18 Maio 2020 - Dia Internacional dos Museus

Viviane Panelli Sarraf [i] 

Começo esse texto compartilhando a alegria e uma certa surpresa de receber a notícia de que pela primeira vez o tema do Dia Internacional de Museus divulgado pelo ICOM em 2020 é relacionado a Diversidade e a Inclusão. Alegria pois esse é o foco dos meus estudos, pesquisa e atuação desde o início de minha trajetória na museologia iniciada há aproximadamente 20 anos atrás e surpresa pois tive que esperar todo esse tempo para que o conselho considerasse a relevância dessa temática.

Assim como eu, vários outros profissionais, professores e pesquisadores mundo afora, em diferentes momentos, se dedicaram e se dedicam a Acessibilidade em Museus, que pode ser considerada como uma sub-área da Museologia pela qualidade e quantidade de estudos realizados até o presente momento.

O tema do Dia Internacional de Museus de 2020 é “Museus para a Igualdade: Diversidade e Inclusão”. Afirmamos que se trata de um grande desafio, pois a maior parte das instituições museológicas, seja no Brasil ou em qualquer parte do mundo, não prioriza em sua agenda realizar mudanças efetivas para que sua atuação seja pautada na inclusão de novos públicos e representações.

A reflexão suscitada pelo órgão afirma que os museus devem ter como objetivo se tornar um ponto de encontro para celebrar a diversidade de perspectivas que compõem as comunidades e o seu pessoal, e promover ferramentas para identificar e superar preconceitos no que é exposto e nas histórias que contam. [1]

Podemos afirmar que essa é uma demanda inerente ao cumprimento da função social e educativa dos museus e a atuação dos profissionais de museus como trabalhadores sociais [2] e ainda, que a participação de representantes dos novos públicos em projetos museológicos e curatoriais participativos tem como resultado a transformação das instituições em espaços mais acessíveis para todos os visitantes.

Entretanto é necessário alertar que esse não é um assunto recente. O desenvolvimento da noção de igualdade por meio do acolhimento da diversidade de identidades no discurso museológico e da inclusão de novas representações e públicos são desafios de longa data nos museus.

A partir do final do século XX e início do século XXI museus em diferentes países começaram a desenvolver projetos e programas visando à inclusão social de pessoas com deficiência e novos públicos, com base nos conceitos disseminados pelos movimentos sociais militantes que defendem os direitos dessas populações.

As ações de equiparação de oportunidades para essa população nas esferas da educação, trabalho, saúde, esporte, habitação, mobilidade urbana, cultura, turismo e lazer começaram a ocorrer de fato a partir da 2a metade do século XX. Em 1979, a ONU criou o “Ano Internacional da Criança”, fomentando ações em benefício da garantia dos direitos das crianças em todos os países participantes e em 1981 criou o “Ano Internacional do Deficiente” [3] (sic), que corroborou com a união e reivindicação de representantes dessa população de diversos países, transpondo dificuldades de comunicação e fronteiras com ações afirmativas e eventos para garantia de direitos. Esse marco foi extremamente importante para o desenvolvimento do Movimento pelos Direitos das Pessoas com Deficiência no Brasil, que tem como principais lideranças pessoas com deficiência que tiveram acesso a educação e oportunidades de desenvolvimento pessoal e profissional e que tem papel fundamental nas conquistas do direito a acessibilidade, inclusive no acesso aos museus e ao patrimônio e na afirmação de suas identidades e representatividade nesse universo.

A partir da década de 1980, museus de países norte-americanos e europeus passaram a desenvolver programas de ação cultural e educativa de grande qualidade e com aderência de diversas populações: escolas, universidades, famílias, turistas, imigrantes e jovens, entretanto, a parcela da população representada por pessoas com deficiência, idosos e minorias étnicas ainda era considerada “publico especial”, isto é, não fazia parte do público regular.Waldisa Rússio [4] (1935-1990), durante esse período percebia esses mecanismos de exclusão e se posicionava criticamente em relação ao mesmo afirmando que:

Aquilo que a museologia do Hemisfério Norte designa por “públicos especiais” (e, portanto, residuais) de museu constitui na maioria dos países latino-americanos o seu grande público, efetivo ou latente: crianças, analfabetos, deficientes, grupos “marginalizados” ou “socialmente controlados”, “culturalmente diferenciados” etc. Basta examinar as pirâmides demográficas, as estatísticas de efetiva alfabetização, os quadros de frequência as bibliotecas públicas, os dados sobre deficientes etc. Basta olhar para as ruas de nossas metrópoles, onde milhares de crianças (o futuro na nação?) esmolam, agridem e se agridem, assaltam, se prostituem... (Guarnieri, 1989 apud Bruno, 2010b, p. 191)

