slide 18maio2019 700

Karla Estelita Godoy [1]

Manuelina Ma. Duarte Cândido [2]

Algumas vezes é preciso romper a dinâmica cotidiana de nossas atividades para indagar o sentido do que fazemos. (Edgardo Lander)

Grande parte das controvérsias que residem nas universidades, e ao seu redor orbitam, está ligada a conceitos, juízos e sentidos que se (re)produzem de forma endógena ou provêm de meio externo, e que se desenvolvem em paralelo ou atravessados pela relação com a sociedade, com o Estado, nos planos econômico e político-ideológico. Desde a obsoleta, e nem assim ultrapassada, dicotomia entre as chamadas ciências hard e soft – a primeira reconhecida como rigorosa e imaginada como neutra, e a segunda julgada precária e percebida como tendenciosa – até determinados termos que dessas concepções se originam, tais como, respectivamente, “cientistas” e “intelectuais” (JANINE RIBEIRO, 2006), ou, adotando a perspectiva baumaniana, “legisladores” e “intérpretes”, a instituição do conhecimento por excelência sempre enfrentou crises epistemológicas e paradigmáticas.

A certeza advinda do Iluminismo, período da modernidade que estabeleceu a síndrome poder/conhecimento, deu lugar ao legislador, responsável pela formulação de regras e pelo controle de sua correta aplicação, cujo saber é de relevância direta para a manutenção e o aperfeiçoamento da ordem social (BAUMAN, 2010). Esse modelo de tradição científica enfrentou incontáveis críticas, posteriormente expressas por meio de manifestações em escala internacional, na forma de rebeliões estudantis, greves, até da própria literatura acadêmica (TRINDADE, 2001), que se punham opostas à preponderância desaberes hegemônicos.

Na pós-modernidade, a ordem não precede as práticas e, portanto, não pode servir como medida para validá-las. O trabalho intelectual encarna, agora, o papel do intérprete, que

consiste em traduzir afirmações feitas no interior de uma tradição baseada em termos comunais, a fim de que sejam compreendidas no interior de um sistema de conhecimento fundamentado em outra tradição. [...] Preocupa-se em impedir distorções de significado no processo de comunicação. Para este fim, promove a necessidade de penetrar em profundidade o sistema estrangeiro de conhecimento do qual a tradução deve ser feita [...] e de manter o delicado equilíbrio entre as duas tradições que interagem (BAUMAN, 2010, p. 20-21).

Contudo, mesmo com tal alteração no modo de pensar e de fazer ciência, as estratégias modernas de autoridade intelectual permaneceriam como ambições universalistas da sua própria tradição.

De tempos em tempos, essa (auto)legitimação é posta em xeque, o que é considerado saudável do ponto de vista da produção de autocrítica e da reflexão acerca dos objetivos da produção de conhecimento e sua relação com a sociedade. O sociólogo Edgardo Lander (2001) chama a atenção para a fé cega no dogma cientificista e convoca à formulação de questionamentos básicos sobre o sentido essencial daquilo que fazemos: “para que e para quem é o conhecimento que criamos e produzimos? Que valores e que possibilidades de futuro são por ele alimentados? Que valores e possibilidades de futuro ele contribui para arruinar?”. Baseado em algumas premissas, o autor sugere que nos interroguemos até que ponto o conhecimento que se produz e se reproduz nas universidades realmente contribui para elevar as condições de bem-estar e de felicidade, no presente e no futuro, da maioria da população; se esse conhecimento colabora com as possibilidades de uma sociedade mais democrática e equitativa, para a preservação e o florescimento da vida, ou se, “ao contrário, converteu-se em agente ativo das ameaças de destruição que sobre ela pesam” (LANDER, 2001, p. 46-47).

Todo esse debate ético e político é inerente ao cerne da atividade acadêmica. Mesmo quando determinadas áreas do conhecimento não verbalizam filosoficamente esses dilemas, a situação está posta no interior da tradição. Questões como o encastelamento científico e sua áspera relação com a sociedade estão na ordem do dia, e muitos são os acadêmicos despertos para solucionar tais problemas. Entre ensino, pesquisa e extensão, as universidades vão rompendo as barreiras – algumas imaginárias – entre um lado e outro.

