18 Maio 2020 - Dia Internacional dos Museus

Pedro Mastrobuono
Presidente do IBRAM

Ainda que em apertada síntese, certas ponderações precisam ser feitas previamente, para só depois podermos analisar com alguma efetividade o potencial de nossos museus para o bem social, posto que as digressões estarão diretamente ligadas a certos conceitos, tais como “identidade cultural” e a diferenciação entre “educação” e “Cultura”. E, como se depreenderá a seguir, enfrentamos, em nossa sociedade, um triste fenômeno que entendemos por real “desenraizamento cultural”, o qual tem por consequência a sensação de abandono à própria sorte, individualismo exacerbado e medo, gerando revolta, agressões e violência, tão presentes na sociedade brasileira de hoje.

Começando por aquilo que se denomina de “identidade cultural”. Nosso ordenamento jurídico protege a “Cultura” por ser um importante elemento de formação da identidade de um povo. O que exatamente isso quer dizer? Desde os agrupamentos humanos mais rudimentares, um indivíduo se reconhece como integrante de determinado grupo, por suas pinturas corporais, por seu jeito de rezar, hábitos alimentares, danças e canções, etc. Tais manifestações culturais existem na nossa vida desde o berço, provocando memórias e experiências comuns, típicas de uma determinada sociedade. Este conjunto de memórias ajuda a definir quem realmente somos. Arcabouço de sentimentos e recordações que ajuda a criar nossa “identidade cultural”. Eis o porquê tantos brasileiros, que residem em outros países, sentirem tanta falta do feijão com arroz ou de simplesmente brincar com seu colega de trabalho, quando seu time de futebol perde. Note-se, que muitas vezes não se sente saudades de uma pessoa específica, mas sim de certos hábitos. Por mais que sejamos educados e bem preparados para levar a vida em outras sociedades, sentimos falta de nossos hábitos culturais. Neste ponto, cabe destacar outro conceito, bem distinto, o de “educação”, que pode ser buscada e alcançada em ambientes totalmente diversos, como outros países. Ninguém questiona que cursar uma universidade no exterior não garante, de fato, ao estudante uma adaptação completa ou um enraizamento cabal naquela sociedade.

Voltando ao contexto atual, não é por acaso que nossos cemitérios nunca foram tão vandalizados. Monumentos tão constantemente vilipendiados. Nossa sociedade nunca esteve tão dividida. Ódio e intolerância. O brasileiro nunca se sentiu tão só, abandonado à sua própria sorte, intimidado nas redes sociais, apavorado nos faróis e esquinas, vítima de tantos golpes e fraudes, buscando fugir desse cenário através da emigração definitiva. Por quê? Porque tais vândalos não se sentem representados por aqueles monumentos, como se as personagens ali retratadas fossem desconectadas totalmente, representantes da história de outro povo distinto do seu. Porque vilipendiadores tampouco sentem que os mortos ali enterrados, sejam coetâneos e próximos de seus próprios antepassados. Quando se perde a sensação de “pertencimento”, ocorre este nefasto fenômeno denominado “desenraizamento cultural”.

Não obstante, países vizinhos, tão latinos e sul-americanos como nós, preservam seus monumentos e cemitérios. Onde Cultura é enraizada, há maior efetividade no combate a violência, gerando mais paz social. Salta aos olhos como Medellin combateu a violência. Cidade que viveu onda de assustadora violência durante os anos 1990. Nos tempos de Pablo Escobar e cartéis, o município chegou ao incrível número de quase 400 assassinatos por 100 mil habitantes. Redução alcançada estimulando a identidade cultural: “Colocar a cultura como chave nesses projetos, como essência deles, a partir de um conceito que define cultura como apreciar a própria vida e aprender a viver com o outro. Um projeto de cidade que tenha uma dimensão cultural, que considere a cultura como direito, como acesso, como possibilidade de pensar, de nos assumir, com uma possibilidade de construir um elemento comum de sociedade, uma cultura que nos construa como cidadãos, que construa a cidadania.” (Jorge Melguizo, Secretário de Cultura e Desenvolvimento Social por duas gestões da prefeitura). “O contrário da insegurança não é a segurança, mas a convivência”, afirma.

Levar crianças a museus, a exposições e mostras culturais, ao teatro, a estádios, gera um conjunto de memórias indeléveis. Visitas guiadas a monumentos públicos também. Tudo isso gera maior enraizamento cultural. Como bem nos ensina o psicanalista David Levisky: “Ter hábitos, valores e modos similares de ser, sentir e pensar contribui na construção da ‘arquitetura anímica’, conceito descrito por Freud na busca de compreensão dos elementos que aproximam pessoas de um determinado grupo no espaço da microcultura.”.

Rivalidades, invejas, ciúmes, ódio e violência podem ser efetivamente diluídas por valores comuns, através de relações mais tolerantes, de respeito por diferenças e divergências. Assim, chega-se à conclusão de que identidade cultural, bem construída, gera vivências emocionais concordantes e complementares. Mais ainda, que a diminuição da violência passa pelo enraizamento cultural, por relações sociais pautadas na cooperação e respeito mútuos, por sentimento de pertencimento que se ancora em esperança coletiva de futuro.

Até aqui, chegamos ao ponto que levar nossas crianças aos museus é algo benéfico e essencial. Agora, e quando, além de tudo, estão doentes? Enfrentado a desgastante e massacrante rotina de lutar, diariamente, contra o câncer? Não se fazem necessárias grandes digressões, para se imaginar o quão difícil pode ser a infância desses pequenos. No Brasil possuímos projetos sociais premiados com este escopo, onde os efeitos do acolhimento proporcionado são ainda mais profundos, mais efetivos. As memórias que levam consigo também. Muitas dessas crianças experimentam a alegria pela primeira vez, algo que simplesmente não existe em face do tratamento ininterrupto a que são submetidas. Como vimos, por acreditar que este seja efetivo exercício de cidadania, cujo mérito é gerar, nas crianças, maior enraizamento cultural, com o respectivo sentimento de pertencimento que se ancora em esperança coletiva de futuro. Seja, ainda, para deixar na memória afetiva das crianças que visitam nossos museus, novos heróis, compartilhando da sensação que o povo brasileiro tem expoentes não só na música ou nos esportes, mas também nas artes visuais.

Estas digressões expressam como a atual gestão do Ibram entende que políticas públicas para o campo museal podem, de fato, promover ferramentas para identificar e superar preconceitos, gerando maior inclusão.


 

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