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Karla Estelita Godoy [i] 

Turistas em museus, apesar de sua inegável presença, tornam-se praticamente invisíveis como categoria de público estudada. Uma vez que são considerados visitantes espontâneos (residentes ou não da cidade em que se localiza a instituição), as necessidades [1] específicas desse grupo passam despercebidas, ou não há como atendê-las, no todo ou parcialmente. A maior parte das instituições museológicas desconhece essa tipologia de público – as exceções são aquelas que já identificam os turistas como preponderantes e realizam pesquisas mais aprofundadas e dirigidas para o conhecimento de tal realidade.

Recortando ainda mais, há outra fração de público, ligada a essa categoria, bastante negligenciada. É a dos turistas mirins – crianças oriundas de distintas cidades, que viajam sozinhas ou acompanhadas de seus pais ou responsáveis.

Para que crianças e adolescentes realizem viagens nacionais e internacionais, é necessário seguir as recomendações dos artigos 83 e 84 do Estatuto da Criança e do Adolescente, que dizem:

Art.83. Nenhuma criança poderá viajar para fora da Comarca onde reside, desacompanhada dos pais ou responsável, sem expressa autorização judicial. Art. 84. Quando se tratar de viagem ao exterior, a autorização é dispensável se a criança ou adolescente: I – estiver acompanhado de ambos os pais ou responsável; II – viajar na companhia de um dos pais, autorizado expressamente pelo outro através de documento com firma reconhecida (BRASIL, 2012, p. 50- 51).

Tal como os turistas adultos, os mirins não desfrutam de tratamento especializado nos museus. Seus setores educativos estão acostumados a elaborar projetos e programas voltados para o atendimento de crianças em atividades escolares, ou, em caso de expansão da proposta e de a instituição possuir o serviço de mediação, podem receber famílias ou grupos, geralmente locais, que agendem a visita previamente.

Mas levando em consideração a existência desse público turístico infantil e as diversificadas possibilidades de entretenimento em uma viagem, é provável que os museus estejam na lista dos lugares a serem visitados. Então, deveriam, de algum modo, também estar atentos e preparados para o acolhimento dessa tipologia de visitante.

No poema intitulado My Heart LeapsUp, também conhecido como “The Rainbow”, ou “O arco-íris”, escrito em 1802, o poeta romântico inglês William Wordsworth traz a figura do menino para o universo infantil, que nele – ou em cada um de nós – deveria insistir:

Eu sinto o coração bater mais forte,
Quando o arco-íris posso ver.
Assim foi quando a vida começou,
Assim é agora quando adulto sou,
E assim será quando eu envelhecer...
Senão, melhor a morte!
O menino é pai do homem;
E eu hei de atar meus dias, cada qual,
Com elos da piedade natural. [2]

Embora curto, o poema expressa grandiosidade, com destaque especial para o verso The child is father of man, em português, “o menino é pai do homem”, que sugere que todo homem traz em si um pouco do menino que foi.

Nessa chave, Machado de Assis adota a frase de Wordsworth para intitular o capítulo XI de sua obra Memórias póstumas de Brás Cubas. O “menino-diabo” que foi Brás Cubas demarcou o perfil corrosivo do adulto que se tornou. Mas enquanto “no poeta romântico, a infância é tomada como incessante fonte de renovação da experiência adulta, o escritor brasileiro faz do verso uma leitura de sobrecenho fechado, inoculando-lhe uma acentuada marca pessimista” (COUTINHO, 2011, p. 81).

Mas, para Freud (1913, p. 185 apud MARTINHO, 2018), “toda orientação posterior de um homem possui as impressões de sua infância”, ou seja, as informações psíquicas infantis ficam registradas no adulto. Alguns cientistas também começaram a associar, por volta da década de 1980, a saúde da criança com a do adulto, afirmando que fatores operantes na infância têm relação direta com o que o indivíduo viria a se tornar (CASA DA CIÊNCIA, 2018).

Se esses e outros fatores durante a vida na infância contribuem para a formação do adulto, seria de grande valor que os museus, como construtores de memórias e vivências, se conectassem com esse público, propondo abordagens que promovessem a interação tanto das crianças com o possível adulto que nelas existe em potência, quanto dos adultos com a criança que neles existe em ato. Somando-se a esse aspecto, trabalhar alteridade e diversidade cultural ajudaria esses sujeitos a se conectarem com o passado, presente e futuro do outro e de si mesmos. 

