Dia Internacional de Museus 2017

Manuelina Maria Duarte Cândido [1]

“Los principios éticos exigen una atención del
pasado consciente y responsable. Los museos son
parte de la memoria colectiva y por lo tanto
también son responsables en parte de las visiones
que transmite la historia. No existe una versión
única de la historia - vale decir oficial -, sino
muchas interpretaciones diferentes. ¿Qué museo
nacional, regional o local se atreve a mostrarlas?”
(Schaerer, 2006, p. 43)

O tema do Dia Internacional de Museus 2017 e, por consequência, da Semana Nacional de Museus, no Brasil, não podia ser mais apropriado: Museus e Histórias Controversas: dizer o indizível em museus. O Conselho Internacional de Museus (ICOM), ao propor este tema, afirmou:

“Infelizmente, as histórias contestadas não são eventos traumáticos isolados. Essas histórias, muitas vezes pouco conhecidas ou incompreendidas, ressoam universalmente, pois elas nos preocupam e afetam a todos.”

E desta forma, o ICOM recomenda envolver os visitantes em uma reflexão que extrapole suas experiências individuais e que estimule imaginar um futuro compartilhado sob a bandeira da reconciliação.

São tantos os temas ainda invisibilizados nos museus: as histórias e memórias dos negros, dos indígenas, das mulheres, da comunidade LGBT, dos refugiados migrantes e imigrantes (aqueles trajetórias não redundaram em sucesso econômico e que não foram por isso romantizadas, descontextualizadas), de todos que foram historicamente subalternizados e vilipendiados.

Estas histórias apenas começam a ser apresentadas, discutidas nos museus. Algumas vezes elas também passaram a gerar processos de musealização inteiramente novos, surgidos de uma lógica impensável décadas atrás, de que todas as histórias merecem ser contadas pelos museus, de que todos os grupos têm direito à memória e à representação nas instituições museais. Mas não foi sem zanga e arenga que estes espaços começaram a ser conquistados.

A zanga, aborrecimento, desavença, dissenção, bem como a arenga, discórdia, conflito, disputa, pareciam ser categorias indesejáveis para os museus como tradicionalmente foram concebidos: lugares de contemplação e de encontro com o belo. Aparentemente os museus não se envolviam em controvérsias, mas exibiam visões consensuais e triunfais da realidade. Evidentemente, esta imagem não resistiria a uma análise mais aprofundada, a começar pela constatação de que versões vencedoras da história sempre ocultam os derrotados, a chamada “história vista de baixo”, e que em todos os campos do conhecimento que podem ser representados nos museus, sempre existem controvérsias:

“Por más que se postule en forma neutra, aduciendo y teniendo en cuenta criterios temáticos y geográficos - auténtico, ejemplar, típico, representativo, elemental, fundamental, innovador o basado en un modelo - el proceso de selección a través del cual se construye la historia ofrece siempre un elemento que lo fija a la cultura, pero que está también falsificado y por lo tanto es peligroso, ya que es susceptible de manipulación. La posición de poder del museo resultante, no debería ser subestimada, sobre todo porque, a diferencia de la Academia, sus visiones de mundo son anónimas y están presentadas en un contexto que otorga autoridad.”

(Shaerer, 2006, p.43)

Em uma década muito emblemática de transformação dos museus e da Museologia após a Conferência geral do ICOM de 1971 e a Mesa Redonda de Santiago do Chile em 1972, o canadense Duncan Cameron publicou o famoso texto “O museu: um templo ou um fórum” (Cameron, 1991, in Desvallées, 1992), sendo templos os locais dos vencedores e dos produtos acabados, enquanto os fórum, espaços para ação, os processos, os debates. Uma terceira imagem é possível: o museu como arena, assim como todo o campo patrimonial o é, eivado de disputas e conflitos, mas arena também no sentido de espaço do espetáculo, em que os agentes se encontram para demonstrar domínio da ritualidade e competir em retórica (a este respeito, ver Brumann, 2012, p. 6).

Assim, arena poderá ser a categoria mais adequada para enquadramento dos museus, em que os aspectos de templo e de fórum não rivalizam mas se complementam, considerando o templo não no sentido de celebração, mas de realce, de espaço capaz iluminar, de pôr determinada questão e suas referências patrimoniais em relevo, e fórum não em um lugar de debate supostamente harmonioso sobre uma questão, mas de catarse das histórias traumáticas, de disputa de versões, de reconhecimento da contradições, de busca de uma reconciliação com a história que não passa pelo esquecimento. Dizer o indizível em museus é reconhecer esta gota de sangue que eles trazem (Chagas, 1999) e colocar a ferramenta museu a serviço da sociedade com toda sua potência para problematizar e evidenciar diferentes aspectos da memória e da história que foram negligenciados ou deliberadamente obscurecidos, para que a formação de consciências mais críticas, tão necessárias no contexto político contemporâneo, deixe de ser somente retórica e transforme nossas práticas.

[1] Licenciada em História pela Universidade Estadual do Ceará (1997), especialista em Museologia pela Universidade de São Paulo (2000), mestre em Arqueologia pela Universidade de São Paulo (2004) e doutora em Museologia pela Universidade Lusófona de Humanidades e Tecnologias (2012, Lisboa - Portugal). Realizou estágio pós-doutoral na Université Sorbonne Nouvelle, Paris III, sob supervisão de François Mairesse (2014-2015). Professora Adjunta II da Universidade Federal de Goiás (UFG), do curso de Museologia. Professora convidada de Museologia na Universidade de Würzburg, Alemanha. Foi Diretora do Departamento de Processos Museais do Instituto Brasileiro de Museus (MinC). Integra a Comissão Nacional de Incentivo à Cultura (CNIC), bancada de Patrimônio, assessorando o Ministério da Cultura (mandato 2017/2018).

Referências bibliográficas

  • BRUMANN, Christoph. “Multilateral Ethnography: entering the World Heritage arena” in: Working Paper, No. 136. Halle, Saale: Max Planck Institute for Social Anthropology, 2012. 18 p.
  • CAMERON, Duncan. “Le musée: un temple ou un forum” (1971) in: DESVALLÉES, André (org.). Vagues: une anthologie de la nouvelle museologie. Vol. 1. Paris: W M. N. E. S., 1992, p. 77-86.
  • CHAGAS, Mario. Há uma gota de sangue em cada museu: a ótica museológica de Mário de Andrade. Lisboa: Universidade Lusófona de Humanidades e Tecnologias, 1999. (Cadernos de Sociomuseologia, 13)
  • SCHAERER, Martin. “Museología y Historia” in: VIEREGG, Hildegard K.; GORGAS, Mónica Risnicoff de; SCHILLER, Regina; TRONCOSO, Martha (eds.). Museología e Historia: Museología - Un Campo del Conocimiento. Munich/Germany and Alta Gracia/Córdoba/Argentina: ICOM/ICOFOM, 2006. p. 40-45. (ICOFOM Study Series – ISS 35)

 

Agenda

Seg Ter Qua Qui Sex Sáb Dom
1
2
3
4
5
6
7
8
9
10
11
12
13
14
15
16
17
18
19
20
21
22
23
24
25
26
27
28
29
30