Entretanto, nada abala mais a tradição do conhecimento científico do que sua desqualificação em termos ideológicos – acrescida da intencional “descapitalização” econômica e simbólica, principalmente da universidade pública (SANTOS, 2004). É de outra natureza avançar contra o paradigma que sustenta toda a edificação social da vida humana, tal como o conhecemos desde a modernidade e a ele reagimos na pós-modernidade. Retrocessos não se veem apenas nas históricas queimas de livros, mas na propagação, ainda que com roupagens e tecnologias variadas, de aspectos que demonizam o conhecimento produzido nas universidades, que maculam a imagem de acadêmicos (professores, pesquisadores, estudantes), obscurecem descobertas científicas e deturpam propósitos de pesquisa. Essa situação seria, no mínimo, suficiente para se renunciar a lutas internas que fragilizam o próprio corpus acadêmico, a fim de nos posicionarmos como cientistas, intelectuais, acadêmicos (ou qualquer nome que se deseje atribuir a essa função). E, assim sendo, é hora de a tradição se reinventar, não para voltar a assumir o já conhecido lugar do legislador, mas para exercer sua melhor condição de intérprete na pós-modernidade líquida (BAUMAN, 2010). Ou seja, buscar resolver a problemática como um especialista em tradução entre tradições culturais, exercitando o que Bauman nomeia de “arte da conversação civilizada” (2010, p. 197), talvez assim definida por objeção à prática da barbárie.

Falar com as pessoas em vez de brigar com elas; entendê-las em vez de repudiá-las ou aniquilá-las como mutantes; incrementar sua própria tradição bebendo com liberdade na experiência de outros grupos, em vez de excluí-los do comércio de ideias. É isso que a tradição própria dos intelectuais, constituída pelas discussões em curso, prepara as pessoas para fazerem bem. A arte da conversação civilizada é algo de que o mundo pluralista necessita com premência. Ele só pode negligenciar essa arte às suas expensas (BAUMAN, 2010, p. 197).

Mesmo que, em certos momentos, isso se torne cansativo, pareça romântico, pouco efetivo ou um recurso utópico, torna-se a mais honesta e experiente ação (ARENDT, 2001) que um intelectual poderá exercer, “um tipo de reação ao conflito permanente de valores para o qual os intelectuais, graças às suas habilidades discursivas, estão mais bem preparados” (BAUMAN, 2010, p. 197). Como resume o autor, é conversar ou sucumbir.

Alguns caminhos já existem, e outros tantos podem ser abertos. Com olhos atentos, vamos procurando brechas e encontrando saídas. Hannah Arendt (2001) assegura que é com palavras e atos que nos inserimos no mundo humano. Segundo a filósofa, “a ação e o discurso são os modos pelos quais os seres humanos se manifestam uns aos outros, não como meros objetos físicos, mas enquanto homens” (2001, p. 189). E, no sentido geral do termo, agir significa tomar iniciativa, iniciar algo. Só assim será possível intercambiar sistemas de conhecimento.

Foi justamente devido a um intercâmbio acadêmico que visitamos uma rede de difusão de ciência e técnica, composta por museus ligados a uma universidade, e lá nos deparamos com determinada iniciativa museológica que parece se somar às formas de comunicação e interação do conhecimento acadêmico com a sociedade. Para além de mera descrição científica que, por vezes, afasta as pessoas, dada a linguagem hermética e pouco estimulante que apresenta, uma pequena e (des)pretensiosa exposição parecia exercer seu devido papel de tradutor de tradições culturais para seus visitantes. Embora os museus universitários convivam com o rótulo – nem sempre verdadeiro – de que atraem público pequeno, e ainda por cima muito específico, museus de ciência ampliam essa condição, na medida em que foram se tornando ecléticos, interativos e atraentes para crianças de diversas origens e faixas etárias (acompanhadas de seus pais ou em visita escolar), adultos seduzidos pela curiosidade e mesmo pela ludicidade quase irresistível, turistas que lá encontram a quase certeza do entretenimento e visitantes espontâneos de modo geral.

E assim chegamos ao Micro Museu de Ciência Contemporânea, cuja logomarca tem a instigante grafia “µMuSée”, que se apropria do símbolo científico adotado para designar esse prefixo do Sistema Internacional de Unidades. Ele é fruto da colaboração entre a Maison de la Science, a rede Embarcadère Du Savoir e a Universidade de Liège, e é apoiado pelo Serviço Público da Valônia (região sul da Bélgica).

Um dos objetivos que a exposição cumpre sem grandes dificuldades é o de informar ao público as etapas pelas quais uma pesquisa científica deve passar, da realização de experimentos (dependendo da área de conhecimento, as escolhas metodológicas podem variar) à validação e publicação de um artigo. Para tanto, opta-se por abordagem que busca aproximar o público de uma realidade que, para muitos, parece tão distante. Por meio da exposição nomeada “Os pesquisadores se expõem”, dá-se breve destaque ao percurso acadêmico desse cientista, passando por sua trajetória de estudos, os cursos que fez e quando os concluiu, as áreas de conhecimento em que atuou, o que pesquisou, mas também revelando alguns dos objetos pessoais usados em seu cotidiano (como, no caso do pesquisador “em exposição” no momento, uma caneca vermelha da série de televisão americana The Flash, baseada no super-herói que combate o crime com o seu poder de se mover em velocidade sobre-humana), equipamentos que usa em suas pesquisas, fotos dos momentos de trabalho e de descontração com a equipe, e até informações como sua data de nascimento, altura, peso etc. Além disso, há crachás de participação em congressos, canetas e alguns cadernos com suas anotações de estudo, que contêm a indicação escrita “abra-me”, sinalizando que alguns dos materiais são interativos para os visitantes.

