18 Maio 2020 - Dia Internacional dos Museus

Karla Estelita Godoy [i] 
Sarah Borges Luna [ii] 

A visibilidade e a diversidade das chamadas minorias sociais são pautas que permanecem no centro das discussões contemporâneas. É esperado que museus também as incorporem, por serem instituições atentas ao diálogo com a sociedade e suas demandas. Mas o videoclipe dos cantores pop Beyoncé e Jay-Z gravado diante da obra Mona Lisa, no Museu do Louvre, em Paris, reivindicando a presença dos negros como participantes mais efetivos nos espaços museais, chamou especial atenção para a necessidade frequente de ampliação desses debates. A presença do próprio casal no ambiente, a indumentária por eles usada, as danças e demais expressões coexistindo com obras de arte consideradas eruditas constroem uma estética que desnuda o apagamento histórico da diferença, reafirma as agendas dos movimentos minoritários e rompe com representações culturalmente estabelecidas. Diante disso, importa analisar como tais aspectos vêm sendo trabalhados nos museus, sobretudo no sentido de reforçar o processo de transformação das desigualdades ainda vivenciadas.

Ao longo dos tempos, houve inegáveis conquistas, mas é indispensável reconhecer que essa é uma luta árdua e incessante, à qual os museus mereceriam mais fortemente se engajar. E, como certos movimentos também conclamam, deve ainda existir a descolonização de ideias no campo da Museologia, para que ela se reflita nas diversas formas de ser museu.

Dar enfoque a outros modos de representação é lidar com polêmicas, deslocar olhares e pensamentos mais conservadores. E os museus, boa parte das vezes, encontram-se no cerne desse debate, uma vez que seus espaços expositivos são, por excelência, locais de experimentações estéticas que suscitam sentimentos variados. Esse foi o caso da exposição Queermuseu e da performance La bête [1] , que sofreu censura e difamação virtual. Censurar exposições que causam desconforto no público é trair as liberdades essenciais, afirma Danielle Kuijten, vice-presidente do Comitê para o Desenvolvimento de Coleções do Conselho Internacional de Museus (ICOM). Ela ressalta, no entanto, que é necessário dialogar com o público, informando sobre o conteúdo apresentado, a fim de que se evitem narrativas equivocadas. Ainda de acordo com Kuijten, “as instituições devem aproveitar de todas as mudanças que presenciamos para tomar espaços onde as pessoas se sintam acolhidas, mas também desafiadas” (GOBBI, 2017). Esse é mesmo um desafio constante para as instituições museológicas, já que elas produzem e são produzidas por controvérsias e se constituem, simultaneamente, como espaços de hospitalidade e hostilidade (GODOY, 2017). Daí a relevância de se analisar a relação dos museus com seus públicos pelo viés do acolhimento.

Temas como racismo, discriminação e diversidade de gêneros, que vêm sendo amplamente debatidos na mídia e nas redes sociais, sempre tiveram lugar nas artes, bem como nos museus, que têm como função precípua proporcionar o exercício do pensamento crítico. No entanto, caberia às instituições museológicas se comprometerem eticamente com discussões acerca do apaziguamento das desigualdades e violências, contribuindo para a diminuição progressiva do obscurantismo intelectual e a redução dos preconceitos.

Tendo em vista a responsabilidade social relacionada a essas temáticas, um dos temas de grande relevância é a reinterpretação de acervos pela perspectiva dos estudos de gênero, dadas as dificuldades em se lidar com a condição feminina diante de uma construção social de domínio masculino. Gênero como categoria de pensamento vem sendo amplamente debatido nos últimos anos e, como aponta Joan Scott (1989, p.7), “é uma maneira de se referir às origens exclusivamente sociais das identidades subjetivas dos homens e das mulheres”. Os estudos de gênero ajudam a compreender os polos masculino e feminino, e seus desdobramentos. Apesar do aumento relativamente recente das pesquisas nesse campo, que contribuem enormemente para transformações das situações de sexismo, é de vital importância que sua potência seja constantemente reativada.

