slide 18maio2018 700

Ana Virginia Pinheiro [1]

Esclarece o obscuro
E faz a hyperconectividade rolar
E pega no ar
Hyperconectividade, liga lá

Hyperconectividade, Lulu Santos

A evolução tecnológica associa-se à ideia de inovação e de contínua adaptação ao novo. Mas, ao mesmo tempo, consolida uma sensação incontrolável de insuficiência, como se algo melhor e mais funcional ainda estivesse por vir. Esse confronto perceptivo entre inovação e insuficiência coloca o curador de coleções especiais como mentor de decisões “temporárias”, de expectativas pela melhor tecnologia, posto que a de agora, embora resulte de processo reconhecido de evolução, já teria surgido incompleta, imperfeita diante das multidirecionadas demandas que não tem cacife para acolher.

Este é o ambiente cultural da tecnologia no âmbito das coleções especiais: o novo traz em si a verve de um diálogo “circulante”, entrecruzado, do tipo que se “pega no ar”, tão ágil, tão vivaz que, em pouco tempo, é substituído, acrescentado, renovado por outro, e sua forma anterior adquire certa caducidade, obsolescência – especialmente, porque atende (ou objetivou atender) a uma necessidade de ontem.

A hiperconectividade ou hiperconexão mostra-se então como um recurso de conjunção e congruência de múltiplas fontes e produtos de informação, teoricamente alicerçado em valores como liberdade de expressão e direito de acesso, mas que de fato impacta o quotidiano das pessoas como verdade/necessidade intransponível.

Esta é a paisagem cultural que a tecnologia, pelo menos em termos de discurso, viabiliza no universo das coleções especiais: tudo está (ou deve estar) disponível para acesso. As instituições de salvaguarda acumulariam, finalmente, alguns dos atributos do “museu imaginário” formalizado, em 1947, pelo escritor André Malraux (1901-1976): virtual, “sem paredes”, acessível de qualquer lugar e em qualquer tempo. Hoje, essas instituições, embora se mostrem hiperconectadas, estão transformadas em cenários, onde os atores (curadores e usuários) mal têm tempo de apurar o vocabulário que lhe permitiria refinar discursos científicos, alinhando-os às surpreendentes possibilidades do novo, quotidianamente imposto.

Além disso, há um entendimento controverso de substituição do antigo pelo novo, através da tecnologia. A tecnologia é moderna, inovadora porque é digital; e tudo o mais, que é material, é antigo, tradicional, “analógico”.
A discussão sobre o que é digital/moderno e analógico/antigo é insignificante em face do caráter memorialístico da coleção especial que é objeto de difusão, porque há uma certeza – o novo pode expor o antigo, mostrá-lo, facilitar o acesso aos seus elementos, mas ainda não encontrou caminhos para substituí-lo (Figura).

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Figura: páginas do exemplar nº 67/80 do livro de artista “Minhas Impressões”, de Luiz Zerbini, editado sob a direção gráfica de Lucia Bertazzo e Leonel Kaz pela UQ! Aprazível Edições, Rio de Janeiro, 2016, 79 x 56 cm (acervo: Fundação Biblioteca Nacional, Brasil). 
A foto digital ressalta o efeito 3D da gravura, criando a ilusão de ondulações em sequência; mas, não capta a textura nem revela se há sobreposição de materiais ou, apenas, uso de cores. Neste caso, o acesso remoto teria caráter preliminar porque a percepção visual permitida pela foto precisa ser complementa pela experiência do toque, demandada pela obra.

É como se todos os recursos do novo estivessem voltados para o futuro, baseados em estruturas bem desenvolvidas no passado – e isto não é fato.

Vive-se, mais que antes e menos que depois, o caos informacional.

O passado, expresso nos registros acumulados em bibliotecas e museus, ainda não foi totalmente organizado, e parte do que foi permanece no universo sensível da coleção salvaguardada, onde suas potencialidades sequer foram exploradas com a devida completude. Esses elementos do passado carecem de pesquisa que os contextualize numa estrutura sistêmica de saber, que abra precedentes para sua validação como fontes relevantes ou irrelevantes de memória, no tempo presente ou futuro. Mas, esses elementos precisam, antes, constituir-se como interesses de pesquisa.

As pesquisas em coleções especiais de bibliotecas e museus, embora venham se caracterizando pela efemeridade do tempo dedicado e pela descontinuidade, podem desencadear conteúdos multimídia que inspiram, a cada conexão, mais e mais processos de validação – o dinamismo da hiperconexão, por excesso ou escassez, pode inviabilizar a estabilidade que se espera numa informação gerada. E uma informação estável é informação confiável. Ou não é?

Nestes tempos de desinformação, em que se desenvolvem fórmulas e especialidades para identificar falseamentos da verdade e inverdades originais, facilmente propagadas e multiplicadas por recursos de hiperconexão, experimenta-se certa inquietude sobre como se captura a fidedignidade de uma informação. O exame material é uma possibilidade que exige disposição de tempo e capacidade de discernimento sobre o que se examina. A pesquisa para validação da informação difundida impõe, igualmente, a disposição de tempo e a capacidade de discernimento sobre o que foi compartilhado.

Disponibilizar objetos de pesquisa digitalizados, por exemplo, pode “poupar o tempo” do pesquisador – resgatando, aí, um dos fundamentos propostos como Lei pelo Bibliotecário Shiyali Ramamrita Ranganathan (1892-1972). Encontrar seu objeto de pesquisa digitalizado ocasiona absoluta felicidade, porque o tempo é precioso.

Formular novas conexões para pesquisa, outro exemplo, pode promover o uso simultâneo de coleções, em vez da contemplação de unidades lá ou cá – potencializando, aí, as ideias do museólogo Benjamin Ives Gilman (1852-1933). Poder lidar com seu objeto de pesquisa sob a diversidade canônica de diferentes coleções ocasiona inquestionável felicidade, porque compartilhar recursos é, desde sempre, desejável.

A associação de tempo e compartilhamento no contexto de coleções especiais em bibliotecas e museus, sob a égide da interatividade, mais do que favorecer a hiperconectividade desses cenários e de seus recursos de pesquisa, deve promover a redução ou a supressão das diferenças de qualidade de acesso e de nível de confiabilidade, permitindo e simplificando um denominador comum de busca e recuperação. No entanto, faltam protocolos. Falta corpo teórico que fundamente o discurso tecnológico, que ainda seduz e transforma iniciativas do tipo erro-acerto em práticas exemplares.

Não há que interpretar como hiperconexão um sistema que não favoreça sua objetiva apreensão pelos usuários da informação.

Essa apreensão se traduz num diálogo, simples ou complexo (não importa), em que por mais enredados e híbridos que estejam ou sejam os múltiplos canais de comunicação, haverá qualidade de busca e acesso. A relevância do que assim for recuperado deve depender não do nível de tecnologia investida, mas, sim, do quão efetiva e libertadora é a hiperconectividade para a biblioteca, para o museu e para o meio social que suas coleções especiais representam, para os quais testemunham e em que se inserem.


[1] Bibliotecária, Chefe da Divisão de Obras Raras da Fundação Biblioteca Nacional (Brasil) e Professora da Escola de Biblioteconomia da Universidade Federal do Estado do Rio de Janeiro (UNIRIO). Integra o Comitê Nacional do Brasil do Programa Memória do Mundo da Unesco (MoWBrasil), representando a Biblioteca Nacional.

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