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Alejandra Saladino [1]

Gusthavo Gonçalves Roxo [1a]

“A quem vamos dar voz?
Uma diferente voz?
As várias vozes?
Vamos incorporar essas vozes para cala-las?
Pois esse é o amanhã de muitos.

Quem são as nossas musas?
As antigas ou as novas?
Ainda temos um único ideal de beleza?
Vamos cultivar as diferenças ou escolher uma diferença?
(...)”
Vozes- Chá de Girassóis, Gusthavo Gonçalves Roxo

Neste ano, o Conselho Internacional de Museus (ICOM) convida-nos a comemorar o Dia Internacional dos Museus refletindo sobre o tema “Os museus como centros culturais: o futuro da tradição”. Aceitamos a proposta, não sem antes nos determos sobre o conceito de tradição, tão marcantemente presente tanto no senso comum quanto nos discursos patrimoniais.

Todavia, considerando a vasta produção sobre o tema, abordado pelos mais diversos campos das ciências humanas e sociais, deixamos claro que não é nossa intenção abrir novas sendas interpretativas, muito menos retomar caminhos já trilhados. Assim sendo, tomamos revisões já realizadas única e exclusivamente com a intenção de fundamentar nossas argumentações sobre o tema proposto pela entidade dos museus.

O arquiteto Leonardo Barci Castriota (2014), seguindo os passos de pensadores como Claude Lévi-Strauss, Eric Hobsbawm e Terence Ranger e Roque Laraia ressalta o caráter dinâmico da tradição atualizada e reinventada por pressões endógenas e exógenas.

Já a socióloga Carilone Klaus Luvizzotto (2010), amparada em Max Weber, Michael Sahlins e Anthony Giddens, ressalta a tradição como operação dinâmica orientada para o passado pois é ele que possui a “força e influência relevante sobre o curso das ações presentes” (LUVIZOTTO, 2010: 67) e, logo sobre o futuro, evidenciando a continuidade do tempo na atualização e invenção de novas tradições.

Se recuperarmos a narrativa do ICOM para a celebração do dia 18 de maio do ano corrente, identificamos a ênfase na vocação e no compromisso comunicacional dos museus, visto o esforço empreendido para a reinvenção na busca de se tornarem mais interativos e inclusivos, funcionando como verdadeiras “plataformas onde a criatividade combina com o conhecimento e onde os visitantes também podem co-criar, compartilhar e interagir” (ICOM, 2019).

Entretanto, se considerarmos a trajetória destas entidades ocidentais, locus de construção das memórias históricas (NORA, 1993) e de legitimação de discursos e valores, percebemos que esta perspectiva sobre a função social dos museus é tributária do pensamento e das práticas resumidas nos textos da Carta de Santiago (ICOM, 1972), da Declaração de Québec (ICOM, 1984) e na gramática da Nova Museologia. Dito de outra forma, o museu-fórum, arena de encontros, reencontros e desencontros, é parte do passado recente dos templos das musas, desses lugares de memória de doutrinação sobre as tradições inventadas.

Os compromissos assumidos pelos museus, os quais são ressaltados nas narrativas do ICOM (concretamente, a defesa e a mitigação dos problemas globais, estabelecendo um “diálogo entre culturas, construindo pontes para um mundo pacífico e definindo um futuro sustentável”) estão diretamente relacionados com as velhas utopias denunciadas pelo historiador da arte Iñaki Díaz Balerdi (2008). Assim sendo, compreendemos que as novas tradições museais referem-se ao compromisso dos museus com a mudança social.

Assim sendo, a questão é, portanto, teleológica. Urge investir no planejamento e estabelecimento de uma política que sustente esse horizonte museal de transformação. A transmutação dos museus predadores, produtos de uma sociedade desigual, em caixas acústicas onde reverberam as distintas narrativas e onde seja possível a criação de um saber imune às linhas abissais do pensamento ocidental [2], numa inconteste ecologia de saberes [3].

Esforços concretos nessa direção são observados em distintas realidades, de norte a sul. A título de ilustração, destacamos as diretrizes para os museus espanhóis condensadas no Programa Museos + Sociales (AZOR et al, 2015).

Pontualmente, ressaltamos os esforços do Museo Nacional de Antropología, na capital espanhola, que tem construído pontes com as mais diversas comunidades de imigrantes e logrado, de forma colaborativa, ressignificar as suas coleções, por meio de ações educativas e exposições temporárias.

Inácio Díaz Balerdi (2015) nos faz lembrar de que os discursos não são negociados, mas disputados, e nos recomenda chamar à responsabilidade as pessoas a respeito da preservação e proteção de seu patrimônio cultural (SALADINO, CASTILLO MENA, 2018). Por isso, no Brasil, importa destacar os esforços empreendidos pelo Instituto do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional (IPHAN) e pelo Instituto Brasileiro de Museus (IBRAM), no sentido de criar as bases necessárias e fundamentais para o estabelecimento dessas novas tradições museais sobre as quais tratamos aqui. Referimo-nos especificamente à definição dos princípios e objetivos dos programas e projetos de Educação Patrimonial – claramente apresentados na publicação Educação Patrimonial: histórico, conceitos e processos (2014) e na Portaria IPHAN nº137/16, que dispõe sobre os marcos normativos de Educação Patrimonial e das Casas do Patrimônio [4] – e de Educação Museal – constantes no Caderno da Política de Educação Museal e na Portaria IBRAM nº 422/17, que dispõe sobre os princípios e fundamentos dessa atividade.