Quando se dá destaque às mulheres e ao feminino, já é possível fazer-se uma associação direta com os movimentos feministas. A trajetória do feminismo é, muitas vezes, ligada a uma construção negativa, mas se torna libertador enxergá-la como “potência transformadora” (TIBURI, 2018, p.8). É nessa perspectiva que se apoia o ensaio aqui proposto.

Nos museus, a presença feminina é cada vez mais requisitada, não só na temática das obras, mas em sua autoria. De origem mítica, a palavra museu carrega a essência feminina:é o templo das musas, as nove filhas de Zeus e Mnemosyne, a deusa da Memória. Musa – definição que popularmente se atribui a mulheres que inspiram artistas – refere-se, no pensamento dos gregos, à inspiração e à criatividade. Ambas estão relacionadas ao campo do “feminino”, uma vez que se convencionou associá-las às características de sensibilidade, beleza e leveza. Cada uma das musas simboliza uma área das artes e do conhecimento [2] – elas são, portanto, a própria potência artística e intelectual.

As musas não são deusas imortais, são divindades “menores”, mais próximas da realidade. Os gregos enxergavam as mulheres mortais como homens incompletos. A virilidade – característica inteiramente associada à masculinidade – era construída nas relações entre os homens, sem nenhum tipo de participação das mulheres. O amor e a sexualidade diziam respeito aos homens, e o sentido de família e procriação, às mulheres. A feminilidade era uma virtude exaltada e, associada às manifestações artísticas, fundamentou parte do pensamento ocidental.

O “templo das musas” sempre exibiu obras com imagens femininas. Algumas de aparência passiva e impotente; outras representando autonomia e desafio. Contudo, cabe justamente analisar certas nuances da presença das mulheres nos museus. Algumas instituições brasileiras vêm travando esse diálogo, mesmo tendo de lidar com atos reacionários. O Museu de Arte Moderna de São Paulo (MASP), no ano de 2017, apresentou uma programação que abordava questões de sexualidade e gênero. Um dos eventos foi a retrospectiva de trabalhos das Guerrilla Girls – coletivo artístico norte-americano que chama a atenção para a ausência de mulheres nos museus e galerias de arte. As artistas realizam uma verificação estatística do percentual de nus femininos em contraposição à quantidade de obras de autoria de artistas mulheres. No caso do Masp, 60% dos nus do museu eram de mulheres, enquanto as obras de autoria feminina constituem 6% do acervo. Essa disparidade revela o lugar que a mulher ocupa nos museus. Não se trata de abolir a representação de corpos nus de mulheres nas artes – o que muitas vezes pode ser um exercício de ruptura com padrões estéticos dominantes e, no contexto da performance, reforçar sua presença –, mas de propor narrativas que destaquem a representatividade de outros papéis para as mulheres, como criadoras e produtoras de arte.

Nesse caminho, a Pinacoteca do Estado de São Paulo abrigou a exposição Mulheres radicais: Arte latino-americana 1960-1985, que apresentava trabalhos de 120 artistas, entre elas as brasileiras Lygia Clark e Lygia Pape. Iniciativas como essas realizam a reinterpretação de acervos segundo olhares que enfocam o feminino e retiram as mulheres da posição de coadjuvantes e da condição de subalternidade. Como afirma Eneida Queiroz (2018, p. 177), por mais que os homens não estejam representados nas obras que eles produzem, “o que esta ausência-presente significa é sua fala, sua opinião e sua posição de domínio: o homem não está em corpo, está em tudo”. Na mesma linha, Márcia Tiburi (2017) considera que tudo o que sabemos sobre as mulheres primeiramente foi contado pelos homens. O direito de ter voz e falar por si mesmas foi conquistado a duras penas. O feminismo é autor e se vai construindo concomitantemente nessas conquistas.

