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Moacir Rodrigo de Castro Maia [i]

A tecnologia, particularmente a digital, trouxe novos desafios e oportunidades para os museus e suas relações com as comunidades locais e globais. Vivemos a era da hiperconectividade e suas múltiplas possibilidades de intercâmbio e aprendizado. No Brasil, se as novas ferramentas digitais sugerem estas múltiplas conexões, os museus, as outras instituições culturais, os usuários e as comunidades ainda se encontram em momento de adaptação e pesquisa das novas alternativas. Poderíamos pensar algumas experiências internacionais no campo da tecnologia digital como propiciadoras ou impulsionadoras de maior conectividade entre museus e usuários locais ou distantes territorialmente, contudo, tomo a liberdade de apresentar experiência nacional que vem sendo construída há alguns anos: a plataforma digital Tainacan ( http://tainacan.org/ ), batizada a partir de lenda indígena oriunda dos povos Carajás.

O Ministério da Cultura, o Instituto Brasileiro de Museus (Ibram) e a Universidade Federal de Goiás têm desenvolvido a plataforma Tainacan de gestão de acervos digitais da Cultura, com a novidade de abranger diferentes tipos de acervos e a categorização e indexação de dados. O referido repositório digital é software livre e se apresenta como interessante possibilidade de hiperconectividade, não apenas pela sua caraterística de poder reunir múltiplas instituições museais brasileiras, com sua diversidade de acervo, em um mesmo portal, mas por também tornar o usuário participante ativo no processo. Cria-se assim nova forma de relação entre os museus e os usuários dos seus acervos digitalizados, mesmo que esses não estejam no momento em exposição presencial na sede da instituição. Abre-se assim novas possibilidades na relação do “visitante virtual” com a instituição cultural. Permite experiência inovadora, com a interação dos acervos, contribuição do visitante com comentários no registro acessado e a alternativa de compartilhamento do mesmo nas redes sociais mais utilizadas no mundo virtual. A produzir intensa conectividade.

Conforme os idealizadores da plataforma digital:

“A partir do impulso inicial, começarmos a trabalhar no desenvolvimento de um modelo operacional capaz de contemplar o desafio da integração, focando especialmente nas questões de interoperabilidade, e no desenvolvimento de tecnologias essenciais para garantir o acesso a estas coleções no longo prazo. Outro aspecto fundamental a ser considerado, é o fato das instituições de memória no Brasil apresentarem um quadro bastante heterogêneo em termos de infraestrutura e pessoal de apoio. Em geral, as instituições e projetos do mundo da cultura não se encontram preparados para enfrentarem, por si, os desafios inerentes à digitalização, à disponibilização e à preservação de seus acervos culturais em meio digital. Este cenário impõe que as soluções técnicas de integração propostas para uma política nacional devem primar pela simplicidade em todas as suas dimensões de operação: uso, manutenção, desenvolvimento, instalação, suporte, e integração com as diversas instâncias de circulação de conteúdo.” ( http://tainacan.org/historia/ , acessado em 10/05/2018).

Originalmente, a plataforma Tainacan surgiu no bojo das políticas do Ministério da Cultura do Brasil como desdobramento do portal da Cultura Digital. No ano de 2014, foi lançado pelo laboratório MediaLab da Universidade Federal de Goiás em parceria com o Minc e, no ano seguinte, serviu em projetos pilotos do ministério. Em 2016, o repositório digital foi incorporado na construção de acervos em rede do Instituto Brasileiro de Museus (Ibram).

Em 2015, a plataforma Tainacan passou a abrigar experimentalmente projetos do edital “Preservação e acesso aos bens do Patrimônio Afro-Brasileiro”, ação promovida pelo Minc conjuntamente com a Universidade Federal de Pernambuco, que tinha como objetivo central a disponibilização digital, para o acesso público, de acervos de interesse científico e cultural de bens do patrimônio Afro-Brasileiro ( http://afro.culturadigital.br/ ) [1]. Essa ação reuniu museus e outras instituições educacionais e culturais do país com a missão de difundir seus acervos, compostos de diferentes tipologias e formatos (imagem, áudio, vídeo, documentação manuscrita e impressa, objetos diversos, artes plásticas, registros cartográficos e de georeferenciamento...).

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Imagem 1: plataforma Tainacan e algumas das instituições com acervos disponibilizados, acessado em 10/05/2018.

Dentre essas ações, encontramos no endereço eletrônico do portal Tainacan, o registro digital de coleções do acervo do Museu Afro-Brasileiro (Mafro) da Universidade Federal da Bahia. Fundado em Salvador, em 1982, o Mafro é das poucas instituições nacionais do campo da museologia a enfocar exclusivamente bens de culturas africanas e afro-brasileiras. Na plataforma Tainacan, além do campo geral de pesquisa, o usuário poderá escolher visualizar o registro digital fotográfico das duas coleções disponibilizadas (Coleção Africana e Coleção Afro-Brasileira), poderá também escolher entre sete itens para pesquisa específica (adorno, artes plásticas, escultura, indumentária, instrumento musical, mobiliário e objeto sacro) e mesmo especificar na busca o estado de conservação dos objetos da coleção (bom, ótimo, regular e sofrível). Dessa forma, o usuário em qualquer parte do país ou do Globo, poderá visualizar dois registros digitais da escultura em bronze intitulada a “representação do Rei de Benim”, peça do antigo reino iorubano, conhecido pela antiguidade do seu Estado e também pela produção de belíssima estatuária em bronze desde o século XIII. [2]

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Imagem 2: Detalhe do sítio do Mafro na plataforma Tainacan, acessado em 10/05/2018.

