18 Maio 2020 - Dia Internacional dos Museus

Luciana Pasqualucci [i] 

Não é de hoje que escutamos a premissa de que o museu deve servir para a vida. A museóloga Waldisa Russio inaugurou, no final dos anos de 1970, o conceito denominado pela autora de “fato museológico” e o definiu como “[...] a relação profunda entre o homem, sujeito que conhece e o objeto, parte da realidade, à qual também pertence o homem e sobre a qual ele tem o poder de agir” (RUSSIO, 198-?, p. 007). O fato museológico (a relação homem/objeto), no cenário do museu, implica, segundo Russio (198-?), uma revisão e releitura do mundo, considerando-se como espaço dentro do qual o fato museológico se realiza. Desse modo, o museu é a base institucional necessária para a relação entre o homem e o mundo.

Também nos anos de 1970, as propostas da Nova Museologia (PRIMO, 1999), surgida a partir das decisões tomadas na Mesa Redonda de Santiago do Chile em 1972, evento realizado pela divisão de museus da Organização das Nações Unidas para a Educação, a Ciência e a Cultura (UNESCO), em parceria com o Conselho Internacional de Museus (ICOM), que discutia o papel dos museus da América Latina, enfatizam a importância do museu firmar-se como “fator de mudança social” (IBRAM, 2012). A Nova Museologia evidenciao museu como espaço essencial para a vida em sociedade e amplia o conceito de espaço de preservação do patrimônio cultural para espaço de entrosamento e de diálogo com as questões sociais, políticas e econômicas. Não se trata da criação de um novo museu, mas, sim, do desenvolvimento de um novo trabalho institucional pautado nas temáticas, nas experiências e nos problemas dos diferentes contextos em que os museus estão inseridos.

Atualmente, estamos inseridos, todos, em um mesmo contexto: o grave problema de saúde pública que desafia o Planeta. Os museus estão 100% de portas fechadas [1], o que demanda adesão aos meios digitais para dialogarem com o público ese fazerem presentes. Buscam, a cada dia, estratégias de divulgação online de seus acervos e de suas atividades: visitas virtuais, conversas em formas de lives com curadores, teóricos e artistas e ações diversas, tais como narração de histórias, aulas de história da arte abertas, aulas de ioga, oficinas de arte para crianças, mostras de filmes gratuitas, podcasts e outras atividades desenvolvidas por meio das mídias digitais. O isolamento social e as possibilidades virtuais demonstram o quanto a instituição museológica possui enorme capacidade para dialogar com a sociedade, independentemente do seu espaço físico.

Pensar a representatividade dos museus no contexto pós COVID-19 é estratégico para a sobrevivência deles. Destacamos uma das resoluções adotadas pela Mesa de Santiago, a qual possui relação com o contexto atual para a reflexão sobre a necessidade de estruturas museológicas socialmente amplas, diversificadas e democráticas para um futuro próximo. Assim,“[...] as transformações sociais, econômicas e culturais que se produzem no mundo, e, sobretudo em um grande número de regiões em via de desenvolvimento, são um desafio para a Museologia” (PRIMO, 1999, p. 112).

Refletir sobre a reconstrução de memórias e a projeção de futuros possíveis a partir da pandemia que alterou as nossas vidas e a vida das instituições nos faz pensar que, dificilmente, haverá museus que dialoguem efetivamente com seus públicos sem considerar sua dimensão social e sua potência criativa. O contexto atual inaugura uma nova cultura de relações sociais, culturais, poéticas e políticas, e os museus serão espaços institucionais, virtuais e conceituais na reconstrução dessas relações. Teremos, com isso, de certa forma, uma nova configuração museográfica. Se o desafio do museu contemporâneo é lidar com as pessoas mais do que lidar com os objetos e levando em conta a profunda relação entre o homem e o mundo, a oportunidade está posta. E, também, de acordo com a Nova Museologia, se o museu pode surgir de acordo com um problema da comunidade e promover ações sociais que disparem a consciência crítica e social, temos atualmente uma oportunidade única.

A tentativa de compreensão do mundo e das relações na era COVID-19 pela sociedade passa pela informação e pela desinformação ampliada das discussões sobre temas circundantes à pandemia no contexto das mídias, das comunicações e das tecnologias digitais, por exemplo: fake news, deep fakes, controle estatal sobre o direito de ir e vir, trabalho remoto, Educação a Distância e literacia midiática.

