18 Maio 2020 - Dia Internacional dos Museus

Maria de Lourdes Parreiras Horta [1] 

Estamos todos enfrentando uma guerra, sem dúvida a “terceira guerra mundial”, e nenhuma pessoa, em qualquer país do mundo, poderia imaginar, ao brindar o Ano Novo com uma taça de champagne, ou similar, à zero hora de 2020, o que estaria por vir…

As consequências e o drama que se espalham pelo mundo nestes primeiros quatro meses do ano são difíceis de sintetizar em um breve texto, e mesmo isso não seria necessário, quando todos e cada um experimentamos todo o seu peso, angústia e dor. E nós, dos Museus, como nos situamos? Como estamos? O que podemos imaginar para o nosso futuro pós-pandemia? Haverá um “novo normal” para as nossas instituições, um “Novo Museu”?

Em 1999 participei de um simpósio na Smithsonian Institution, em Washington Dc., cujo título era “Museums for a New Millenium”... tudo o que ali foi dito e preconizado já conhecemos e experimentamos hoje, 20 anos depois… a democratização das instituições, a inclusão de novas camadas da sociedade, a acessibilidade oferecida ao nosso público, tanto física quanto intelectual, a imersão e envolvimento na vida das comunidades em que estamos inseridos. O potencial educativo e novas metodologias no uso educacional dos museus e monumentos já não era mais novidade, há já mais de meio século.

Em tempos de mar revolto, é preciso segurar o leme, e seguir, “Rumo ao Mar”, como dizia o meu bisavô, o Almirante Alexandrino. Pelo milagre das tecnologias estamos segurando firme o leme das instituições, não apenas os Museus, como suas co-irmãs, Bibliotecas, Arquivos e Centros Culturais, e re-inventando a roda da nossa missão social, durante este sombrio período da quarentena contra o ataque desse vírus mortal: exposições virtuais, cursos, palestras, visitas guiadas, charadas e jogos interativos, para crianças e adultos, e até desafios para o comum dos mortais, de se transformarem em Mona Lisas, ou Hércules ou o Discóbulo de Miron, apenas para fazer mais uma “selfie” para o Instagram. Algo mais além disso, poderíamos perguntar? Que aprendizado poderíamos nós, curadores, diretores, museólogos, conservadores, educadores, administradores, relações públicas, voluntários, amigos dos Museus, tirar desse “congelamento” no tempo e no espaço, como naquela brincadeira de infância, de “Estátua” ? Estando agora distante deles, volto a eles em minha mente e em meu coração, e descubro, fascinada, alguns segredos e tesouros escondidos atrás das colunas e dos corredores vazios que ecoam meu caminhar imaginário… Ora, não sonhávamos ampliar o nosso público cativo, atingir novas audiências, conseguir uma verdadeira “interação” com os mesmos? E de repente, não mais que de repente, esse é o nosso “novo quotidiano”, a “nova normalidade”... em distanciamento físico, mas em grande proximidade intelectual, espiritual, emocional, a possibilidade de interagir e dialogar, não mais em alta voz em meio a multidões e grupos conflitantes, tirando fotos e selfies freneticamente, mas o diálogo íntimo e nunca tão próximo com cada visitante em particular, dentro de sua casa, em seu “home office”, até mesmo em cima da cama… e junto a esse visitante, adulto, sênior ou jovem, masculino ou feminino, transgênero e transgeracional, pode estar uma criança, várias crianças, um animal, até quem sabe um papagaio falante… e de repente a experiência do museu se torna algo único, inédito, e altamente reconfortante, para os olhos e as almas dos nosso prisioneiros em domicílio, e para as nossas cabeças museológicas pensantes. Quase forçosamente, e inevitavelmente, criaram-se novos elos de contato, novas situações de intimidade e relaxamento, novas relações afetivas entre o público dos museus e seus acervos… o mesmo pode estar acontecendo com os livros, desfolhados eletronicamente nos sites das Bibliotecas, os mapas e portulanos desdobrados a um toque de dedo e de magia nas telas dos laptops e desktops, ou até nas espetaculares TVs inteligentes… dali não estaremos longe de saltar pelas janelas e balcões, e lançarmos nossas galerias virtuais para as empenas dos prédios, os pátios dos condomínios, e quem sabe até ver surgir a Vênus de Botticelli, nascendo das piscinas condominiais, após o que, aplaudiremos os heróis de máscara, nas trincheiras da guerra que nos abate. E se essa mágica pode acontecer, com as realidades ampliadas ou “virtuais” se apoderando dos espaços da ação institucional, outras experiências mais “científicas”, se quiserem podem ter seu lugar nesse cenário pandêmico… os mesmos canais e mecanismos de comunicação com nossos novos públicos - sim, porque antes de tudo esse é um novo público, que certamente nunca entrara em nossos palácios e templos da cultura “maior”, ou apenas o ousaram, por alguns momentos, alimentando as quilométricas filas, fora das pirâmides do Louvre, ou do MOMA, ou de algum dos outros monstros sagrados da museologia e do colecionismo de arte no universo - os mesmos canais e mecanismos que, volto a dizer, nos permitem saber mais sobre esse “público”, essa platéia, essa audiência, e no “frigir dos ovos”, como diria a minha avó, os nossos pilares da sustentabilidade financeira e econômica, e mesmo moral. Nada mais simples, e sem nenhuma novidade afinal, do que colher mais informações de contato sobre esse nosso público, na verdade, o nosso “patrão”, recolhendo dados importantes sobre sua diversidade, sua constituição e sua origem, seu nível instrucional e econômico, e de modo especial, seus interesses… de posse desses dados, recolhidos com o pleno assentimento dos nossos visitantes virtuais, nada mais simples, e interessante, do que formatar “circuitos sob medida”, ou “personalizados”, “tailored made”, para cada visitante individualmente, estabelecendo com ele uma relação de serviço direto, e ao final, de uma duradoura e fiel amizade.

