18 Maio 2020 - Dia Internacional dos Museus

Juliana Monteiro [1] 

Escrevo esse texto em um dia cinzento na Paulicéia Desvairada, em pleno avanço da pandemia de COVID-19. Assim como eu, muitas pessoas buscam se informar durante a quarentena sobre o que está acontecendo, quais são as tendências mundiais e no Brasil e que perspectivas temos diante de nós. E, talvez assim como eu, elas também chegam quase que diariamente à mesma conclusão: não sabemos.

O universo da cultura, em particular os museus, já alvo de uma série de problemas e desmontes antes mesmo da pandemia, agora vê um cenário pouco animador se aproximar. Cortes de orçamento, demissões, diminuição das atividades. É um contexto de muitas incertezas, como todo o resto. É esperado que estejamos nesse estado suspenso de tensão e preocupação, nos questionando qual será o próximo passo.

O que temos em mãos, todavia, para jogar uma luz mais positiva sobre isso é a oportunidade que as tecnologias digitais trazem para as instituições de memória.

Claro, a maioria delas não estava – e talvez ainda não esteja totalmente – preparada para, de uma forma muito rápida, ser ativa no universo da internet como nunca antes. Pesquisas recentes – como a TIC Cultura 2018 – mostram muito claramente que a maioria das instituições de cultura brasileiras, entre elas os museus, tem uma série de dificuldades nesse setor: poucos computadores, falta de infraestrutura de TI, ausência de website próprio etc.

Mas, o desafio pode ser também uma oportunidade. Sempre procuro pensar que ao invés de imaginarmos que não conseguiremos fazer nada, podemos fazer algo – ainda que pequeno, já será algo.

A oportunidade está, portanto, justamente no crescimento que essa situação atual impõe às instituições de memória. Já há bastante tempo se comenta sobre a necessidade de museus, arquivos e bibliotecas enfrentarem seus fantasmas digitais dentro dos armários e verificarem o que é possível fazer. Pois bem, a hora é essa.

As tecnologias digitais podem, sim, ser uma ferramenta para auxiliar na expansão do acesso aos acervos. Isso significa que tudo que um museu tem digitalizado deve ir para a internet? Não necessariamente. Por que? Por que é necessário haver uma curadoria digital dos recursos. Então, são válidas as perguntas: o que pode ser compartilhado? Como? Por qual razão? Que tipo de impacto esperamos com esse compartilhamento? Que tipo de informação temos para acompanhar os recursos visuais que estamos disponibilizando? A informação que temos é suficiente para aquilo que queremos fazer?

Nunca, portanto, a dobradinha documentação x divulgação esteve tão em evidência. Para conseguirmos alcançar o nível de disponibilização que desejamos, ainda que ele seja variável de instituição para instituição, teremos que passar por ações de identificação do acervo. Assim, a organização dos dados, ainda que básicos sobre os itens que fazem parte de uma coleção, poderão alimentar catálogos online, websites, publicações no Facebook e até a produção de lives no Instagram.

Há ainda as oportunidades que são trazidas pelo universo das plataformas colaborativas, como o repositório de arquivos multimídia Wikimedia Commons. Tais plataformas permitem que recursos em domínio público ou com licenças abertas sejam carregadas para reutilização ampla e praticamente irrestrita, por praticamente qualquer pessoa. As imagens podem, por exemplo, serem reutilizadas para ilustrar diferentes artigos do projeto irmão do Wikimedia Commons, a Wikipédia – maior enciclopédia online do mundo. A colaboração com um dos sites mais acessados do planeta pode gerar frutos muito positivos para os dois lados, tal como pude explorar em um artigo específico sobre o tema.

Mas, e a questão dos recursos materiais, financeiros e humanos para fazer isso acontecer? Essa é uma pergunta complexa e não ignoro aqui a diversidade de contextos em que se inserem nossos museus brasileiros, o que pode dificultar ou facilitar a resposta. Contudo, o que posso dizer sobre isso é que, novamente, o desafio pode se transformar em oportunidade para as instituições e suas equipes – para solicitar recursos, participar de editais, promover parcerias a zero custo, em que as partes envolvidas trazem aquilo que podem para fazer a colaboração acontecer. No sentido da parceria, há também a possibilidade de usar tecnologias de baixo custo, como o rádio, por exemplo, para difundir uma coleção.

Ainda não há respostas prontas. Estamos navegando em águas turbulentas e profundas, mas que estão nos fazendo aprender, na marra, como atingir novos patamares de atuação. Que possamos pensar, sim, na profissionalização cada vez maior da curadoria digital em museus e da documentação de acervos.

E amanhã, com certeza, há de ser outro dia.


[1] Museóloga graduada pela UFBA. Mestre em Ciência da Informação (ECA-USP). Trabalhou no Museu da Energia de São Paulo e Museu da Imigração. Professora do Curso Técnico em Museologia da ETEC - Parque da Juventude. Consultora para projetos relacionados à gestão da informação em coleções culturais. Coordenadora de projetos OpenGLAM no capítulo brasileiro do Creative Commons. Embaixadora regional para o ciclo 2019-2020 da campanha Art+Feminism.


 

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