No panorama museal brasileiro é, felizmente, relativamente fácil encontrar exemplos de boas práticas alinhadas às novas tradições museais, pese todas as complexidades e dificuldades de toda ordem para tal. A título de ilustração, destacamos a atuação do Museu de Arqueologia de Itaipu (MAI), que vem estreitando e intensificando cada vez mais seus vínculos com as comunidades da região, realizando ações concretas para a mudança social, em nível local, como, por exemplo, o inventário participativo do patrimônio cultural da região, que contribuiu efetivamente para a retomada de uma prática cultural adormecida há cerca de três décadas: a marejada dos pescadores tradicionais de Itaipu.

Em resumo, neste ano, o ICOM nos convida a refletir sobre uma questão inquietante, pois trata do futuro dos museus. Aceitamos o convite ao reconhecermos que esse porvir está indelevelmente atrelado às velhas utopias museológicas, a razão de ser dessas instituições, muito além da ilusão dos números (de visitantes, de ações, de eventos). A questão fulcral do século passado continua atual (bem como suas correlatas): museus para que? Compreendemos haver muitas respostas possíveis, decorrentes da multivocalidade social. Esperamos que as novas tradições museais engendrem espaços mais ruidosos e rugosos naqueles onde hoje se revezam o silêncio sepulcral do monólogo o qual apenas nos cabe contemplar e o estrépito dos fugazes eventos.

 


[1] Museóloga e Arqueóloga, Professora do Departamento de Estudos e Processos da Universidade Federal do Estado do Rio de Janeiro e do Mestrado Profissional em Preservação do Patrimônio Cultural (IPHAN).

[1a] Discente de Museologia na Universidade Federal do Estado do Rio de Janeiro e Poeta.

[2] As linhas abissais do pensamento ocidental são, à luz do pensamento do cientista social Boaventura Sousa Santos (2007), a ideia de que o monopólio da verdade é detido exclusivamente pela ciência ocidental e que o estatuto da legalidade é exclusividade do Estado.

[3] Ecologia de saberes: de acordo com a gramática de Boaventura de Sousa Santos (2007), é uma experiência vinculada ao cosmopolitismo subalterno, movimento antagônico ao pensamento ocidental, pautada na inclusão e no empoderamento social onde as comunidades atuam de forma proativa e onde seus saberes estão no mesmo patamar dos demais tipos de conhecimento.

[4] As Casas do Patrimônio do IPHAN são espécies de pontos de intercâmbio e diálogo entre o IPHAN e as comunidades, onde “se apresentam exposições e se desenvolvem atividades, oficinas e cursos, sempre relacionados aos temas da preservação patrimonial e valorização da cultura” (GALVÃO, 2010:8).


Referências

  • AZOR, Ana et al. Museos + Sociales. Génesis de um plan destinado a reforzar el compromiso social de los museos. Museos.es. Madrid: Ministerio de Educación, Cultura y Deporte, 2014, p.240-251.
  • BALERDI, Iñaki Díaz. La memoria fragmentada. Gijón: Ediciones Trea, 2008.
  • BALERDI, Iñaki Díaz (2015). Mecánicas emocionales y proyectivas en las estrategias de activación patrimonial y museística. Complutum, 2015, v.26(2), p.165-173. < file:///C:/Documents%20and%20Settings/Maria/Mis%20documentos/Downloads/50427-89745-2-PB.pdf > [Acesso em 20/04/2019]
  • Brasil. Portaria nº 137 de 28 de abril de 2016. Diário Oficial da União. 2016; Seção 1.
  • CASRTRIOTA, Leonardo Barci. A questão da tradição: algumas considerações preliminares para se investigar o saber-fazer tradicional. Fórum Patrimônio: ambiente construído e patrimônio sustentável. Belo Horizonte, v.7, n.1. Jan / Jun. 2014, p.1-15. < www.forumpatrimonio.com.br > [Acesso em 18/04/2019]
  • FLORÊNCIA, Sonia Rampim et al (orgs). Educação Patrimonial: histórico, conceitos e processos. Brasília, DF: IPHAN, 2014 < http://portal.iphan.gov.br/uploads/ckfinder/arquivos/Educacao_Patrimonial.pdf > [Acesso em 18/04/2019]
  • GALVÃO, Marco Antônio Pereira (org.). Casas do Patrimônio. Brasília, DF: IPHAN, 2010 < http://portal.iphan.gov.br/uploads/publicacao/ColImg7_CasasPatrimonio_m.pdf > [Acesso em 18/04/2019]
  • INSTITUTO BRASILEIRO DE MUSEUS - IBRAM. (2018). Caderno de Política de Educação Museal, 2018 < https://www.museus.gov.br/wp-content/uploads/2018/06/Caderno-da-PNEM.pdf > [Acesso em 18/04/2019]
  • LUVIZOTTO, Caroline Klaus. As tradições gaúchas e sua racionalização na modernidade tardia. São Paulo: Editora UNESP; São Paulo: Cultura Acadêmica, 2010. 140 p. < http://books.scielo.org> [Acesso em 18/04/2019].
  • NORA, Pierre. Entre memória e história: a problemática dos lugares. Projeto História. São Paulo, nº10, dez. 1993, p.7-28.
  • SALADINO, Alejandra; CASTILLO MENA, Alicia. Prospecções sobre a relação entre as comunidades do bairro Reis Católicos (Alcalá de Henares, Madrid) e seus bens arqueológicos. Cadernos de Sociomuseologia vol 55. nº 12. 2018.
  • SOUSA SANTOS, Boaventura de. Para além do pensamento abissal: das linhas globais de saberes. Novos estudos CEBRAP, n.79, São Paulo, nov, 2007, p.71-94.

Outras fontes


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