O repositório digital por nós analisado, também apresenta coleções do Arquivo de Som e Imagem “Dalva Damiana de Freitas”, instituição que homenageia destacada sambadeira da cidade baiana de Cachoeira, tendo como missão a valorização e pesquisa do samba de roda da Bahia, reconhecido como Patrimônio Cultural Brasileiro e Obra Prima do Patrimônio Oral e Imaterial da Unesco desde 2005. Arquivo comunitário abrigado pela Universidade Federal do Recôncavo da Bahia e pela Associação Cultural do Samba de Roda Dalva Damiana de Freitas. Nas coleções e registros digitais disponibilizados, o usuário tem acesso a diversidade de imagens que retratam distintos momentos das comunidades do recôncavo, como, por exemplo, do samba de roda e sua presença nas Folias de Reis, Terno do Acarajé, Festa de Iemanjá, Festa da Ajuda, Festa do 13 de maio, Festa de Santo Antônio e São João e a tradicional festa da Irmandade negra da Boa Morte da cidade de Cachoeira.

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Imagem 3: Detalhe do sítio do Arquivo de Som e Imagem Dalva Damiana de Freitas na plataforma Tainacan, acessado em 10/05/2018.

Por fim, este primeiro grupo de projetos, que passou a fazer parte da fase de testes da plataforma pública Tainacan, nos revela outras formas de hiperconectividades estabelecidas pelas instituições públicas com as comunidades. O projeto “Do Buraco ao Mundo: segredos, rituais e patrimônio de um quilombo indígena” teve como objetivo apresentar o patrimônio cultura da comunidade Tiririca dos Crioulos, remanescente de quilombolas do sertão pernambucano. Neste projeto,é a própria comunidade que teve papel principal na eleição dos registros do que considerava ser seu patrimônio material e imaterial. A equipe do projeto, buscou, pela promoção de oficinas, incentivar os atores locais a narrarem suas próprias histórias e a indicarem o que era ou não importante para a comunidade local. Estas ações levaram a co-produção de livro didático, implantação de museu e organização de exposições pela própria comunidade em duas capitais do nordeste. É, dessa maneira, que encontramos preciosos registros digitais na plataforma Tainacan, como os áudios “Na Jurema tem, na Jurema da” ou “Viva Xangô”, nesta simbiose de remanescente de quilombo com raízes afro-indígenas. Vídeos com entrevistas de moradores que revelam seus conhecimentos, seus ritos e festividades locais, enfim, seu cotidiano e históriaempovoação distante do litoral de Pernambuco e que com a plataforma virtual passa a manter uma relação de intercâmbio digital. [3]

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Imagem 4: Detalhe do site do “Do buraco ao mundo” na plataforma Tainacan, acessado em 10/05/2018.

A plataforma Tainacan nasceu do poder público de forma colaborativa ao incluir usuário e instituições culturais de forma ativa e participativa com o objetivo principal de universalizar acervos digitais em um mesmo portal. Torna-se, portanto, ferramenta propiciadora de maior conectividade entre museus, bibliotecas e arquivos - e mesmo outros setores da Cultura -, com as comunidades locais, nacionais ou internacionais. Além de propiciar novas conexões entre usuários e museus, como preconizado pela Unesco. O acesso à tecnologia digital como direito de todos os cidadãos do mundo, promove maior compreensão entre os povos, valorização das diversidades culturais e conhecimentodas experiências humanas ao longo da história. Espera-se que tal projeto, idealizado pelo Ministério da Cultura e suas agências, possam ter continuidade e alcançar seus objetivos, tornando a plataforma, espaço virtual por excelência de museus e outras instituições culturais de todo o país.

Site: http://tainacan.org/

Projeto Afro-Digital, 2015. Disponível em: http://afro.culturadigital.br/ , acesso em 10/05/2018.


[i] Historiador, doutor em História Social (UFRJ)

[1] Abaixo, relação dos projetos aprovados no Edital do Patrimônio Digital Afro-Brasileiro: https://www3.ufpe.br/afrobrasileiro/index.php?option=com_content&view=article&id=307:projetos-aprovados&catid=2:curso&Itemid=122 acessado em 10/05/2018.

[2] GREENFIELD, Janette. The Return of Cultural Treasures. Cambridge, Cambridge University Press: 2007.

[3] Em 2015, o projeto “Do Buraco ao Mundo” recebeu o 28° Prêmio Rodrigo Melo Franco de Andrade na categoria iniciativa de excelência na gestão compartilhada do Patrimônio Cultural pelo Iphan. Cf. https://www.youtube.com/watch?v=YtVCcSOALFU , acessado em 10/05/2018.

Referências


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