Outro exemplo da literatura sobre a dimensão de si mesmo como criança e adulto está no livro de Fernando Sabino O menino no espelho, em que a criança conversa com um homem desconhecido, que não fora visto por ninguém:

— Você quer conhecer o segredo de ser um menino feliz para o resto da sua vida? 
— Quero — respondi. 
O segredo se resumia em três palavras, que ele pronunciou com intensidade, mãos nos meus ombros e olhos nos meus olhos: 
— Pense nos outros.
(SABINO, 2003, Prólogo)

O menino cresce, ainda se intriga com a mensagem e quem seria aquele desconhecido. Só se dá conta de quem era quando se volta para dentro e descobre – no epílogo da história – que já não está na sala cheia de estantes com livros do seu apartamento, mas de volta ao seu quarto de menino, com sua cama e o armário de cujo espelho um dia se destacou um menino igual a ele. Vai para a sala, vê seus pais conversando ao sofá, e, ao falar com eles, não é visto. Quando desce a escada de seu apartamento para o quintal e encontra um garotinho agachado junto às poças d'água da chuva que caiu há pouco, entretido com umas formigas, olha para dentro de si. E, talvez, vendo outro em si, aprenda a enxergar o outro fora de si.

A temática do turista mirim tem ocupado as preocupações de nosso grupo de pesquisa [3]. Tanto praticamos observação de campo em museus para analisar experiências das crianças como turistas, quanto pesquisamos sobre a existência de práticas relacionadas, em museus de outros países, como o Museo Nacional Thyssen-Bornemisza, na cidade de Madri, Espanha.

Tendo em vista a aproximação entre museus e turismo, a instituição disponibiliza um canal de turismo para que os gestores do setor façam um cadastro. Estes são representados pelos hotéis, agências de viagem e operadoras turísticas que recebem folhetos com informações do lugar e fazem a interface museu-visitante (THYSSEN-BORNEMISZA, 2014).

O museu direcionou suas ações para turistas que viajam com crianças de seis a 12 anos. Durante a visita, de duração de uma hora e quinze minutos, existe um profissional que faz a mediação de acordo com o tema proposto – “A cidade” – e vai despertando a atenção das crianças para os quadros e destacando as mudanças que ocorreram nas cidades durante o século XIII ao XX, em aspectos como urbanização, meios de transporte, estações do ano representadas nas vestimentas das pessoas e na natureza (FONSECA, 2015, p. 32).

Outra experiência pesquisada mais recentemente são os vídeos do MetKids, canal do Metropolitan Museum, de Nova York em que crianças entrevistam especialistas da instituição, buscando sanar suas curiosidades a respeito do museu, do trabalho que lá realizam e das peças do acervo. Em um dos vídeos, um menino pergunta como o templo egípcio que lá se encontra foi levado e montado naquele espaço. Qual sua surpresa ao saber como foi todo o processo de numeração dos blocos de pedra, um a um, e de sua reorganização, tal como a montagem de um quebra-cabeças. Os vídeos, disponíveis para crianças de todo o mundo, podem suscitar o desejo de visita dos que se tornarão turistas mirins no museu.

Depois de verificar, sem sucesso, se havia em algum museu do IBRAM, no Rio de Janeiro, alguma iniciativa semelhante, escolhemos o Museu Histórico Nacional, porque é considerado um dos museus com maior estrutura da esfera federal. Constatamos, como aponta nossa pesquisa nareferida instituição, descrita na monografia da ex-aluna Eduarda Farrapo da Fonseca (2015), que não existe material instrutivo para a mediação com os turistas mirins. A instituição não possui programa ou projeto específico para esse público-alvo, tampouco equipe em número suficiente ou qualificada para atendê-los. O Museu também não realiza monitoramento de visitação de turistas mirins. Embora, na época, um setor de pesquisa estivesse sendo criado, não estava previsto esse tipo de análise.

É importante destacar que o museu, além de espaço não formal de aprendizagem, pode ser considerado como lugar de visitação turística para crianças (de algum modo, vários têm esse potencial não explorado). Então, medidas simples como, por exemplo, colocação do acervo em vitrines com altura propícia à apreciação da criança e legendas (preferencialmente bilíngues) em linguagem adequada ao seu nível de compreensão poderiam facilitar a interpretação do acervo,despertar maisatenção para o que está exposto e auxiliar os pais a desenvolverem os temas tratados no museu visitado.

