site oficial do Município lê-se que Goiânia "figura entre as cidades com melhor índice de qualidade de vida do país. Município brasileiro com maior área verde por habitante (94 m²)" (PREFEITURA, 2016).

A cidade planejada e construída para abrigar a capital do Estado de Goiás, em substituição à antiga Vila Boa de Goiás, sua capital primeira, teve sua pedra fundamental lançada a 24 de outubro de 1933. Foi inicialmente prevista para abrigar cinquenta mil habitantes, mas conta hoje com mais de um milhão e trezentos mil habitantes (PREFEITURA, 2016) [2]. Portanto, já apresenta alguns problemas: crescimento desordenado, com a formação de bolsões de pobreza em sua periferia; presença do tráfico de drogas e consequente aumento da população marginalizada e da criminalidade. Por estes e outros problemas, sua qualidade de vida já não é tão invejável assim, embora ainda guarde vantagens em relação a outras capitais brasileiras.

Como todo conjunto urbano, Goiânia apresenta pontos ou elementos marcantes: praças, parques, monumentos, que servem de referências visuais no espaço urbano (Lynch, 1988), que ao lado da paisagem natural e de elementos histórico-sociais formam o que se conceitua como paisagem cultural. O tema eleito este ano para as comemorações do Dia Internacional de Museus – Museus e Paisagens Culturais - vem dialogar diretamente com os problemas atuais gerados pelo crescimento urbano desordenado.

Quantos museus há em Goiânia? Quantos já visitaram museus? São algumas das perguntas feitas no primeiro contato com alunos, tanto da graduação quanto da Pós. Em plateias com professores e alunos é possível acrescentar também duas outras questões: qual a motivação para a visita; e em que condições? Sozinhos? Acompanhados pela família ou por grupo de alunos? Em viagens de turismo? Nas turmas da graduação em Museologia da Universidade Federal de Goiás (UFG), é comum o total desconhecimento da existência daquelas instituições na cidade, e até mesmo no estado. O que é de estranhar, uma vez que se trata de um curso de formação de museólogos. Quando conhecem, referem-se apenas aos mais conhecidos, e nunca sequer chegam perto do número total de museus na cidade. Em sua grande maioria, esses futuros museólogos fazem sua primeira visita a museus, durante as disciplinas do curso.

Na disciplina Performances Urbanas, ministrada na pós-graduação, costumo usar de outro artifício que, além de motivar para as questões do urbano que norteiam a disciplina, também indica o lugar do museu no imaginário dos alunos [3]. São distribuídas folhas de papel tamanho A3 e bastões de giz de cera colorido, pedindo que desenhem um mapa de seu caminho entre residência e local da aula, e que assinalem pontos de referência nesse trajeto que julguem importantes. Ou seja, que desenhem mapas mentais - representações do espaço percorrido ou vivido, que expressam as sensações visuais, olfativas, auditivas e até emoções conscientes ou inconscientes.

O termo mapa mental parece oferecer muito mais, soa como se tivesse referência com a soma total de todo conhecimento espacial que qualquer indivíduo carrega consigo na forma de conhecimento tácito e imagens espaciais potenciais (PETCHENIK, 1995).

Os mapas resultantes são surpreendentemente desapontadores para uma museóloga: não trazem, regra geral, qualquer referência a museus nessa representação, apesar do pedido de representação de elementos importantes ou, fazendo uso da expressão de Lynch (1988), elementos marcantes do espaço urbano. Contudo, apesar do desapontamento, os mapas produzidos são 'bons para pensar', como já dizia Lewis Strauss. É possível a partir dessas duas experiências, inferir algumas percepções iniciais.

Pelas reações e respostas obtidas com frequência nessas breves enquetes e exercícios de construção de mapas mentais, verifica-se que a presença da instituição museal é quase nula no imaginário individual dos habitantes de Goiânia. Museus vivem do público e para o público. Então, o que pensar de museus que sequer são conhecidos de seu público mais próximo: o habitante da cidade, até mesmo do bairro em que se insere? Algo da função comunicacional dos museus, e social por extensão, não está sendo efetivamente concretizado, nem surtindo efeitos positivos.