Consideremos este último para refletir sobre o papel dos museus diante da enxurrada de imagens a que estamos submetidos. De acordo com Borges (2013), literacia midiática é a capacidade de a população compreender, criticamente, os conteúdos midiáticos, como também acessá-los e produzir novos conteúdos a partir das mídias existentes, sendo a capacidade de “[...] acessar, analisar, avaliar e criar mensagens através de uma variedade de contextos diferentes” (BORGES, 2013, p. 50). Dessa maneira, literacia midiática é a capacidade crítica de acessar e de criar conteúdos frequentes nos meios digitais. Devido às atuais conjunturas, essa é uma necessidade e tanto. Se o nosso conhecimento já era mediado por imagens, as informações sobre os fenômenos atuais (crise na saúde, crise na política, crise na economia, além do advento da educação a distância) são, basicamente, constituídas por imagens e pelas narrativas construídas sobre elas. Como citado anteriormente, são desafios da museologia acompanhar as transformações sociais, econômicas e culturais que se produzem no mundo (PRIMO, 1999). Dessa forma, considerar a presença e a permanência das mídias digitais em nossas vidas é uma necessidade.

Mais do que incentivar o pensamento crítico por meio de propostas que envolvem ações e reflexões respaldadas na memória, na História e no Patrimônio, pergunta-se: De que modo o museu pode orientar o seu discurso para o presente, apropriando-se da presença da mídia digital na cultura e na sociedade e enfocando o seu significado na reconstrução das relações sociais e culturais?

Se o fato museológico é a profunda relação entre homem e objeto, e o museu contemporâneo deve existir para a vida, o museu, na era pós COVID-19, poderá enfatizar sua capacidade crítica ao produzir, junto à sociedade, estratégias de mediação e de reflexão para avaliação e análise de imagens e de conteúdos veiculados pelas mídias digitais. Desse modo, atuará também como um coletor de narrativas que indiquem a sua potência em pensar, atuar e agir ao indagar a veracidade dos acontecimentos, de forma a auxiliar, quem sabe, na tentativa de decifrar um cenário tão incerto como o nosso.


[i] Doutora e mestre em Educação: Currículo, pela PUC-SP. Docente dos cursos de Museologia e formação cultural: práticas e pesquisas interdisciplinares e de Patrimônio Cultural: gestão, políticas públicas e memória, na PUC-SP. Vinte anos de atuação na área educacional como docente, autora, consultora, palestrante e gestora. Pesquisadora do grupo Políticas de Educação/Currículo no Brasil -CNPq/PUC-SP e do GEPI, Grupo de Estudos e Pesquisas em Interdisciplinaridade,- PUC/CNPq. Membra cofundadora do projeto PUC MUSEUS - PUC-SP. Membra do ICOM: The International Council of Museum / CECA: Committee for Education and Cultural Action. Experiência em gestão e educação museológica, atuando principalmente nos seguintes temas: arte moderna e contemporânea, interdisciplinaridade, desenvolvimento de projetos, cursos de formação e coordenação de equipe. Desenvolve pesquisas sobre Formação Cultural, Estética, Interdisciplinaridade, Currículo e Fenomenologia. Possui, ainda, experiência em análise educacional e editorial, projetos pautados em metodologias ativas e gestão de parcerias. Lattes: http://lattes.cnpq.br/6970732117221802 . Email: Este endereço de email está sendo protegido de spambots. Você precisa do JavaScript ativado para vê-lo.

[1] Data de 28 de abril de 2020.


Referências

  • BORGES, Gabriela. Qualidade e Literacia Midiática: um diálogo profícuo e necessário. In: ENCONTRO DE COMUNICAÇÃO E EDUCAÇÃO DE PONTA GROSSA - ECOM.EDU,3., 2013, Ponta Grossa. Anais[...]. Ponta Grossa: UEPG, 2013. p. 46-60.
  • IBRAM. Instituto Brasileiro de Museus & Programa Ibermuseus. Mesa redonda sobre la importancia y el desarrollo de los museos em el mundo contemporáneo: Mesa Redonda de Santiago de Chile, 1972. Organizada por José do Nascimento Junior, Alan Trampe, Paula Assunção dos Santos. Brasília: Ministério da Cultura, Ibermuseus, 2012.
  • PRIMO, Judith (Org.). Museologia e Patrimônio: Documentos Fundamentais: Mesa-Redonda de Santiago do Chile. TraduçãoMarcelo M. Araújo e Maria Cristina Bruno. Cadernos de Sociomuseologia, Lisboa, n. 15, p. 111-121, 1999b. Disponível em: http://revistas.ulusofona.pt/index.php/cadernosociomuseologia/article/view/335. Acesso em: 25 abr. 2020.
  • RUSSIO, Waldisa. A formação do museólogo, hoje.São Paulo:Arquivo IEB – USP, Fundo Waldisa Russio, WR – PT – 0061 [198-?].

Entre em contato conosco!

Envie seus comentários, críticas e elogios sobre esse artigo para o email Este endereço de email está sendo protegido de spambots. Você precisa do JavaScript ativado para vê-lo. .

Agenda

Seg Ter Qua Qui Sex Sáb Dom
1
2
3
4
5
6
7
8
9
10
11
12
13
14
15
16
17
18
19
20
21
22
23
24
25
26
27
28
29
30
31