Dia Internacional de Museus 2017

Marcelo Araujo [1]

O museu hoje é uma instituição que se reivindica como um espaço democrático, aberto ao novo, ao diálogo. Quando se pensou que o futuro poderia ser tema de um museu? Que o museu poderia contar com um acervo virtual? Que o cotidiano poderia estar em um museu? Que a própria comunidade poderia contar sua história?

As histórias e também os discursos museológicos são construções sociais. Narrar o passado é reinventá-lo, é colocá-lo sob o filtro interpretativo de seu narrador, seja ele um livro, um jornal, uma pessoa, uma exposição, uma instituição.

O Instituto Brasileiro de Museus - Ibram, desde sua criação, tem buscado quebrar paradigmas no que tange à função social do museu e às narrativas impostas como verdades. Um exemplo é o Programa Pontos de Memória, que reconhece e busca fortalecer o papel dessas iniciativas sociais como guardiãs e propulsoras das memórias de grupos e comunidades.

Nossas publicações também têm se orientado por temas que permitem novos olhares sobre os museus e suas coleções. A coleção “Museu, Memória e Cidadania”, que integra o programa editorial do Ibram, visa a publicação de dissertações, teses, ensaios e pesquisas que tratam de questões museológicas e das relações entre museus e sociedade. O holocausto e a ditadura militar brasileira foram alguns dos temas já tratados por essa coleção, que assim busca levar o leitor a refletir sobre os processos de construção e reconstrução da memória social.

O tema do Dia Internacional de Museus deste ano, “Museus e histórias controversas: dizer o indizível em museus” nos suscita questões como essas acima apresentadas, e nos conduz à procura de novas soluções. Essa mudança de pensamento é um ganho imenso não só para os museus, mas para a sociedade que se apropria dessas instituições.

Por tempos, foi recorrente nos museus a seleção e a guarda de objetos representativos das memórias das classes dominantes, produzindo esquecimentos e lacunas no acervo de peças que pudessem expressar os feitos daqueles que a escrita oficial da História optou por silenciar.

Assim, o museu - espaço de legitimação e valorização sociocultural - elenca e discrimina, ao mesmo tempo, produz vozes e silêncios, e define o que será colocado à vista. Entretanto, ao se abrirem para o diálogo com grupos sociais ausentes das narrativas museológicas tradicionais, as instituições começam a repensar o que foi imposto como verdade única. Com isso, preconceitos são confrontados e outras possibilidades de narrativas são levantadas.

Refletir sobre as ausências, contudo, não significa necessariamente adotar como prática atulhar os museus de objetos e memórias, buscando preencher todas as lacunas e representando todas as versões e grupos sociais, segundo uma vontade insaciável de guardar e lembrar.

Tal empreitada iria torná-los tão impossíveis como uma música sem pausas e silêncios, mais próxima ao barulho do rush citadino do que a precisa regência de um maestro. Antes, faz-se necessário pensar sobre os “não ditos” nos museus, tendo em mente as inúmeras possibilidades de construção museológica que essas instituições nos oferecem. Estes silêncios podem nos ajudar a pensar sobre a própria elaboração e representação do passado, bem como sobre os dispositivos de poder mobilizados na legitimação de memórias. E nosso grande desafio é articular os silêncios com as peças dos acervos, de modo a construir novos ritmos e harmonias nos discursos museológicos.

Convocamos todos os profissionais do campo museal brasileiro a se unirem nessa empreitada desafiadora.

[1] Presidente do Instituto Brasileiro de Museus – Ibram/MinC.

 

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