18 Maio 2020 - Dia Internacional dos Museus

Pedro Paulo A. Funari [1] 

A diversidade é o grande desafio da convivência humana, hoje, no passado e, ainda mais no futuro. E os museus têm papel importante nisso. Vamos por partes, pois a diversidade não é tão simples como pode parecer e convém começar pela origem da própria palavra, para, em seguida, irmos aos seus usos. A junção do ato de virar (uerto/uerso, viro) com o prefixo dis (dois, separado em duas partes) já indicava a posição de um observador diante de diferentes coisas ou pessoas, argumentos, o que seja. Isso significa voltar-se para os dois lados de uma moeda, como na expressão consagrada, usada para referir-se a dois aspectos opostos, ainda que presentes em uma única moeda e resultante de um só emissor (no caso, a autoridade monetária). Pode dizer-se que, aí, nessa figura de linguagem estão a diferença e a semelhança, pois esta está dada pelo que une uma e outra: o ser humano, com suas múltiplas facetas. De um lado da moedinha, hoje está o valor, a cara, e do outro lado, quem garante esse valor, o emissor, a coroa. A peça de moeda representa bem o fato de que a oposição não precisa estar no outro, mas que o outro mesmo está em cada um, pois todos e tudo apresenta-se em potência, como possibilidade: amor e ódio, empatia e indiferença, por exemplo.

Destas considerações universais, chegamos às manifestações concretas de relação com o outro, seja este outro, outra pessoa ou si mesmo. Na antiguidade, os judeus ou os cristãos podiam ser perseguidos, em certos momentos, por serem o outro, aqueles que se imaginava por a vida dos outros em perigo por sua suposta impiedade. Judeus, cristãos e muçulmanos perseguiram não só uns aos outros, como no interior dessas comunidades, àqueles considerados heréticos. Atitude semelhante pode ser encontrada em ambientes laicos, como atesta o Terror na época da Revolução Francesa, mas também na perseguição de judeus, sob o Nazismo, de burgueses, no Stalinismo ou no Maoismo. Não massacrados por suas ideias ou comportamentos, mas por serem considerados contrários à maioria. Em alguns casos, a exigência pública de reconhecimento da autoria de malefícios por parte de judeus ou burgueses levou à própria convicção da própria vítima de que, sem o querer, a pessoa fez mal aos outros e merecia mesmo a punição.

Entende-se, assim, que diversidade tenha tido um sentido mais negativo e excludente, “diferença, estranheza”, tanto em latim, como no uso em vernáculos até a século XVIII. Uma série de circunstâncias levou, desde então, ao surgimento e uso simultâneo do termo variedade e diversidade como algo positivo, em plantas, animais, nas ideias, nos sentimentos, nos idiomas, ainda que os sentidos deletérios não tenham desaparecido. Alexander Hamilton (1755-1804) mostra bem isso: “há bastante diversidade no que se refere à propriedade, ao gênio, às maneiras e aos hábitos das pessoas das diferentes partes da União, de modo a ocasionar uma diversidade material de disposição em seus representantes em relação às diferentes posições e condições na sociedade” (minha tradução; no original: There is sufficient diversity in the state of property, in the genius, manners, and habits of the people of the different parts of the Union, to occasion a material diversity of disposition in their representatives towards the different ranks and conditions in society. ["The Federalist," No. 60, Feb. 26, 1788 (Hamilton)]).

Essa valorização da diversidade como algo positivo se ampliou, para incluir a aceitação da convivência produtiva e fértil de pessoas com diferentes comportamentos e aparência, minorias (como as pessoas com necessidades especiais) ou maiorias (como as mulheres). Movimentos pelos direitos civis, contra o racismo, anti-coloniais ou imperiais, feministas, LGBT, pelas pessoas com necessidades especiais, animalistas, anti-prisional, anti-manicomial, entre outros, foram importantes para o reconhecimento da diversidade como valor. Claro, não se trata de algo inevitável e inconteste, como atestam a xenofobia ou o nacionalismo. No presente momento, em meio à pandemia do Covid19, a explicitação do desprezo pela vida de idosos e de frágeis em geral escancara alguns dos sentimentos mais repulsivos dos seres humanos, frente ao outro (e a si mesmo, pois nunca se sabe, ao certo, a própria fragilidade).

Os museus enfrentam esse desafio. Instituições guardiãs do patrimônio, do passado, estão sempre voltada para o presente e para o futuro. O museu recebe os visitantes, público em geral e estudiosos, hoje, mas essas pessoas estão a forjar o que há de vir também a partir dessa interação com o passado armazenado no museu. Há, portanto, uma questão ética, de valores, envolvida, de forma inevitável, na gestão do museu. Esse é um desafio tanto maior, quanto os museus surgiram e estruturaram-se em contextos nacionalistas, imperialistas, elitistas, excludentes, machistas e isso tudo pode fazer parte da própria história da instituição. Isto significa que não se pode evitar de colocar-se a deontologia: o que se quer, hoje, para o futuro? A gestão museológica inclui, por definição, projeto de futuro e defesa de valores, mesmo quando isso não está explícito. Se uma instituição mantém exposições racistas, machistas, nacionalistas, herdadas do passado, sem um contradiscurso, endossa esses valores. A introdução de outras narrativas, a favor da diversidade, da inclusão de todo tipo, da igualdade, como quer que a definamos, tudo isso depende de escolhas. A inércia pode levar a perpetuar as iniquidades do passado. Os serviços educativos, há muito, têm contribuído para incentivar contranarrativas e discursos críticos, para o público em geral e, em especial, para o escolar. Mesmo assim, isso não consegue ultrapassar, de todo, as limitações de exposições que violentam, por sua narrativa, o outro. Cabe a todos que se preocupam com o respeito a si mesmo (e, portanto, ao outro, a todos os outros), zelar para que os museus sejam portadores de devires libertadores, não opressores, de convívio, não de destruição. Mensagem simples, mas nem sempre fácil, nem por isso menos necessária, ainda mais em tempos de intolerância. Se os museus tentarem superar esse desafio, todos serão beneficiários.


[1] Departamento de História da Unicamp. 


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