18 Maio 2020 - Dia Internacional dos Museus

Manuelina Maria Duarte Cândido [1] 

Os museus contemporâneos então cada vez mais conscientes dos desafios da inclusão e da diversidade. Entretanto, é necessário também admitir que como instituições que selecionam e trabalham com recortes e representações (construídas) da realidade, não se pode ter pretensão da totalidade ou da unanimidade. É um desafio, portanto, pensar inclusão em um contexto que é inteiramente permeado pela consciência da incompletude, da seleção e da exclusão, como o universo dos museus. Que igualdade é possível? A respeito da tensão entre memória e esquecimento, Le Goff escreve:

“Tornar-se senhores da memória e do esquecimento é uma das grandes preocupações das classes, dos grupos, dos indivíduos que dominaram e dominam as sociedades históricas. Os esquecimentos e os silêncios da história são reveladores desses mecanismos de manipulação da memória coletiva” (Le Goff, 1984, p. 46)

E ainda:

“A memória é um elemento essencial do que se costuma chamar de identidade, individual ou colectiva, cuja busca é uma das atividades fundamentais dos indivíduos e das sociedades de hoje, na febre e na angústia. Mas a memória colectiva não é somente uma conquista, é também um instrumento e um objectivo do poder.” (Le Goff, 1984, p. 46)

Portanto, mesmo integrando novos sujeitos à ação museal, incluindo outros atores sociais, ampliando o espectro da comunidade na qual o museu se referencia, não há como considerá-lo universal ou território de iguais. As comunidades, na verdade, são diversas, e o museu não lida como uma, mas com várias memórias e identidades, muitas vezes em conflito. O respeito à diversidade não significa também supor que as diversas identidades selecionadas, somadas, representam a totalidade. Os museus são fragmentos, pistas a partir das quais os indivíduos são provocados a pensarem e construírem suas próprias intepretações do mundo que os rodeia.

Há não muitos anos, falar em inclusão remetia quase que exclusivamente à acessibilidade, a adaptações arquitetônicas e expográficas para pessoas com necessidades especiais. Felizmente esta visão tem sido ampliada. Uma das primeiras autoras a discutirem a questão no Brasil foi Gabriela Aidar, que problematizou também a ideia de que inclusão fosse somente audience development (desenvolvimento de públicos), que seria trazer para o museu os públicos que tradicionalmente não o visitam (Aidar, 2002, p. 59), o que hoje chamamos de não público. Para a autora, o sentido da inclusão deveria considerar “para além de uma maior acessibilidade às instituições museais, o desenvolvimento de ações culturais que tenham impacto político, social e econômicos, e que tenham alcance tanto a curto quanto a longo prazo” (Aidar, 2002, p. 60)

Uma outra abordagem é pensar em excluídos da “alfabetização cultural” entendida como

“uma pedagogia que propõe a descolonização da memória e do imaginário do ser humano através de diálogo cultural com outros, por meio de processos de sensibilização, autoleitura, autoconscientização e transformação coletiva. (...) um modo de vida que descoloniza a inconsciência política e a memória corporal para intervir na reprodução do passado; uma pedagogia que cultiva a sensibilidade intercultural e a consciência performativa necessárias à formação de novas comunidades solidárias e cooperativas, e novas políticas democráticas de libertação” (Baron, 2004, p. 419)

Neste sentido, muitos mais são excluídos e não alfabetizados, pois não aprenderam a escrever suas vidas como autores e testemunhas da história, isto é, a biografarem-se, existenciarem-se e historicizarem-se (Fiori in Freire, 2005, p. 08). Não por acaso, “a educação como prática da liberdade”, de Paulo Freire, originou-se como método de alfabetização (Freire, 2005, p. 18). Dito isto, proponho pensar inclusão em um dos sentidos da alfabetização cultural: educação sensível para a compreensão do mundo por intermédio da relação tudo aquilo que chamamos de patrimônio (material, imaterial, natural, humano), provocando reflexões sobre as questões sociais, desafios e potencialidades, a partir do protagonismo e da agência dos diversos atores sociais: “De facto, cada pessoa, independentemente do seu estatuto social, possui um património que lhe é próprio e é, ao mesmo tempo, co-proprietário moral do património da comunidade a que pertence. (Varine, 2017, p. 42). Varine afirma ainda: “É, com efeito, apenas através do domínio da sua própria cultura que uma população pode pretender tornar-se parceiro ativo e responsável do seu presente e do seu futuro.” (Varine, 2017, p. 40).

Assim, os museus podem ser instrumentos do empoderamento (empowerment), da mesma forma que podem reforçar os mecanismos de exclusão já existentes na estrutura da sociedade. Entendendo que a memória envolve poder e disputas, estas instituições devem compreender seu papel de plataformas que impulsionam olhares interpretativos sobre facetas até então discriminadas e podem promover o protagonismo dos atores sociais excluídos. Trata-se, portanto, não de facilitar um acesso à memória construída e comunicada por outros, mas ao poder de escolha e à co-participação na gestão do patrimônio musealizado. Neste sentido, a Museologia nos últimos anos tem sido bastante pródiga, com uma multiplicidade enorme de experiências e produção no que tange a inventários e outras metodologias participativas (Querol, 2011; Siqueira, 2014) e colaborativas (Ruoso, 2016; Lima Filho, Abreu e Athias, 2016), Museologia Social e Sociomuseologia (Moutinho, 2007; Chagas e Gouveia, 2014), etc.

