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Inês Gouveia [i] 

Hiperconectividade de quê para quem? Quem usa e quem mantém? Como usa e provém?

O museu coloca tudo na Internet, de acervo a evento, na nuvem e no vento. Chega visitante, chega, chega sem parar. Faz fila na porta, acaba a senha! Que beleza divulgar no face. Es-pe-ta-cu-lar! Posta lá naquele grupo, que todo mundo lê. Lê?

Digitaliza a foto, fotografa o objeto. Bota a coleção naquela base. É software livre? Não sei. Está instalado no Windows, uma dupla procedência duvidosa. Digital, digital: deu vírus, deu pau. Onde armazenar esses megabytes imateriais pesados? Nem se pode adquirir um hardware drive, que é capital, não é custeio, diz a lei. A gente não tem nem terra, nem moradia, nem sede, que dirá a nuvem!

Mas que é bom é. É inevitável de bom! Ou inevitável de mau. É muito e é excesso. Hiperconectados aos aparelhos, às mediações, às representações. Mal conectados à condição humana, a nossa e a dos outros.

A tentativa da síntese poética foi a melhor forma que encontrei de elaborar questões sobre os museus hiperconectados. Invariavelmente, há que se indagar: os museus estão hiperconectados? Quais museus, conectados com quais indivíduos e de que modo? A tecnologia – uma das responsáveis pela suposta hiperconexão – ampliou a quantidade e a qualidade das relações entre as instituições museais e seu público? Trata-se de um tema, difundido a partir do Conselho Internacional de Museus (como um centro definidor de conteúdos), que precisa ser analisado de modo reflexivo, considerando os aspectos paradoxais das tecnologias de comunicação e informação.

A respeito dos museus, é certo que desde que a Internet passou a ser uma realidade para os museus brasileiros, no fim da década de 1990, ampliam-se paulatinamente as condições para que o acervo seja digitalizado e suas informações disponibilizadas na Web, para fins de fruição e pesquisa. O uso dos espaços virtuais para a divulgação das atividades dos museus também é algo que remonta à mesma década e que vem sendo redimensionado, na medida em que os softwares se alteram e ganham a adesão dos seus usuários.

Particularmente, observo a questão da (hiper)conectividade a partir da experiência de articulação da Rede de Museologia Social do Rio de Janeiro (Remus-RJ). A Remus desde 2013 é o espaço que se forma pelo encontro de museus e grupos que se abrem à participação direta da comunidade nas decisões estruturais sobre a representação de suas memórias e expressões culturais; agentes públicos da cultura; alunos e pesquisadores. Seu objetivo é ampliar as condições para o desenvolvimento desse perfil de museologia e museus: engajado, militante, politicamente ativo, comprometido com a diversidade cultural e o direito à memória.

No cotidiano da Remus junto aos seus integrantes, um dos efeitos práticos da conectividade é a capacidade de mobilização. Na divulgação das atividades (visitas técnicas, reuniões, seminários, cursos etc) percebe-se como as redes sociais possibilitam convidar pessoas potencialmente interessadas nos temas museológicos que debatemos. Graças aos mecanismos que produzem o fluxo de informação nesses aplicativos, o público dos eventos tem sido quantitativamente ampliado. Isso não significa, no entanto, que esse contato resulte necessariamente no aumento de participação efetiva da sociedade civil, nem na Rede de Museologia Social, nem nos museus que a integram. Ou seja, lotar os eventos, ampliar a visitação aos museus, não garante o aumento da participação das pessoas nos processos decisórios de memória. Se as pessoas são atraídas pelo potencial de comunicação do museu, o que esse primeiro contato superficial pode gerar depende dos interesses sequentes em jogo: visitação, pesquisa, participação constantes nas atividades, colaboração, participação nas esferas de debates e decisórias...

O paradoxo também ocorre na capacidade de geração, armazenamento e disponibilização de acervo. As atuais ferramentas barateiam e simplificam o procedimento técnico. Mas, na prática, grandes museus públicos e museus comunitários padecem ainda de soluções estáveis, confiáveis e acessíveis para a guarda e acesso deste acervo. A perenidade das soluções tecnológicas não são nada compatíveis com os poucos recursos financeiros disponíveis, tanto para a adoção de medidas digitalização, como na manutenção dos backups. Na prática, mesmo em termos de divulgação, também custa muito para os museus – e especialmente para os museus comunitários – manter páginas atualizadas, que comportem conteúdos de muitos megabytes.

Quando decidimos trabalhar em rede, apostamos em uma forma de conexão antiga que segue sendo potente, baseada na experiência física concreta, olho no olho, afeto, encontro, interesse na coletividade, no reconhecimento da condição humana do outro etc. A partir da articulação da Remus-RJ, noto como as pessoas tendem a participar de fato, comprometendo-se de modo efetivo com a luta pelo direito à memória, à medida em que experenciam, por si mesmas, a realidade sócio-cultural do outro. A conexão interpessoal – tanto a partir da identificação ou da empatia com a diferença – favorecem a coesão de uma rede. Os agentes que se reconhecem, aproximam suas lutas, suas questões de ordem cultural e políticas, porque são representantes de uma coletividade que se exprime pelos seus museus e grupos.

Ao observamos a conexão entre os museus comunitários e grupos de memória e a população que eles representam, percebe-se algo semelhante: a experiência pessoal é indispensável para aprofundar os níveis de participação. Constata-se [1] que a divulgação das ações dos museus comunitários com os moradores de seu entorno se dá no “boca a boca”, por cartazes colocados nas fachadas das instituições, em jornais comunitários, nos informes orais em reuniões de outras pautas no mesmo território e outras formas já bem estabelecidas.

Sem pretensão de conclusões, apenas no sentido de fomentar o espírito reflexivo, observo os paradoxos de mudanças e permanências. O atual fluxo de dados não altera os grandes centros produtores e disseminadores de informação. Esses centros controlam as instituições, em nome de relações de consumo. Concomitantemente, entretanto, na prática cotidiana dos museus comunitários e de outros coletivos da sociedade civil, as conexões rápidas de comunicação viraram estratégia de manutenção de suas lutas [2]. É certo que nos termos da hiperconectividade tecnológica, ampliou-se a capacidade de produzir e transmitir dados, mas não creio que isso tenha, até aqui, trazido mudanças estruturais na forma como, em geral, os museus no Brasil guardam, preservam e comunicam. Nos atuais termos de relações hiperconectadas a potência das relações horizontais, físicas e afetivas, seguem sendo a grande novidade.


[i] Doutora em Museologia e Patrimônio, mestra em Memória Social e Licenciada em História. Articuladora da Rede de Museologia Social do Rio de Janeiro.

[1] Conforme pesquisa diagnóstica que a Remus-RJ fez em 2017 e 2018 com 25 grupos do estado. Informações em: http://rededemuseologiasocialdorj.blogspot.com.br/

[2] Como dá evidência o midiativismo do “Coletivo Papo Reto”, “de comunicação independente composto por jovens moradores dos Complexos do Alemão e Penha”, Rio de Janeiro. Conforme: https://100ko.wordpress.com/ Acesso em 13/05/2018.


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