Três perguntas didáticas parecem estimular a descoberta necessária para que se obtenham os códigos iniciais daquela tradição:“O que é pesquisa?”, “O que é uma descoberta científica?” e “O que os pesquisadores fazem diariamente?”. Assim como se, por meio do percurso do cientista, a chave para um segredo fosse revelada.

A exposição avança de forma dialógica, em linguagem acessível, disposta por uma estética convidativa e, por mais incrível que pareça, familiar: lembra os espaços da escola, com storyboards coloridos (esboços organizados com ilustrações, imagens sequenciais, fotografias), uso de letras e traços cursivos que remetem a anotações em cadernos, além de vídeos e alguns recursos gráficos que rompem com a idealização da figura do cientista,com a ideia de que são “loucos” ou velhos carrancudos, com o estereótipo do ser iluminado e com a noção meritocrática de que são mais bem dotados intelectualmente ou que fizeram um esforço sobre-humano – apesar de, às vezes, inspirarem-se em super-heróis – para chegarem à condição de pesquisador.

E, assim, o visitante toma contato com uma realidade que se comunica diretamente com ele via interseção das tradições, desmitificando e desmistificando a figura do cientista e, consequentemente, a noção da ciência como atividade teorico-prática inalcançável ou sem conexão com a sociedade.

Os museus, como guardiões do passado, interlocutores do presente e construtores de futuro, podem funcionar como núcleos culturais e agentes transformadores das realidades, especialmente nos recorrentes tempos de desqualificação do conhecimento científico e daatividade acadêmica. Tal como o ICOM esclarece, os museus, que continuam a (se) reinventar,

buscam formas inovadoras de lidar com questões sociais contemporâneas e conflitos. Agindo localmente, os museus também podem defender e mitigar os problemas globais, esforçando-se para enfrentar proativamente os desafios da sociedade atual. Como instituições no coração da sociedade, os museus têm o poder de estabelecer diálogo entre culturas, construir pontes para um mundo pacífico e definir um futuro sustentável (ICOM, 2019).

São, assim, aliados da “arte da conversação civilizada”, proposta por Bauman como a resistência que se espera dos intelectuais. Unindo, então, museu, ciência e universidade, pode-se alcançar uma interlocução que ultrapasse as muralhas institucionais e imaginárias que se interpõem entre tradições, de modo incondicional.

Há quase duas décadas, Jacques Derrida refletiu sobre o que chamou de “universidade sem condição”. Com esse título de livro que dá margem a múltiplas interpretações, o filósofo insistiu em distinguir a universidade de instituições de pesquisa que estivessem a serviço de interesses econômicos e finalidades de todo tipo,pois ela necessita dispor de independência, sem que haja imposição de condições que a submetam ou a limitem. Embora não exclusivamente, esse “princípio de incondicionalidade se apresenta, originariamente e por excelência, nas Humanidades” (DERRIDA, 2003, p. 23), que são espaços de discussão, reelaboração e resistência. Não se admira, portanto, que esse campo do conhecimento seja um dos mais atacados ideologicamente em tempos de tormenta. Derrida não aprisiona o conceito das Humanidades aos seus antigos cânones – “os quais, não obstante [...], devem ser protegidos a todo custo” (p. 24) –, mas o amplia para o campo que chama de “Humanidades transformadas”. Sustenta que, apesar de mais próprio às Humanidades, “o princípio de liberdade, de autonomia, de resistência, de desobediência ou de dissidência [é] extensivo a todo o campo de saber acadêmico” (p. 25) – e por que não também ao campo dos museus?