Goiânia, como a maioria das grandes cidades do mundo vem sofrendo uma desumanização constante, e por isso, forjando indivíduos solitários. Os equipamentos urbanos mais voltados para atender veículos que pedestres, e a quase ausência de atenção às necessidades de idosos e pessoas portadoras de deficiência, dão a nota cruel resultante do crescimento desordenado. O que condiz com as previsões quase catastróficas de Lewis Mumford (2008) em sua obra sobre a história da urbanização da humanidade. Contudo, o mesmo autor aponta caminhos e instituições que poderão reverter tais 'profecias'. Dentre essas instituições, ao lado da biblioteca, do arquivo, dos hospitais e da universidade, Mumford situou o museu. Mesmo tecendo críticas, como ao gosto desnorteado pela aquisição, a acumulação colecionista dessas instituições, ou "Síndrome de Noé", como bem apelidou Choay (2001); ou à tendência a medir o êxito, exclusivamente pela quantidade de público que recebe, para o museu ele previu um papel redentor na vida social e cultural das cidades.

Em sua forma racional, como instrumento de seleção, o museu é uma contribuição indispensável à cultura das cidades; e quando chegarmos a pensar na reconstituição orgânica das cidades, veremos que o museu, não menos que a biblioteca, o hospital, a universidade, terá uma nova função na economia regional (MUMFORD, 2008, p. 670).

É inquietante saber que a imagem dos museus, ou ausência dela, não reflete essas perspectivas positivas prenunciadas por Mumford. Essas instituições de memória não ocupam nenhum lugar de relevo na memória das pessoas da cidade. Não afeta nem desperta afetos nas pessoas que circulam em volta de si. São imóveis, literal e simbolicamente, além de invisíveis, mesmo quando ocupam prédios imponentes. 

Apesar do tom preocupado, e dos tempos sombrios que o país atravessa, não é intenção aqui passar uma visão pessimista do futuro. Ao contrário, no momento em que computamos a formação de 22 museólogos pelo curso de bacharelado em Museologia pela Faculdade de Ciências Sociais da Universidade Federal de Goiás, reacende-se a esperança de que os museus de Goiânia passem a representar, cada qual a seu modo, um ‘cantinho’ especial na casa-cidade que os acolhe. Para tal, urgente se faz que os poderes constituídos abram espaço para esses novos profissionais. Pela atuação desses novos museólogos, tem-se a certeza de que os museus poderão desempenhar seu papel social, cumprindo sua responsabilidade sobre a paisagem cultural da qual fazem parte. Esses novos museólogos, com o aporte de sua parcela de conhecimentos e competências próprias, podem transformar-se em protagonistas ativos na gestão dos museus goianos e de boas ações em relação à paisagem cultural, zelando pelo seu patrimônio e memória, musealizados ou não.

[1] Museóloga e doutora em Memória Social (UNIRIO, 2011); docente no bacharelado em Museologia da Faculdade de Ciências Sociais da UFG e do Programa de Pós Graduação Strictu Sensu Interdisciplinar em Performances Culturais.

[2] Dados obtidos no IBGE, segundo o site oficial da cidade.

[3] Esta atividade, além das perguntas relatadas no início deste texto, fazem parte dos instrumentos de coleta de dados do subprojeto de pesquisa "Museologia e Performances Urbanas", inserido no projeto Museologia e Memória Social em Performances Culturais", coordenados pela autora.

Referências

  • CHOAY, Françoise. A alegoria do patrimônio. Tradução de Luciano Vieira Machado. São Paulo: Estação Liberdade; Ed.UNESP, 2001.
  • LYNCH, Kevin. A imagem da cidade. Tradução Maria Cristina Tavares Afonso. Lisboa: Edições 70; São Paulo : Martins Fontes, 1988.
  • MUMFORD, Lewis. A cidade na história: suas origens, transformações e perspectivas. 5ª ed. Trad. Neil R. da Silva. São Paulo : Martins Fontes, 2008.
  • PETCHENIK, Bárbara Bartz. Cognição e cartografia. Geocartografia. n.6, São Paulo : USP, 1995.
  • PREFEITURA DE GOIÂNIA. Goiânia, 2016. Disponível em <http://www4.goiania.go.gov.br/portal/goiania.shtml>. Acesso em 31 mar. 2016.

 

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