A produção é realmente extensa e é impossível fazer aqui uma referência exaustiva às publicações relativas a estes temas, pelo que de antemão me desculpo com relação às ausências, mas deixo o convite a um mergulho nesta rica produção recente do campo da Museologia que pode contribuir para a igualdade. Aos museus, o chamado é para não somente atuarem na inclusão como assumirem e evidenciarem os mecanismos de exclusão inerentes à ação museológica, para que toda a sociedade (e não somente os experts) sejam capazes de lançar olhares críticos e a contrapelo.


[1] Université de Liège e PPGAS/FCS/UFG.


Bibliografia

  • AIDAR, Gabriela. “Museus e Inclusão Social” In: Ciências & Letras – Revista da Faculdade Porto-Alegrense de Educação, Ciências e Letras, no 31, 2002. p. 53-62.
  • BARON, Dan. Alfabetização Cultural: a luta íntima por uma nova humanidade. São Paulo: Alfarrábio, 2004.
  • BRUNO, Maria Cristina Oliveira. Tensões e problemas: os caminhos percorridos pela disciplina aplicada Museologia. In: José Neves Bittencourt; Sarah Fassa Benchetrit; Vera Lúcia Bottrel Tostes. (Org.). História representada: o dilema dos museus. 1 ed. Rio de Janeiro: Museu Histórico Nacional, 2003. p. 219-228
  • BRUNO, Maria Cristina Oliveira. Museologia e comunicação. Lisboa: Universidade Lusófona de Humanidades e Tecnologias, 1996. (Cadernos de Sociomuseologia, nº 9).
  • CHAGAS, Mário; GOUVEIA, Inês. Cadernos do Ceom - Museologia Social, n. 41, v. 27. Chapecó: Unichapecó, 2014.
  • CHAGAS, Mário. Campo em metamorfose ou ainda bem que os museus são incompletos. In: José Neves Bittencourt; Sarah Fassa Benchetrit; Vera Lúcia Bottrel Tostes. (Org.). História representada: o dilema dos Museus (Livro do Seminário Internacional). 1 ed. Rio de Janeiro: Livros do Museu Histórico Nacional, 2003. p. 239-250.
  • DEPARTAMENTO do Patrimônio Histórico. O direito à memória: patrimônio histórico e cidadania. São Paulo: Departamento do Patrimônio Histórico, 1992.
  • DUARTE CÂNDIDO. Ondas do Pensamento Museológico Brasileiro. Lisboa: ULHT, 2003. (Cadernos de Sociomuseologia, 20). 259 p.
  • FIORI, Ernani Maria. Aprender a dizer a sua palavra (prefácio) in: FREIRE, Paulo. Pedagogia do oprimido. Rio de Janeiro: Paz e Terra, 2005.
  • FREIRE, Paulo. Pedagogia da esperança: um reencontro com a pedagogia do oprimido. Rio de Janeiro: Paz e Terra, 1992.
  • JEUDY, Henri-Pierre. Memórias do Social. Rio de Janeiro: Forense Universitária, 1990.
  • LE GOFF, Jacques. Memória. In: ROMANO, Ruggiero (Dir.). Enciclopédia Einaudi. Lisboa: Imprensa Nacional; Casa da Moeda, v. 1, 1984. p. 11-50.
  • LIMA Filho, Manuel; ABREU, Regina; ATHIAS, Renato (orgs.). Museus e atores sociais. perspectivas antropológicas. Recife: Editora UFPE, 2016.
  • MOUTINHO, Mário Canova. “Evolving definition of Sociomuseology: proposal for reflection”. In: Actas do XII Atelier Internacional do MINOM. Lisboa, ULHT, 2007. p. 39-44. (Cadernos de Sociomuseologia, 28)
  • MUSEOLOGIA Social. Porto Alegre: EU/ Sec. Municipal da Cultura, 2000.
  • NORA, Pierre. “Entre Memória e História: a problemática dos lugares”, In: Projeto História. São Paulo: PUC, n. 10, pp. 07-28, dezembro de 1993.
  • QUEROL, Lorena Sancho. El Patrimonio Cultural Inmaterial y la Sociomuseología: estudio sobre inventarios. Lisboa: Universidade Lusófona de Humanidades e Tecnologias, 2011. (Tese de doutorado em Museologia)
  • RUOSO, Carolina. Nid de frelons: neuf temps pour neuf atlas : histoire d'un musée d'art brésilien (1961-2011). Paris: Université Sorbonne – Paris, 2016. (Tese de doutorado em História da Arte)
  • SIQUEIRA, Juliana Maria. O signo da participação: museu e educação na perspectiva da Sociomuseologia. In: Revista de Arqueologia Pública, n.9, Julho de 2014. Campinas: LAP/NEPAM/UNICAMP p. 47-62.
  • VARINE, Hugues de. Patrimônio e educação popular. In: LEITE, Pedro Pereira. Museologia Social e Educação Popular Patrimonial. Lisboa: Marca D’Água, 2017. p. 38-46. (Informal Museology Studies, 16)


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