No caso de visitações de crianças, são necessárias intervenções para que elas sejam incentivadas a interagir com o novo mundo de possibilidades. Porém, tal como o tema escolhido para o Dia Internacional dos Museus (ICOM) e para a 16ª Semana de Museus (2018), que propõe a reflexão sobre museus hiperconectados aos antigos e novos públicos, com base em novas abordagens, é preciso dizer que nem sempre o que é novo traz a novidade. Em 1999, defendi dissertação de mestrado sobre os museus na era do virtual, em que já se impunham questões como as que são levantadas ainda hoje. Evidentemente que as crianças das mais novas gerações nascem em tempos cada vez mais afetados pela tecnologia, marcados pelas redes sociais e supostamente por maior interação. Contudo, caberia perguntar se todos os adultos e crianças estão contidos nesse conjunto e se os museus estão, de fato, se hiperconectando com eles mesmos e com a sociedade. O novo não deve ser o legado “para” as futuras gerações, mas deve ser construído “com” as gerações presentes.

O turista mirim, ainda um tanto invisível para alguns museus, é a criança a forjar seu futuro adulto. O menino como o pai do homem. 


[i] Vice-coordenadora do Programa de Pós-graduação Stricto Sensu em Turismo - PPGTUR. Professora Associada do Departamento de Turismo. Universidade Federal Fluminense - UFF. Faculdade de Turismo e Hotelaria.

[1] Algumas peculiaridades relativas às demandas dos turistas podem ser encontradas no texto “Turistificando os museus no Brasil”, presente nas referências.

[2] Tradução extraída do artigo “Representações da infância na obra machadiana...”, de Fernanda Coutinho.

[3] O Núcleo de Estudos e Pesquisas sobre Turismo e Museus (EpisTemus) é uma das linhas de investigação do Grupo de Pesquisa Turismo, Cultura e Sociedade (T-Cult), instalado no Programa de Pós-graduação em Turismo (PPGTUR) da Universidade Federal Fluminense (UFF).

Referências

  • ASSIS, Machado de. Memórias póstumas de Brás Cubas. 1880. São Paulo: SESI-SP, 2015.
  • BRASIL. Estatuto da Criança e do Adolescente. 7 ed. Versão Atualizada. Brasil. 2012, p. 1–300.
  • CASA DA CIÊNCIA. Hemocentro de Ribeirão Preto FMRP-USP, 2011. Disponível em: http://ead.hemocentro.fmrp.usp.br/joomla/index.php/noticias/adotepauta/620-a-crianca-e-o-pai-do-homem . Acesso em: 30 abr. 2018.
  • COUTINHO, Fernanda.Representações da infância na obra machadiana: o menino é o pai do homem?Machado de Assis emLinha, Rio de Janeiro. v. 4, n.8, p. 74-89, dezembro 2011. Disponível em: http://www.scielo.br/pdf/mael/v4n8/a06v4n8.pdf . Acesso em: 01 abr. 2018.
  • FONSECA, Eduarda Farrapo da. A criança como turista: Um estudo no Museu Histórico Nacional. Universidade Federal Fluminense, 2015. Monografia. Orient.: Karla Estelita Godoy.
  • GODOY, Karla Estelita. A Museologia diante do virtual: repensando os elementos conceituais e a memória a partir das novas tecnologias informáticas. Orientadores: Josaida de Oliveira Gondar; IcléiaThiesen Magalhães Costa. Universidade Federal do Estado do Rio de Janeiro. PPGMS – Programa de Pós-graduação em Memória Social. Dissertação de Mestrado, 1999.
  • GODOY, Karla Estelita. Turistificação dos museus no Brasil: para além da construção de um produto cultural. In: Anais do Museu Histórico Nacional. v. 42. Rio de Janeiro: MHN, 2010.
  • MARTINHO, Maria Helena. O que responde o psicanalista diante da “criança generalizada”? Disponível em: http://www.campopsicanalitico.com.br/media/1128/o-que-responde-o-psicanalista-diante-da-crianca-generalizada.pdf . Acesso em: 01 maio 2018.
  • SABINO, Fernando. O menino no espelho: romance. 64ªed.RiodeJaneiro:Record,2003. Disponível em: http://escoladacrianca.com.br/ws/wp-content/uploads/2017/03/fernando-sabino-o-menino-no-espelho.pdf . Acesso em: 01 maio 2018.
  • THYSSEN-BORNEMISZA MUSEO. Disponível em: http://www.museothyssen.org/en . Acesso em: 24 abr. 2014.

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