Por vislumbrar a relação de proximidade e parceria entre instituições museológicas, instituições científicas e instituições de ensino, pesquisa e extensão, este brevíssimo ensaio procurou problematizar o tema do Dia Internacional dos Museus de 2019, “Museus como núcleos culturais – o futuro da tradição”, ao ressaltar o papel dos museus universitários de ciência como intérpretes a ouvirem e darem voz ao trabalho intelectual, à atividade acadêmica, ao conhecimento científico e a outros diversos saberes não hegemônicos, em nome de um futuro para essa tradição constantemente ameaçada, de uma maneira ou de outra, em todos os tempos. Não se trata de os museus legitimarem ou validarem teses, mas de desencastelarem os saberes, estimularemos interesses pelos diversos campos do saber e despertarem a sociedade para o interior do instigante – e ao mesmo tempo trivial – cotidiano acadêmico. Também não é o caso de tais museus endeusarem pesquisadores, mas de propiciarem o acesso ao sujeito-pesquisador e a toda sua subjetividade, sem que ela represente qualquer descrédito. Pois que os museus universitários estejam imbuídos da “arte da conversação civilizada” e do espírito científico – tal como Bachelard (1996) distingue a terceira etapa histórica do pensamento científico –, cuja máxima não é a obcecada busca por respostas, e sim a sabedoria em formular perguntas. Sem elas, orienta o filósofo da ciência, não pode haver conhecimento científico. Segundo ele,

toda cultura científica deve começar [...] por uma catarse intelectual e afetiva. Resta, então, a tarefa mais difícil: colocar a cultura científica em estado de mobilização permanente, substituir o saber fechado e estático por um conhecimento aberto e dinâmico, dialetizar todas as variáveis experimentais, oferecer enfim à razão razões para evoluir” (BACHELARD, 1996, p. 24).

Os museus, em especial os universitários de ciência, ao humanizarem a construção de conhecimento e aproximarem diferentes realidades, propõem mais indagações que conclusões. Eis que o trabalho intelectual foi realizado, e em nome do futuro das tradições.

 


[1] Bacharel em Museologia pela Universidade Federal do Estado do Rio de Janeiro, com Pós-doutorado em Antropologia (PPGA/UFF). Professora Associada do Departamento de Turismo da Universidade Federal Fluminense. Vice-coordenadora e professora do quadro permanente do Programa de Pós-graduação Stricto Sensu em Turismo (PPGTUR/UFF). Coordenadora do L'Image (Laboratório de Pesquisa, Produção e Análise da Imagem).Coordenadorado Grupo de Pesquisa Turismo, Cultura e Sociedade – T-Cult/UFF (certificado no Diretório dos Grupos de Pesquisa no Brasil - CNPq) e do Núcleo de Estudos e Pesquisas sobre Turismo e Museus – EpisTemus/T-Cult.

[2] Licenciada em História pela Universidade Estadual do Ceará, com Pós-doutorado em Museologia (Paris III, Sorbonne Nouvelle). Professora Adjunta da Universidade Federal de Goiás. Professora do Programa de Pós-graduação em Antropologia Social (UFG) e Chargé de Cours de Museologia da Universidade de Liège (Bélgica). Coordenadora do Embarcadère Du Savoir e do Grupo de Estudo e Pesquisa Museologia e Interdisciplinaridade – GEMINTER.


Referências

  • ARENDT, Hannah. A condição humana. 10 ed. Rio de Janeiro: Forense Universitária, 2001.
  • BACHELARD, Gaston. A formação do espírito científico: contribuições para uma psicanálise do conhecimento. Rio de Janeiro: Contraponto, 1996.
  • BAUMAN, Zygmunt. Legisladores e intérpretes: sobre modernidade, pós-modernidade e intelectuais. Rio de Janeiro: Zahar, 2010.
  • DERRIDA, Jacques. A universidade sem condição. São Paulo: Estação Liberdade, 2003.
  • ICOM. International Council of Museums. International Museum Day. The theme: Museums as Cultural Hubs: The future of tradition. Disponível em: <http://imd.icom.museum/international-museum-day-2019/museums-as-cultural-hubs-the-future-of-tradition/>.
  • JANINE RIBEIRO, Renato. O cientista e o intelectual. In: NOVAES, Adauto. O silêncio dos intelectuais. São Paulo: Companhia das letras, 2006. p. 137-149.
  • LANDER, Edgardo. Conhecimento para quê? Conhecimento para quem? Reflexões acerca da geopolítica dos saberes hegemônicos. In: GENTILI, Pablo. Universidades na penumbra: neoliberalismo e reestruturação universitária. São Paulo: Cortez, 2001. p. 45-71.
  • SANTOS, Boaventura de Sousa. A universidade no século XXI: para uma reforma democrática e emancipatória da universidade. São Paulo: Cortez, 2004. (Coleção questões da nossa época; v. 120).
  • TRINDADE, Hélgio. As metáforas da crise: da “universidade em ruínas” às “universidades na penumbra” na América Latina. In: GENTILI, Pablo. Universidades na penumbra: neoliberalismo e reestruturação universitária. São Paulo: Cortez, 2001. p.13-43.

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