18 Maio 2020 - Dia Internacional dos Museus

Marco Antonio Xavier [1] 

Olá para vocês que acharam esta mensagem. Estou escrevendo em maio de 2020, mas NÃO PRECISAM SE PREOCUPAR, porque ela e a garrafa foram esterilizadas. Espero também que tenham conseguido desenvolver a vacina para a Pandemia em tempo recorde, salvando o maior número possível de vidas e conseguido reconstruir a sociedade, de maneira mais justa e harmoniosa. Sobre isso tenho minhas dúvidas, mas sempre penso de forma a não perder a esperança e a ternura, jamais ... neste ponto, espero que não queime esta carta, por me achar um comunista e se o ódio e o individualismo prevaleceram peço somente que recoloque a mensagem de novo na garrafa e a tampe, devolvendo onde a achou ... mas se estiver curioso, leia até o fim.

Todos os meses de Maio comemoramos (comemorávamos) o Dia Internacional dos Museus e eu trabalho (trabalhava?)em um museu casa... museus ainda devem existir, não importa quanto tempo tenha passado, porque eles são fundamentais para a preservação de nossas culturas materiais e imateriais, de nossas memórias (parcialmente) e possuem uma função identitária para vários grupos sociais. Talvez não tenham mantido as noções e formas que tem “agora” e sejam, no momento que lê estas garatujas, totalmente virtuais (imagino o arrepio de alguns museólogos, conservadores e restauradores de meu tempo) e mesmo boa parte da realidade de vocês seja virtual, de tal forma que se confundem e interajam de uma maneira que nos era difícil imaginar.

Em 2020, o tema escolhido para esta comemoração foi “Museus para a Igualdade: Diversidade e Inclusão”, onde seriam discutidas as dificuldades e, especialmente, as possibilidades de alcançarmos estes marcos civilizatórios, permitindo o acesso do que chamávamos Patrimônio (aquilo que recebemos e/ou herdamos de nossos “pais” ou antecessores) para todos, em qualquer tempo e em qualquer lugar, preservando características de nossas culturas e pensamentos... não todas, é verdade. Dirão vocês: ora, seria algo como um banco de dados! - mas era muito mais que isso, porque não podíamos musealizar tudo e tínhamos que escolher o que manteríamos para o futuro... para vocês. Agora penso como estávamos nos enganando.

Dizer que museus falam do passado, do que deixou de ser usado, do que ficou como ícone de uma época ou lugar, de objetos pictóricos e tridimensionais, de outros que denotavam, simbolicamente, como eram estas sociedades, seus costumes, confluências divergências, suas ideias e ideais, era uma espécie de senso comum... mas, vou confessar a vocês: os museus, para mim, retratavam muito mais a realidade de suas épocas, de quando foram estabelecidos, fundados, nomeados e não do Passado ou, melhor dizendo, mostravam UM PASSADO na maioria das vezes. Lembram quando falei em seleção, algumas linhas acima? Pois bem, escolhíamos um determinado tempo ou parte da sociedade que julgávamos ter valor em preservar. Estávamos formando nossa identidade naqueles momentos, emprestando parte dos legados de gerações anteriores; sendo assim, o lugar dos museus era sempre o tempo Presente.

Mas foi com a quarentena, que já dura meses, que passei a refletir melhor sobre isso.

Vejamos as palavras igualdade, diversidade e inclusão.

Esta última ainda é debatida, nos museus e na sociedade, passadas duas décadas do século XXI e pouco avançamos realmente além de estabelecer marcos legais e programas especiais para estas pessoas que “invisibilizamos” como se fossem fantasmas e não seres humanos, pensantes, sensíveis e produtivos a sua maneira; não fomos nós que as incluímos, mas elas que nos mostraram que não eram diferentes, nos ensinando novas maneiras de ouvir, ver, pensar e se expressar.

Igualdade é um ideal que nossa sociedade de consumo e mercado é essencialmente o oposto. Todos queríamos ser melhores, mais afortunados, mais conhecidos... mais, mais, mais... sem nos importarmos de onde viriam os “menos” da equação que tinha o resultado após o símbolo de igual (=).

E a uniformização de nossas atitudes, achatando o que é diferente, diverso, o “outro”? Com a dita “cultura de massa” (um termo velho que se faz sempre novo) vai mandando para as reservas técnicas e exposições dos nossos (atuais) museus coisas que deveriam continuar fazendo parte de nossas vidas.

O custo disso tudo era uma senha – progresso. Mas como ir em frente, evoluir, progredir sem que todos participem?

Progresso era uma falácia, um gênio da lâmpada que nos prendeu a tão poucos desejos: lucro, poder, individualismo.

Durante a Pandemia, embora vírus (e bactérias oportunistas) não tenham gostos, opiniões e ideologias, atacando igualmente cada organismo que infectam, a nossa sociedade desigual fez com que os menos “favorecidos” (embora lhes devêssemos tantos favores), os produtores reais da riqueza e dos lucros (vocês ainda devem ter estes “valores” na sua sociedade, infelizmente), os pobres, os necessitados e os mais fracos (para os quais muitas pessoas, que se auto denominavam “de bem”, diziam que o Estado gastava muito dinheiro com estes “inferiores”) fossem os mais afetados, se tornando números imensos em curvas mortais, sobretudo nos países em (eterno) desenvolvimento.

Procuramos salvação nos destroços do naufrágio... as redes sociais que nos afastavam do contato físico, do cumprimento, dos beijos e abraços reais, passaram a ser a nossa forma de escapar do “distanciamento” sociale isolamento; do excesso de informações que a comunicação instantânea nos afogava a todo momento tínhamos que filtrar o que era realmente válido - fruto de pesquisa e escrutínio - das nefastas fakenews.

Seria uma pena se vocês, ao fim da Pandemia, não tiverem revisto o que é realmente a cultura de cada povo, os valores de igualdade e justiça. Espero que ao fim disso tudo, um movimento tenha procurado reestabelecer prioridades, conduzindo discussões sem fanatismo.Porque no tempo que você leu esta mensagem, 02 pessoas “vieram a óbito” (só no Brasil) por um vírus que tratava todos com a mesma “igualdade”.

Queríamos Cultura, queríamos Saúde, queríamos Educação...

Se toda esta luta, estas discussões, estas mudanças de paradigmas foram retratadas em um museu no (seu) Futuro, para alguma coisa terá servido este holocausto, embora ache que nada vale sem a vida. Portanto, museus devem comemorar a vida, do Passado no Presente e aí, em seu Futuro, seja ele como for.

(mensagem achada numa garrafa de vidro, escrita manuscrita, tinta sobre papel, cerca de 12 de maio de 2020, autor desconhecido, apelidado de “O Náufrago”)


[1] Mestre em História Social/USP. Pesquisador do Museu Casa da Hera/Ibram.


Entre em contato conosco!

Envie seus comentários, críticas e elogios sobre esse artigo para o email Este endereço de email está sendo protegido de spambots. Você precisa do JavaScript ativado para vê-lo. .

Agenda

Seg Ter Qua Qui Sex Sáb Dom
1
2
3
4
5
6
7
8
9
10
11
12
13
14
15
16
17
18
19
20
21
22
23
24
25
26
27
28
29
30
31