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Adler Homero F. de Castro [1]

No final dos anos 1980, um pesquisador fez uma enquete informal entre várias pessoas, perguntando: “Quando você pensa na Independência do Brasil, o que lhe vem à cabeça?”. Em todos os casos, foi citada a recordação da cena retratada na pintura "Independência ou Morte" (Pedro Américo, 1888), quadro produzido por encomenda do governo e que se transformou na peça central do Museu Paulista, inaugurado em 1895. De fato, há várias obras icônicas produzidas no final do século XIX que se fazem presentes na memória nacional, como "A batalha de Avaí" (Pedro Américo, 1877) e "A batalha de Guararapes" (Victor Meirelles, 1879), ambas pertencentes ao acervo do Museu Nacional de Belas Artes. Essas pinturas são representações concretas de acontecimentos efêmeros que deixaram poucos vestígios materiais, mas que ainda estão vivos na memória nacional, por meio de textos dos livros de história e, principalmente, por essas imagens.

"Independência ou morte", Pedro AméricoIndependência ou morte, Pedro Américo
Disponível em: https://pt.wikipedia.org/wiki/Ficheiro:Independ%C3%AAncia_ou_Morte.jpg ,acesso em abril de 2018.

As pinturas históricas são muito importantes para a discussão do tema "Museus Hiperconectados: novas abordagens, novos públicos", apresentado pelo ICOM este ano em comemoração do dia internacional dos museus. Segundo o texto de divulgação do evento, as entidades museológicas são:

Parte inerente de suas comunidades locais, sua paisagem cultural e seu meio ambiente natural. Graças à tecnologia, museus agora podem atingir muito além de seu público central e achar novos púbicos quando tratando suas coleções de uma forma diferente: pode ser a digitalização de suas coleções, somando elementos multimídia à exposição ou às vezes algo tão simples como uma hashtag que permita aos visitantes compartilhar sua experiência na mídia social. [2]

O texto do ICOM, apesar de ter apontado para uma realidade evidente, a das possibilidades que as novas tecnologias trouxeram aos museus, ignora as lições da história. Na formação dos museus tradicionais – pelo menos nos de caráter nacional – uma questão filosófica sempre foi muito importante: a ideia de que essas entidades museológicas foram fundadas como uma ferramenta para a criação de identidades maiores, as dos Estados-Nação onde se situa cada instituição museológica.

O museu do Louvre, criado em 1795, não se propunha simplesmente a atender a população de Paris, seu “público central”, nos termos do ICOM, mas sim uma audiência maior, a da nova nação e do novo regime que se construía com a Revolução Francesa. Símbolos nacionais, como a Marianne, a figura feminina que é o símbolo da República Francesa, se tornaram universais, conforme pode ser visto na pintura "A liberdade guiando o povo" (Delacroix, 1830). Esta se tornou um ícone que foi incorporado de forma tão ampla que excedeu os limites da França, a figura feminina que representa a "liberdade, igualdade e fraternidade", ainda hoje, é usada em vários países, como no Brasil, onde é representada nas moedas e notas de Real. Outros objetos preservados em museus são constantemente reproduzidos nas mídias tradicionais: livros, didáticos ou não, documentários, programas de televisão e filmes; atingindo um público muito mais amplo do que apenas os visitantes das instituições.

Efígie da República, baseada na Marianne francesa, em moeda de um realEfígie da República, baseada na Marianne francesa, em moeda de um real.
Disponível em: https://commons.wikimedia.org/wiki/File:Brasil_coin_1_real-2.jpg , acesso em abril de 2018.

Dessa forma, postulamos que mesmo sem o acesso a novas tecnologias, como a multimídia, a digitalização ou a internet, sempre houve uma forma de hiperconectividade e o objetivo dos grandes museus de atingir um público mais amplo do que as comunidades locais, foi alcançado.

