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18 Maio 2020 - Dia Internacional dos Museus

Luiz Henrique Assis Garcia [i] 

Uma vez atravessei uma cidade populosa imprimindo no meu cérebro, para uso futuro,
seus espetáculos, sua arquitetura, trajes e tradições.
Mas agora de tudo daquela cidade me recordo só de um homem
Que por ali vagabundeou comigo e que me amou.
Walt Whitman (tradução de Waly Salomão)

Não é casual que afinal, depois de tudo que o eu-lírico do poema viu, reste o homem como recordação. Claro, homem aí pode ser a imagem, a metonímia do “social”. No social se gestam e se modificam todas aquelas manifestações que a princípio ficaram impressas. Esse é o traço que as une. É esse encontro com as pessoas, sujeitos do conhecimento e da História enquanto devir, que dá sentido ao nosso fazer. Mas esse encontro, essa descoberta, não realizamos sozinhos. É também nesse enlace com o social que compartilhamos nossa passagem pela cidade populosa – ou por qualquer outro território, obviamente - com suas coisas e pessoas.

Gostaria de situar o ponto de partida destas linhas numa breve recapitulação de como minha trajetória como pesquisador da história cultural urbana veio a entrecruzar-se com os museus a partir de um vínculo profissional com uma instituição e depois como professor de um curso de graduação em museologia. Peço que não confundam o exame a que procedo com algum tipo de ego trip. Motiva-me o desafio de pensar as conexões entre o plano da trajetória individual, o da atuação institucional e da relação com as pessoas, nos espaços públicos em que fui levado a encontrá-las, como forma bastante concreta de promover uma reflexão sobre o ensino e a pesquisa sobre a função social dos museus.

Meu trabalho como pesquisador sempre tomou a cidade como o ponto de interseção entre os vários interesses que movem minha curiosidade e me engajam. Quando assumi a função de coordenador de pesquisa do Museu Histórico Abílio Barreto (MHAB), de Belo Horizonte, em 2002, foi natural aprofundar essa disposição. Remeto-me aqui a duas frentes de trabalho que se mostraram bem sucedidas na realização de tal propósito. A primeira é a que envolveu a lida com o público para compor o acervo de exposições realizadas nas dependências do museu. Tratar esse público como colaborador mais que mero informante reverbera em disposição para que se engaje mais na instituição e sinta-se parte do processo, podendo resultar ainda em incorporação de acervos e outras formas de participação (Garcia, 2010). A segunda reune os trabalhos no próprio tecido urbano que denominei intervenções museais, realizadas “lugares” que constituem referência para habitantes da cidade, após exaustivos “trabalhos de campo que visaram promover o envolvimento dos cidadãos na investigação dos registros materiais e simbólicos da história da cidade” (Garcia, 2009, p. 65). Nestes e noutros trabalhos venho reforçando minha convicção de que reconhecer o público como sujeito que atribui sentido é a premissa para interpelá-lo não como espectador, mas colaborador de instituições museais e seus projetos.

Atualmente (maio de 2019) vemos falas que partem do governo brasileiro questionando a filosofia, a sociologia, e por tabela toda a área das Humanidades. São perguntas rasteiras, que muitas vezes foram sumariamente respondidas com desdém. Mas neste momento, mais ainda que antes, entendemos que como pesquisadores falando em praça pública, para a sociedade que conta conosco e nos contrata (quero ir além da relação pecuniária aqui), não basta garantirmos com nossa autoridade que somos relevantes. Temos que responder, sem temor, por quê. Demonstrar que somos úteis. Como professores, estudantes, pesquisadores, trabalhadores. Nada imbecis, ao contrário. Somos inteligentes e preparados para fazer o nosso trabalho, “a serviço do público”. Por isso decidi tratar neste artigo do trabalho realizado dentro de uma disciplina do bacharelado em museologia da UFMG, que se chama Função Social dos Museus, e que venho lecionando para estudantes do 5º período (de um total de 8 semestres) do curso desde 2011 [2].

Os museus são hoje importante ferramenta de intervenção social quando incorporam a noção de que o seu público é constituído de sujeitos ativos capazes de transformar a realidade, nesse sentido habilitado a participar inclusive da construção institucional e da ampla gama de processos que a mesma enseja. Construímos na disciplina um espaço para reflexão e experimentação bastante atento ao tema. Alternando entre seminários e atividades experimentais de extensão, juntamente a museus da cidade, os estudantes exercitam em campo seu aprendizado teórico, reelaborando-o na prática junto dos profissionais das instituições e do público. Nosso objetivo central é permitir que vivenciem as dificuldades e estímulos concretos que emergem do desafio de promover a participação num contexto muitas vezes carente de cultura democrática e iniciativas institucionalizadas de engajamento. Pretendo apresentar uma suma dos trabalhos finais apresentados pelos estudantes, muitos deles disponibilizados através do blog Metamuseu, editado por mim, e uma revisão crítica das atividades desenvolvidas na disciplina [3].

