18 Maio 2020 - Dia Internacional dos Museus

Maria de Jesus Monge
Presidente do ICOM Portugal

De um dia para o outro, sem preparação prévia, o impensável aconteceu, todas as instituições culturais, criadores e operadores artísticos ficaram privados do contacto directo com o público e entre si.

O recurso às ferramentas digitais tornou-se a solução para manter o diálogo, aceder a conteúdos, ultrapassar as limitações físicas e, com a passagem do tempo, vencer a lentidão dos dias. O admirável mundo das novas tecnologias permite, a todos os que podem aceder a estes recursos e assim o entendam, usufruir de um número ilimitado de produções, propostas …

Diríamos que a anunciada revolução no acesso à Cultura aconteceu por via de um inimigo silencioso e insuspeito. A reabertura que agora iniciamos irá trazer o reconhecimento que o mundo virtual é o futuro, ultrapassando definitivamente as formas que considerávamos habituais de fruição em museus, monumentos, teatros, bibliotecas?

Para aqueles que tiveram e puderam ficar em casa durante semanas foi possível ver, ouvir e ler, novos e velhos conteúdos, que foram sendo aumentados de forma engenhosa e generosa por criadores e instituições.

Debatemo-nos com a impossibilidade de cumprir programações; artistas, técnicos e prestadores de serviços das áreas da Cultura ficaram sem poder concretizar as actividades que lhes garantem o ganha-pão e o cumprimento das respectivas missões. Urge encontrar soluções que permitam a milhares de agentes da Cultura sobreviver neste novo contexto, que não prevê rápida recuperação. Ultrapassada esta conjuntura, será evidente que terão de reajustar as suas competências para passar a concentrar esforços nas áreas do digital e virtual?

Que nos traz o dia seguinte? Estes dois meses de paragem forçada são uma interrupção ou o momento zero de algo diferente?

A rápida evolução social vivida no século XX fez desembocar na actualidade múltiplas interrogações e não menos propostas de novos caminhos, a discussão em torno da necessidade de nova definição de museu é o pico de um iceberg que foi lentamente avançando no quotidiano dos profissionais e pensadores. A irrupção desta nova conjuntura trará necessariamente o acelerar do repensar que todos sentíamos ser necessário.

Na base das duas perspectivas antagónicas e das múltiplas gradações que as rodeiam estão concepções diversas de sociedade, ideias diferentes de memória colectiva e respectivos salvaguarda, tratamento e estudo.

O tema do Dia Internacional dos Museus para este ano é Museus pela igualdade: diversidade e inclusão. O desafio desta proposta ganha impacto à luz das reflexões anteriores.

O momento que vivemos parece revelar a maior resiliência das estruturas consolidadas na sociedade, mas o dia seguinte vai ser a verdadeira prova de vida das diversas opções.

Há já quem apregoe o fim dos museus como os conhecemos, ancorados na materialidade, utilizando os instrumentos ao seu dispor para melhor atingir o fim maior de servir a comunidade, incluindo a dos turistas planetários.

A transferência da fruição cultural para o universo digital não é mais desigual? A net é mais democrática que o acesso físico?

O acesso a equipamentos ou rede internet não é universal, a alteração das estratégias de mediação não está ainda madura para penetrar em públicos que não eram já consumidores de produtos culturais. Os criadores e propostas que não integram o mainstream podem propiciar maior diversidade, mas a disponibilidade não significa maior visibilidade e profundidade.

Substituir a actual concepção de museu como espaço de vivências e experiências, em que os objectos são mediadores de memória, por algo indefinido, conceptualmente apelativo mas que veicula fundamentalmente uma visão, será a melhor forma de corresponder à vontade de evolução positiva e múltipla? Não será antes disrupção árida, promotora de fórmulas unívocas?

Estarão alguns dos sentidos, que desde sempre mediaram a relação do Homem com o que o rodeia, destinados à irrelevância? O olhar e o ouvir serão suficientes para anular o olfacto, o toque, o paladar?…. E o ver e escutar indirectos, mediados pela tecnologia, serão suficientes? Que implicações para o Ser social terá uma nova forma de encarar a perspectiva sensorial?

Os museus são espaços de contacto e permuta baseados justamente na apreensão individual, enquadrada num diálogo que se deseja múltiplo e desafiador, não apenas ao nível cognitivo mas necessariamente com as dimensões sensorial e social.

As grandes produções milionárias, que chamavam milhões e retinham a atenção dos media terão provavelmente de ser substituídas por opções mais adequadas aos novos tempos, em todas as dimensões quantitativas: público, peças, investimento… Contudo esta tendência já se vinha tornando inevitável com as ameaças do terrorismo internacional, a busca de sustentabilidade ambiental, a preocupação com a conservação de numerosos tesouros.

Terá chegado o momento de dar primazia à componente social, de transmissão de memórias e conhecimentos, missão fundamental e mobilizadora da instituição museológica mesmo para os museus vedeta, escravos dos números e das receitas. Sabemos que a igualdade se constrói com a diversidade e a inclusão, a actual situação planetária vem reforçar ruidosamente esta certeza.

Os museus e restantes equipamentos culturais foram das primeiras entidades a encerrar as portas. Boa parte das equipas foram para casa, muitos em teletrabalho, outros garantem as tarefas indispensáveis de conservação preventiva, manutenção e segurança.

A pandemia veio reforçar a necessidade de Estados sociais organizados e eficazes na protecção dos cidadãos, nomeadamente nas áreas da saúde, abastecimento de bens essenciais, segurança. Qual é o papel da Cultura nesta reforçada perspectiva dos deveres dos Estados? A relevância demonstrada pelas várias áreas da expressão artística, multiplicada em generosas e inventivas fórmulas durante estes tempos singulares de distanciamento, afirma de forma indesmentível a força da Cultura e o seu papel social insubstituível para o reforço da cidadania consciente.

Os museus defrontam-se com grandes desafios, como a escassez de recursos humanos e financeiros, que ameaçam encerrar alguns, mas a irrelevância não é um deles, desde que continuem a cumprir a missão a que estão devotados: adquirir, conservar, estudar, comunicar e expor os testemunhos materiais e imateriais do Homem e da Natureza.


Entre em contato conosco!

Envie seus comentários, críticas e elogios sobre esse artigo para o email Este endereço de email está sendo protegido de spambots. Você precisa do JavaScript ativado para vê-lo. .

Agenda

Seg Ter Qua Qui Sex Sáb Dom
1
2
3
4
5
6
7
8
9
10
11
12
13
14
15
16
17
18
19
20
21
22
23
24
25
26
27
28
29
30
31