Ainda que suas coleções não representem equivalência de gênero em relação à autoria das obras, os museus podem aproximar acervos de outras instituições e voltar seus olhares para o subterrâneo de suas reservas técnicas e arquivos, em busca dessa produção da diversidade feminina. Ao longo da história da arte, não faltam exemplos de obras que, em virtude de sua posição de vanguarda e do consequente rompimento com a linguagem vigente, foram postas em condição de esquecimento, sendo apenas mais tarde reconhecidas por seu potencial criador. Analogamente, obras que contemplem o gênero feminino em múltiplos aspectos também podem se tornar emancipadoras de realidades, caso alçadas a tal lugar.

Embora essas ações não sejam suficientes para uma conscientização plena, seus efeitos tendem a se propagar. E, se os museus se dispuserem a (re)criar tal diálogo, terão mulheres e musas não só a inspirá-los, mas, decididamente, a transformá-los para a diversidade.


[i] Professora Associada da Universidade Federal Fluminense. Professora do quadro permanente do Programa de Pós-graduação Stricto Sensu em Turismo (PPGTUR/UFF). Graduada em Museologia (UNIRIO), mestre em Memória Social pela Universidade Federal do Estado do Rio de Janeiro (PPMS/UNIRIO), doutora em Políticas Públicas e Formação Humana pela Universidade do Estado do Rio de Janeiro (PPFH/UERJ), com pós-doutorado no Programa de Pós-graduação em Antropologia da Universidade Federal Fluminense (PPGA/UFF). Coordenadorado Grupo de Pesquisa Turismo, Cultura e Sociedade (UFF/CNPq), do Núcleo de Estudos e Pesquisas sobre Turismo e Museus (EpisTemus) e do Laboratório de Pesquisa, Produção e Análise da Imagem (L’Image). E-mail: Este endereço de email está sendo protegido de spambots. Você precisa do JavaScript ativado para vê-lo. 

[ii] Professora de História da Arte que atua como instrutora no SESC-RJ.Graduada em Turismo pela Universidade Federal Fluminense (UFF), especialista em Arte e Cultura pelo Instituto Universitário de Pesquisas do Rio de Janeiro/Universidade Cândido Mendes (IUPERJ/UCAM),mestre em Memória Social pela Universidade Federal do Estado do Rio de Janeiro (UNIRIO). Mediadora pedagógica do Curso de Licenciatura em Turismo da UNIRIO – Fundação Cecierj/Consórcio CEDERJ. Pesquisadora do Grupo de Pesquisa Turismo, Cultura e Sociedade (UFF), do Núcleo de Estudos e Pesquisas sobre Turismo e Museus (EpisTemus) e do Laboratório de Pesquisa, Produção e Análise da Imagem (L’Image). E-mail: Este endereço de email está sendo protegido de spambots. Você precisa do JavaScript ativado para vê-lo.

[1] Queermuseu – cartografias da diferença na Arte Brasileira é uma exposição inicialmente apresentada pelo Santander Cultural em Porto Alegre, em 2017. Composta de 223 obras de 84 artistas, como Adriana Varejão, Volpi e Lygia Clark, a mostra foi encerrada após a criação de uma narrativa falseada pelo grupo Movimento Brasil Livre (MBL), que difundiu, em suas redes sociais, acusações moralizantes e de profundo desconhecimento quanto ao seu conteúdo. Em 2018, foi levada para o Parque Lage, onde ocorreram, juntamente com a exibição, inúmeras iniciativas com o intuito de debater a temática. Com La bête houve situação semelhante, orquestrada pelo mesmo grupo, que incitou seus seguidores contra a performance de Wagner Schwartz, em 2017, no Museu de Arte Moderna de São Paulo (MAM). O artista foi linchado nas redes sociais, acusado injustamente de pedofilia e obscenidade, bem como o Museu.

[2] Calíope (eloquência), Clio (história),Erato (poesia lírica e erótica), Euterpe (música),Melpômene (tragédia),Polímnia (poesia sagrada), Tália (comédia),Terpsícore (dança) e Urania (astronomia e astrologia).


Referências


 

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