Principio por fazer um apanhado geral da bibliografia e das discussões chave que fazemos em sala. Nas primeiras aulas, considerando que já é o 5º período e que a disciplina tem carga horária de 30hs/aula cumprida em 8 encontros, procuro traçar um quadro introdutório, destacando aí os principais conceitos e a trajetória histórica dos debates atinentes ao tema da função social no campo da museologia. É muito relevante que se possa acompanhar a mudança no campo museológico através de um movimento “pendular” entre as reflexões e práticas dos profissionais atuando nos espaços, em diferentes cenários nacionais – institucionais ou não - e os debates dos quais emergem documentos fulcrais cujo objetivo é sintetizar e referenciar a adoção destas novas perspectivas no campo de atuação. Após duas aulas realizamos um primeiro seminário, cujo objetivo é discutir a conexão entre as novas teorias e contextos de sua aplicação, através de estudos de caso, relatos de experiência ou análises críticas mais abrangentes, muitas vezes buscando pontes interessantes, com os estudos de público, a sociologia da cultura, as políticas públicas de cultura, questões relativas a entorno. Adiante, quase ao final do curso, mas antes de relatórios e apresentação de trabalhos, temos um segundo seminário. Aí já costumo propor leituras densas e provocativas, de autores consagrados. São aquelas leituras de choque mesmo, pra tirar o limo, as ideias preconcebidas. Obras como Memórias do social, de Henri Pierre Jeudy (1990), ou o relato do Antonio Arantes (1984) sobre a Revitalização da capela de São Miguel Paulista, um texto dos anos 1980 que segue atualíssimo, uma aula de metodologia de campo, de como desenhar uma política cultural com participação protagonista do público.

Nessas primeiras aulas também deve emergir o tema do trabalho final em grupos menores, que consiste em planejar, executar, apresentar e refletir sobre os resultados de uma ação de intervenção que afete um determinado público e contemple em seus princípios a discussão sobre a função social do museu. Ressalto aqui que é sempre enfatizado que as propostas são de natureza experimental, interessando mais o processo que propriamente o resultado final, inclusive quando realizo a avaliação. Também não há qualquer exigência de que as instituições envolvidas adotem como suas as atividades propostas no âmbito da disciplina. Claro que quando isso ocorre, ainda que pouco, tomo como sinal positivo da validade da abordagem didática e da contribuição da disciplina. Com os anos, os trabalhos finais apresentados pelos discentes trouxeram um espectro variado de ações, em diferentes cenários, institucionalizados ou não, que envolvem intervenções com exposições efêmeras, estudos de entorno, prospecção e identificação de possíveis doadores de acervo, cortejos no espaço público, atividades educativas e de mediação, algumas delas articuladas com conteúdo e interações realizadas através das redes sociais digitais. Gosto muito dessa mescla de metodologias e alternância entre ações nos espaços institucionais, nos entornos deles ou mesmo em lugares distintos que de alguma forma são identificados a uma temática museal e patrimonial, como praças de grande atratividade de público ou outros pontos urbanos que possam ser considerados lugares de memória.

Entendo que os trabalhos representam uma pequena, mas intensa, jornada na caminhada formativa dos estudantes, e que a disciplina lhes apresenta satisfatoriamente uma miríade de questões e algumas práticas metodologicamente embasadas para compreender como pode se efetivar a função social de um museu. Constato, nas avaliações, diferentes graus de aprofundamento das questões colocadas durante as aulas e seminários. Um ponto mais difícil de alcançar, porque depende de uma noção mais sofisticada e menos hierarquizada de participação, é compreender que a permeabilidade do museu a seu entorno e público não deve se limitar a elevar estatísticas de acesso, mas permitir que o próprio museu seja modificado ativamente por essas presenças atuantes. Muitas vezes vejo que fica ainda uma ideia arraigada de confundir participação com acesso, democratização com acesso. Acesso é pouco, e há várias formas, até mesmo de participação, com reuniões, com diálogo, mas que são formas muito tuteladas, formas que não reconhecem o público como sujeito integrante, que de fato está enlaçado na política de patrimônio, no cotidiano da instituição. Ao final, o que mais desejo que os estudantes assimilem na conclusão da disciplina que a função social dos museus é eminentemente transformadora e promotora da democracia e da igualdade.


[i] Professor. ECI/UFMG.

[1] O presente texto é versão ampliada de comunicação apresentada em mesa redonda que integrou o Colóquio Internacional Patrimônio em Foco: Metodologias participativas: dimensão social dos museus e do patrimônio cultural, coorganizado pela UFMG e a ULHT e realizado em Belo Horizonte nos dias 16 e 17 de maio de 2019. Agradeço especialmente às colegas de comitê científico e de organização Carolina Ruoso e Judite Primo o convite para integrá-los e a autorização para publicar esta prévia de um artigo maior que já está pronto e aguardando a publicação no Dossiê próprio que estamos a organizar para a Revista Cadernos de Sociomuseologia da Universidade Lusófona de Humanidades e Tecnologias.

[2] Como o curso se encontra em processo de revisão do Projeto Pedagógico, o programa completo da disciplina deverá ser disponibilizado no segundo semestre, no site http://colgradmuseo.eci.ufmg.br/

[3] Acesso pelo link: http://metamuseuufmg.blogspot.com/search/label/Fun%C3%A7%C3%A3o%20social%20dos%20museus


Bibliografia citada

  • Arantes, Antonio Augusto. Revitalização da capela de São Miguel Paulista. In: Produzindo o passado: estratégias de construção do patrimônio cultural (pp. 149-174). São Paulo: Brasiliense/CONDEPHAAT, 1984.
  • Garcia, Luiz Henrique A. O lugar da História: intervenções museais no espaço urbano em Belo Horizonte. In: Anais da VII Semana dos Museus USP, São Paulo, 2009, p.62-70.
  • Garcia, Luiz Henrique A. Possibilidades abertas: relações entre pesquisa e acervo em uma exposição de museu histórico. Cadernos de Pesquisa do CDHIS (Online), v.23, 2010, p.21 - 37.
  • Jeudy, Henri Pierre. Memórias do social. Rio de Janeiro: Forense-Universitaria, 1990.

 

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