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Simone Flores Monteiro [1]

Dia Internacional de Museus, 18 de maio. Já tem se tornado uma tradição o esforço empregado pelos museus para, nessa data em especial, chamar a atenção da sociedade para a importância dos museus, seus acervos e suas ações.

Habitualmente, as funções do museu são coletar, conservar, guardar, pesquisar e comunicar, com o fim de preservar a memória, gerar conhecimento e, acredito, despertar para o valor da vida. Vida como patrimônio que precisa ser cuidado, como meio para se evoluir individualmente e coletivamentee para, a partir da compreensão do ser individual, do meio ambiente, das expressões e das relações, possamos nos tornar pessoas melhores.

No texto divulgado pelo Instituto Brasileiro de Museus lê-se: “Existem tradições e tradições. No Brasil existem povos indígenas e quilombolas com tradições milenares, mas também existem tradições inventadas, tradições progressistas e tradições conservadoras, tradições que se opõem a vida e outras que valorizam a vida. Para nós que atuamos no mundo dos museus a vida social, a vida em relação e a vida biológica são limites instransponíveis. O futuro da tradição é preservar a vida!” Ao concordar com essa ideia, os museus assumem um compromisso maior do que cumprir com suas funções inerentes de guarda, preservação e divulgação. Muito além do conhecimento,os museus devem então despertar o encantamento pela diversidade, presente na natureza e nas diferentes manifestações culturais.

Apesar de manterem suas tradicionais práticas,os museus vêm se aproximando de seu público de diversas maneiras, caminhando para o que considero um dever ser:verdadeiros núcleos culturais, pela potência no papel articulador que possuem. Articuladores de saberes, de encontros, de aproximações, de inspirações, onde todos e tudo pode e deve estar representado e em diálogo, para que nossos neurônios sejam estimulados a fazer sinapses que nos façam compreender que a humanidade só evolui na relação harmônica dos homens entre si e com a natureza.

Em Museália (1996), Mario Chagas já dizia que “o Museu, compreendido como espaço de representação onde se desenvolve a relação entre o homem e o objeto, mediador da realidade em trânsito, é, por definição, uma instituição cultural”, concordando com Waldisa Russio, que entendia que “para o museólogo o conceito de cultura com que ele opera é o mais simples de todos: cultura é o fazer e o viver cotidiano; cultura é o trabalho do homem em todas as suas manifestações e aspectos; cultura é a relação do homem com seu meio, com outros seres, incluindo outros homens. Cultura é a projeção em que o homem realiza, ou melhor, a atividade em que ele se realiza. Cultura é percepção, experiência, expressão; cultura é a vida vivida.”

Na mesma obra, Chagas afirma que “todo museu, toda biblioteca e todo arquivo são centros culturais. No entanto, nem todo centro cultural é um arquivo, uma biblioteca ou um museu. A questão nesta altura não é mais: o que é um centro cultural?, mas sim: que centro cultural nós queremos? Qual o modelo de centro cultural que vamos adotar? ”Passados vinte e três anos, nesse momento de comemoração do Dia Internacional dos Museus, devemos refletir sobre nossas práticas no sentido de levar os museus à condição decentros culturais integrados. Estamos construindo diálogos e pontes entre centro e periferia? Entre morte e vida? Entre violência e paz? Entre preservar e destruir? Entre conservar e consumir? Quais tradições estamos enaltecendo ou deixando de divulgar? E como estamos fazendo tudo isso? Até onde estamos trabalhando para a inclusão e o respeito pela vida?

Diante de tantos questionamentos e também dos enfrentamentos que a realidade nos coloca, o momento exige uma pausa para uma análise mais aprofundada, pois já temos maturidade para perceber que a nossa sociedade, sendo complexa e diversa, possui interesses difusos e que nem sempre são a favor da preservação da vida. Precisamos de equilibro, pois como diz Michel Maffesoli (2005) “é preciso estar em franca ruptura com os modos de análise tradicionais, constar dos insurretos do pensamento, para sentir a cadência original que está marcando o ritmo atual da vida social e para compreender a relação cínica ou astuta que as diversas tribos estabelecem com os valores institucionalizados”.

Mario Chagas e Vladimir Sibylla Pires (2018) afirmam que “o diálogo entre território, museu e sociedade aciona a possibilidade de uma museologia que, ancorada no social, critica e se aplica na transformação dos museus; compreende o território como espaço socialmente construído e que os museus não são apenas representação da sociedade, são também projetos, sonhos e desejos de outro mundo, quiçá de um mundo melhor; sendo construções, eles também são construtores de realidades e de subjetividades individuais e coletivas. Os museus são (ou podem ser), aqui e agora, distopias, utopias e heterotopias”. Sendo assim, os museus podem ser espaços de valorização de tradições que promovam a distopia ouespaçosonde se trabalham as tradições para a promoção de novos conteúdos que se somemaos valores tradicionais e colaborem para a compreensão da sociedade multicultural.

De acordo com Hanna Arendt: “... o mundo não é humano por ter sido feito pelos homens e tampouco se torna humano porque a voz humana nele ressoa, mas somente quando se torna objeto de diálogo. ”Assim, os museus, acredito eu, podem ser espaços de diálogo que estimulam o respeito e a ética, quando articulam e integram os (e pelos) saberes, os (e pelos) conhecimentos e a (e pela) dimensão sensível.

 


[1] Possui Graduação em História pela Fundação Universidade Federal do Rio Grande. Especialista em Sociedade, Economia e Política pela Fundação Universidade Federal do Rio Grande. Especialista em Museologia pela Universidade Federal do Rio Grande do Sul. Curso de Estudos Avançados em Museologia pela Universidade Lusófona de Humanidades e Tecnologias. Doutorado em Museologia pela Universidade Lusófona de Humanidades e Tecnologias. Coordenadora de Projetos Museológicos do Museu de Ciências e Tecnologia PUCRS. Coordenadora da Coleção MUSEUM / EDIPUCRS. Membro do Conselho do Patrimônio Museológico / IBRAM. Foi Membro do Comitê Gestor do Sistema Brasileiro de Museus - IBRAM. Membro do Colegiado Setorial de Museus do Conselho Nacional de Políticas Culturais. Membro do Colegiado Setorial de Museus do Estado do Rio Grande do Sul. Foi Coordenadora do Sistema Estadual de Museus do Rio Grande do Sul de 2003 a 2011. Assessora Técnica no Sistema Estadual de Museus do Rio Grande do Sul em 2002 e 2012. Foi e Diretora do Museu da Cidade do Rio Grande de 1994 a 2007. Coordenou o Projeto de Implantação do Museu Naval no Comando do 5º Distrito Naval.


Bibliografia Citada

  • Maffesoli, Michel. O mistério da conjunção: ensaios sobre comunicação, corpo e socialidade; Porto Alegre: Sulina, 2005.
  • Chagas, Mario de S. e Pires, Vladimir Sibylla. Sociedade, Museus e território. In Território, museus e sociedade:práticas, poéticas e políticas na contemporaneidade. Mario de Souza Chas e Vladimir Sibylla Pires (orgs). Rio de Janeiro:UNIRIO; Brasília Instituto brasileiro de Museus, 2018.
  • Chagas, Mario de S. Museália. Rio de Janeiro: JC Editora, 1996.
  • Henriques, Marcio Simeone.Belo Horizonte: Autêntica, 2007.

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