As pessoas com deficiência, neurodiversidade, dificuldades de aprendizagem, crianças pequenas e idosos necessitam de recursos que proponham percepções por meio dos sentidos que não se limitem à visão e audição; adequações espaciais que proporcionem acesso aos indivíduos que se locomovem de maneiras diferentes e com equipamentos de mobilidade; estratégias de comunicação alternativas que privilegiem diversos níveis de cognição e outros aspectos que respeitem as diferentes disposições dos indivíduos que formam nossa sociedade diversa.

Os museus que consideram essas disposições inclusivas e acessíveis garantem benefícios não apenas aos novos públicos. Com uma linguagem ergonômica e inovadora promovem experiências de melhor qualidade a todos os visitantes que desejam acessar o patrimônio cultural com suas diferentes habilidades e inteligências, independente de suas condições físicas, sensoriais ou culturais.

Mas, é necessário considerar que além da experiência da fruição do patrimônio cultural, os novos públicos tem o direito ao pertencimento e a identidade, fazendo parte das representações sociais inerentes as temáticas dos museus, independente de sua tipologia.

Silvana Gimenes [5], educadora do Museu da Diversidade Sexual de São Paulo e pessoa com paralisia cerebral, levanta uma reflexão bastante pertinente a essa afirmação:

A gente trabalha nestes anos todos para ter videoguia, rampa, legenda, audiodescrição, legenda em braille, espaço para o cadeirante se locomover, e ele não vem. E meu público não chega. Por que o museu está no imaginário, num espaço privilegiado para quem conhece o belo, para quem conhece a história, para poucos que sabem o valor que tem ali, porque o museu é o lugar aonde eu faço a guarda, onde eu preservo, onde a cultura fica numa caixinha de Pandora que ninguém pode acessar. Então o museu tem que se abrir... E como eu atraio essas pessoas? Como a comunidade surda se vê nas obras? Eu tenho que fazer uma releitura para que tenha um ponto de conexão, seja com a comunidade surda, seja com a pessoa autista, com o cadeirante, com o gay, com a mulher transexual, com a lésbica, com o negro, porque somos isso, somos diversos e a cultura tem que ter esse ponto de conexão conosco. A gente tem hoje várias ações dos museus para atrair o público, mas esse público não se sente parte da obra exposta, parte daquele contexto....Quando as pessoas se veem ali, quando o museu está acessível nesse aspecto, de acolher, de estar lá - “entra, a porta está aberta” - aí sim a gente vai ter acessibilidade. Hoje nós temos ajudas técnicas acessíveis as pessoas, mas acho que não tem acessibilidade ainda. (GIMENES, 2019)

Gimenes, apresenta em sua fala, uma lúcida reflexão sobre a necessária descolonização dos museus nas dimensões da preservação e da difusão de seu patrimônio, tema atual e urgente, considerando que as pessoas com deficiência não estão representadas nos acervos das instituições e nas temáticas das exposições.

Corroborando com a discussão sobre a descolonização dos museus, Françoise Choay em seu texto “A alegoria do patrimônio” compara o culto ao patrimônio colonizador com o mito de Narciso.

A mitologia nos ensinou que Narciso morreu por não poder separar-se nem esquecer-se de si por um momento. E então aprendemos que o narcisismo é um estágio necessário, mas passageiro, do desenvolvimento humano e que voltar a ele só poderia, afinal, abrir caminho para a neurose ou a loucura. Nessas circunstâncias, embora a figura que contemplamos no espelho do patrimônio histórico seja o reflexo de objetos reais, nem por isso é menos ilusória. A forma indiscriminada com que foram reunidos eliminou todas as diferenças, heterogeneidades e fraturas. Ela nos tranquiliza e exerce sua função protetora graças, precisamente, a redução e a supressão fictícia dos conflitos e das questões que não ousamos enfrentar: instrumentos de defesa eficaz numa situação de crise e de angústia, mas instrumento transitório. Na sua função narcisista, o culto ao patrimônio só é justificável por um tempo: o tempo de interromper simbolicamente o curso da história, tempo de tomar fôlego na atualidade, tempo de confrontar essa identidade antropológica a fim de poder continuar sua construção, tempo de reassumir um destino e uma reflexão. Passado esse prazo, o espelho do patrimônio estaria nos precipitando na falsa consciência, na recusa do real e na repetição. (CHOAY, 2017 p.248)

Assim, nesse pequeno texto, deixo em aberto algumas provocações para que cada um reflita dentro de suas práticas e pesquisas de que forma estão contribuindo para que os museus sejam ambientes de afirmação da igualdade, de celebração da diversidade e de inclusão daqueles que estão excluídos pelas barreiras impostas por essas instituições.

