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Pedro Paulo A. Funari [1]

O futuro aparece, cada vez com maior frequência, associado aos museus. Isso contrasta tanto com o sentido popular e pejorativo de museu como sinônimo de velho, como com a trajetória de instituições voltadas para a preservação. No entanto, a própria criação e expansão dos museus contava com o futuro, com a preservação hoje para as pessoas que virão depois. Neste sentido, passado, presente e futuro estão e estiveram sempre no cerne da instituição museológica.

Mas, se é assim, qual o motivo da continuidade da associação depreciativa do museu com algo antiquado, parado, morto? Diversos são as possíveis explicações, a começar por exposições de objetos velhos, às vezes amontoados, com explicações inexistentes ou abstrusas. Contribui também para isso o uso do público escolar como audiência cativa, o que pode garantir certa frequentação mínima. Além disso, a estabilidade institucional favorece a continuidade de forma passiva, na medida em que o fechamento de um museu é sempre evitado, pelas possíveis repercussões negativas. Tudo isso pode criar uma inércia deletéria, ao reforçar as conotações desfavoráveis do termo museu.

A superação dessa situação depende da interação com as pessoas. Os profissionais da cultura e dos museus, em particular, são os mais apaixonados pela preservação e, por isso, nem sempre os mais aptos no quotidiano a distanciar-se, para repensar a instituição. Isso ocorre com todos nós, nas situações mais variadas. Estamos todos tão acostumados com a maneira de viver e de agir no mundo, por meio da rotina, que parece natural a fazer o mesmo, a cada dia. Isso tem a vantagem da continuidade sem ter que pensar muito e a desvantagem da complacência derivada da falta de distanciamento e reflexão crítica. Para superarmos essa inércia, influxos externos são, em geral, os mais efetivos. Como alguém que tem um problema grave de saúde e muda de comportamento.

No caso dos museus, como para quase tudo, o estudo constitui meio importante para a mudança. Tanto o estudo da literatura, como de campo, pela observação e interação com outras instituições museológicas, próximas ou distantes. Algo ainda mais complexo tem sido proposto e levado a cabo, cada vez mais: a interação com as pessoas, com o público leigo. Toda a ciência moderna e suas instituições, como os museus, surgiram e se fundaram na clássica separação da episteme, ou ciência arrazoada do estudioso, da doxa, ou opinião irrefletida das pessoas comuns. Nas últimas décadas, cada vez mais se tem proposto que se pode ganhar muito com o contato entre estudiosos e as pessoas, nas mais diversas áreas, em particular aquelas que se dedicam à preservação do passado, como a História e a Arqueologia. Surgiram mesmo novos campos de investigação e prática, como a Arqueologia Pública e a História Pública, que tratam dessa interação entre profissionais do passado e público leigo.

O museu, neste contexto, deve ser feito com e para as pessoas, entendidas em sua diversidade inevitável e mesmo contraditória: crianças e idosos, letrados e iletrados, crentes e agnósticos, para ficar em apenas algumas clivagens. Nenhum museu concreto resiste incólume a uma tal interação, por mais moderno e antenado que seja, já que há sempre tensões entre a exposição real e a experiência e as expectativas do público em cada caso, momento e contraditórias circunstâncias. Essa interação vivifica o museu e fornece a profissionais e público um rico manancial para reflexão e ação no mundo.

Essa ação conjunta leva-nos ao tema do futuro. Todos preocupam-se com o que há de vir, para si ou para os seus queridos. Fazem-no de inúmeras maneiras, contraditórias e incongruentes, por vezes. A transformação do museu em núcleo cultural em que podem interagir entre si e com os profissionais contribui para que tanto a instituição se transforme, como as pessoas mudem, oxalá para melhor. Um museu que conserve e exponha um amontoado de coisas velhas, após o contato reiterado de profissionais e pessoas, sairá transformado. Continuará a preservar, mas outros desejos de futuro serão introduzidos. Todos ganham ao ouvir o outro e os museus podem cumprir ainda melhor sua função de elo entre o passado, o presente e o futuro.Melhor quanto mais carregado das experiências do passado, tendo em vista um futuro de respeito à diversidade e de convivência das diferenças.

 


[1] Professor do Departamento de História, Unicamp.


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