Entrando na terceira década de um “novo milênio”, que possivelmente assistirá à nossa extinção, qual dinossauros futuristas, descobrimos agora que o público dos museus e dos espaços culturais não é mais a multidão amorfa e anônima com a qual estávamos habituados a tratar, mesmo nas pequenas e modestas casas de cultura e de memória, que não sabiam como lidar com a invasão do turismo “cultural”, e avassalador… O nosso objetivo e método de trabalho passou a ser dirigido para o visitante individual, para a pessoa, que passamos a conhecer, a receber na nossa intimidade institucional, abrindo-lhe nossas reservas técnicas, contando-lhe as histórias que gostam de ouvir, com olhos maravilhados de crianças… e que não são apenas crianças… desaparecem as diferenças de idade, gênero, classe social, instrução, situação econômica… o “visitante virtual” tem todas as idades, todos os gêneros, todas as diferenças, por trás das telas e teclados que são a nossa “interface” com ele. Fica muito claro nesse momento que há muito trabalho a ser feito “intramuros”, mesmo “intra-home-office”, para atender a esse novo visitante, aos milhões deles, que penetram sem cerimônia os nossos canais eletrônicos: roteiros particularizados, análises específicas de peças do acervo, escolhidas pelo usuário, perguntas e respostas, disponibilização de imagens em perfeita resolução, para uso nos “museus pessoais”, e em trabalhos escolares ou acadêmicos, informações sobre os processos e sistemas que utilizamos na catalogação e organização dos acervos, no registro dos itens, na conservação, nos problemas de acondicionamento, da nossa rotina “behind the curtains”... uma das atividades de maior sucesso que implantamos no Museu Imperial, há mais de uma década atrás, foi a visita aos bastidores dos diferentes setores do Museu, em grupos limitados de visitantes. “O Museu que não se vê” levava o público a conhecer diretamente a rotina e o trabalho, além dos responsáveis pelos diferentes setores da casa, em sua diversidade de ações e especialidades, contribuindo para que o trabalho institucional fosse cada vez mais valorizado e apreciado através desse conhecimento direto da nossa realidade. Na atual situação, nada melhor do que oferecer programas semelhantes, preparados dentro das limitações decorrentes do confinamento, mas possíveis de serem veiculados, e no caso atual, apreciados por um número bem maior do público, que pode inclusive ultrapassar as fronteiras geográficas.

É o momento, também, dos curadores e responsáveis ganharem um tempo que não tinham antes, para refletir e pensar suas instituições em novas bases, no presente próximo e no futuro a descobrir, e elaborar os estudos sobre suas coleções, que os afazeres da rotina anterior não lhes permitiam, de aprofundar seu conhecimento sobre o seu campo de trabalho e seu acervo específico, de programar cursos e roteiros a serem disponibilizados para um “novo público” que vem tomando forma em nossa “nova realidade”. Uma “AR”, na verdade, a novidade tecnológica da “Realidade Aumentada”, e não apenas a Realidade Virtual, “VR”, com que sonhávamos em nossas “wish lists” (listinhas de desejos para o Papai Noel patrocinador)...

E, mais uma vez, podemos aprender com as crianças - essas já entraram há muito tempo por trás das nossas telas de vídeos e chats… sem reverência ou formalidade, acredito que são elas, as crianças, que nos devolvem o prazer de mergulhar de cabeça nos jogos eletrônicos e nos labirintos da construção de novos caminhos e novas saídas para os tempos do Coronavirus… com sua sabedoria para construir seus castelos no “Mine Craft”, são as crianças que nos ensinarão a construir nossos novos Museus, em tempos de nova normalidade, novas utopias e novas esperanças...


[1] Museóloga, PhD em Museologia e Comunicação pela Universidade de Leicester, Inglaterra, Técnica Consultora do IPHAN, aposentada.


 

Entre em contato conosco!

Envie seus comentários, críticas e elogios sobre esse artigo para o email Este endereço de email está sendo protegido de spambots. Você precisa do JavaScript ativado para vê-lo. .

Agenda

Seg Ter Qua Qui Sex Sáb Dom
1
2
3
4
5
6
7
8
9
10
11
12
13
14
15
16
17
18
19
20
21
22
23
24
25
26
27
28
29
30
31