Concluo esse texto parafraseando os títulos de dois famosos livros de Lewis Carrol: para que os museus sejam de fato espaços de promoção da igualdade, é necessário que, como a personagem Alice não fiquem estagnados em um “país das maravilhas” e olhem com atenção e envolvimento “através do espelho” para perceber a diversidade de seu público e de sua comunidade e assim desenvolver ações para sua inclusão nos processos historiográficos e nas diversas atividades criativas, humanas, científicas e sociais.


[i] Instituto de Estudos Brasileiros da USP e Museus Acessíveis. Pesquisadora Colaboradora (Pesquisadora Responsável e Principal do Auxílio Jovem Pesquisador FAPESP) no IEB-USP/, Pós Doutora em Museologia pelo PPGMus-USP, Doutora em Comunicação e Semiótica pela PUC-SP, Mestre em Ciência da Informação pela ECA-USP, Especialista em Museologia pelo CEMMAE-USP. É coordenadora do GEPAM – Grupo de Estudo e Pesquisa de Acessibilidade em Museus, Fundadora e Consultora da Empresa Social Museus Acessíveis, Professora Colaboradora e Orientadora do Programa de Pós Graduação Multidisciplinar em Culturas e Identidades Brasileiras do IEB-USP, do MBA em Gestão de Museus da Universidade Cândido Mendes e Membro do Conselho Deliberativo do Parque Cientec-USP. Foi professora convidada do PPGMus-USP, do Curso de Especialização em Acessibilidade Cultural da UFRJ, criadora e curadora do Centro de Memória Dorina Nowill da Fundação Dorina Nowill para Cegos.

[1] Trecho da postagem do tema do Dia Internacional de Museus de 2020 do ICOM traduzido e adaptado pela autora.

[2] Conceito criado e disseminado pela museóloga brasileira WaldisaRússio em sua produção teórica e empírica e em suas atividades de docência que foi responsável pela formação de muitos profissionais de museus que atuam no Brasil.

[3] Terminologiautilizada no Brasilnadécada de 1980, o termoultizadoatualmente é “Pessoa com Deficiência”

[4] Museólogabrasileirapioneira no desenvolvimento de projetosmuseológicosinclusivos e acessíveisparapessoas com deficiência, foi a responsávelpelacriação do projeto do Museu da Indústria de São Paulo e criadora do projeto inaugural da EstaçãoCiência, ambos dedicados a inclusão social de pessoas com deficiência, crianças, jovens, pessoasanalfabetas, operários das indústrias, pessoasemsituação de rua e extremaprobreza.

[5] Fala de Silvana Gimenes no vídeo “Como debater acessibilidade e inclusão em espaços culturais?”do 6o Congresso Internacional Educação e Acessibilidade em Museus e Patrimônio, realizado em São Paulo em 2019.


Referências

  • BRUNO, Maria Cristina Oliveira (org.). Waldisa Rússio Camargo Guarnieri: textos e contextos de uma trajetória profissional. São Paulo: Pinacoteca do Estado / Secretaria de Estado da Cultura / Comitê Brasileiro do Conselho Internacional de Museus, 2010.
  • 6o CONGRESSO INTERNACIONAL DE EDUCAÇÃO E ACESSIBILIDADE EM MUSEUS E PATRIMÔNIO. “Como debater acessibilidade e inclusão em espaços culturais?. Vídeo de entrevista com Silvana Gimenes, Leonardo Castilho e Antonio Espinosa Ruiz. Itaú Cultural, Museu de Arte Moderna de São Paulo e Instituto de Estudos Brasileiros da USP, 2019.
  • CHOAY, Françoise. A alegoria do patrimônio/Françoise Choay; tradução Luciano Vieira Machado. - 6a ed. São Paulo: Estação Liberdade: Ed. UNESP, 2017
  • ICOM - INTERNATIONAL COUNCIL OF MUSEUMS. Disponível em: <http://www.icom.org>.

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