A eficiência dos grandes museus em passar uma mensagem específica para a população como um todo deu origem ao título deste artigo: "A contradição do moderno – o local versus o universal". Após a Segunda Guerra Mundial (1939-1945), a opção tradicional dos museus de servirem para criar um sentimento de identidade nacional, passou a ser vista com grande suspeição ou até rejeição. Isso por o nacionalismo ter sido um dos motivadores ideológicos da ação das potências nazifascistas, algo certamente visto como negativo nos dias de hoje. É possível afirmar que esse foi um fator que resultou na mudança de ênfase nas ciências sociais como um todo, e se reflete no texto do ICOM de 2018 sobre o dia dos museus, no qual as instituições museológicas “mudam sua atenção para a comunidade local e os grupos diversos que a compõem”[3]. A postura de criação de um sentimento de identidade nacional passa a ser secundária ou mesmo sendo completamente descartada.

A mudança resulta em uma aparente contradição: como compatibilizar uma saudável abordagem visando a atender às comunidades locais, o público central mencionado pelo ICOM, com uma proposta que necessariamente busca novos públicos que vão além desse público local. Não se trata de um ponto meramente técnico, sobre o uso de novos meios tecnológicos, como multimídia ou mesmo daqueles que ainda não são amplamente difundidos, como aparelhos de realidade virtual ou de holografia, que apenas se somarão ao arsenal de meios de divulgação já disponíveis, alguns de longa data.

Vale lembrar que a ampliação da clientela que está de fato acontecendo hoje é facilitada por meios não-discriminatórios quanto ao público-alvo, como a internet, capaz de atingir pessoas além da comunidade local de uma instituição: a própria ideia de hiperconectividade é a maior disponibilidade de meios de acesso aos museus. É um problema real, não precisamos imaginar muito, mesmo com ferramentas consagradas o público com acesso ao acervo dos museus aumentou de forma exponencial e hoje em dia uma imagem como as das batalhas não precisa ser recortada ou digitalizada de um livro para compor um trabalho escolar, ela pode ser encontrada em dezenas de páginas da internet. O mesmo ocorre em relação aos objetos antes inacessíveis, mas que passaram a ter suas imagens e dados facilmente visualizados após uma rápida pesquisa em qualquer página de busca.

Portanto, o fulcro da questão é mais básico, conceitual. Isso pelo menos para os grandes museus, já que muitas instituições menores foram formadas com outra lógica. Como conciliar uma proposta nova, voltada para o público local, “minorias, povos indígenas e instituições locais”[4], com uma dirigida a ampliar a clientela atingida pela instituição? Mais importante, como dissociar a questão da criação das identidades nacionais desse aumento do público?

Não me parece um problema simples, é um verdadeiro desafio. Não há dúvidas que o uso de novos meios de divulgação é imprescindível. Na realidade, na situação atual esse uso é inevitável, nenhum museu poderá sobreviver sem se adequar à evolução dos meios tecnológicos.

Por outro lado, a revolução significativa na forma de atuação das ciências sociais e das entidades museológicas deu ênfase às comunidades locais e aos grupos minoritários. No entanto, para atingir completamente esse objetivo, se ainda for desejável, será preciso mudar a filosofia de apresentação dos objetos e a própria forma de estabelecer a interconectividade. Uma revolução radical na forma como se trata as coleções museológicas, que fuja da ideia da criação, ainda que involuntária, de símbolos unificadores, será indispensável. Isso por que, como colocado inicialmente, mesmo sem a hiperconectivade dos meios modernos, a difusão de acervos museológicos como ferramenta de criação da identidade nacional foi – e ainda é – extremamente eficiente, apesar de não ser necessariamente um objetivo a ser alcançado. Contudo, não se trata apenas de uma questão de meios, mas sim de filosofia de ação.


[1] Historiador, doutor em história, pesquisador do Instituto do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional (IPHAN) e conselheiro do Museu de Armas Históricas Ferreira da Cunha. Foi pesquisador do Museu Histórico Nacional e curador do Museu Militar Conde de Linhares.

[2] INTERNATIONAL museum day 2018. Hyperconnected museums: New approaches, new publics. Press Release. Disponível em: http://network.icom.museum/fileadmin/user_upload/pdf/imd/2018/CP-JIM2018_ENG.pdf , acesso em abril de 2018 (tradução nossa).

[3] id.

[4] id.


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