18 Maio 2020 - Dia Internacional dos Museus

Gabriela Aidar [i] 

 

Um mundo comum entre pessoas diferentes é possível?

A imagem que contém a pergunta que dá título a este texto foi fotografada em janeiro deste ano, numa parede da fachada da Casa do Povo, um centro cultural na região central da cidade de São Paulo [1]. Colado na parede, esse cartaz lambe-lambe, aparentemente repete a mesma pergunta ainda em espanhol, guarani e coreano, numa provável alusão aos grupos étnicos e culturais que habitaram e ainda se encontram nessa região da cidade.

Responder a essa pergunta parece ser, no entanto, mais fácil do que refletir sobre ela. Tanto a nossa história, como o nosso presente, nos oferecem provas contundentes de que não, um mundo comum não é, ou se quisermos ser otimistas, ainda não foi possível entre pessoas diferentes. O que podemos nos questionar a partir disso é qual o nosso papel em construir espaços e oportunidades de sociabilidade para que pessoas diferentes possam não apenas compartilhar experiências, mas fazê-lo em situação de igualdade.

Nesse sentido, as instituições culturais podem se apresentar como espaços privilegiados para a sociabilização e a convivência entre os diferentes. Passados pouco mais de 4 meses desde que essa fotografia foi feita, a experiência da quarentena pela pandemia do COVID-19 e o distanciamento físico nos fazem repensar o papel da sociabilidade, não apenas como um aspecto importante da vida social, mas como algo central para o nosso bem-estar, subjetividade e saúde.

No ano de 2015, organizamos no Núcleo de Ação Educativa da Pinacoteca de São Paulo, um seminário internacional de educação em museus que teve como tema os museus como espaços de convivência. Entre os convidados, estavam a colombiana Lucía González Duque, ex-diretora do Museo de Antioquia e do Museo Casa de la Memoria, ambos em Medellín. Nessa ocasião, pensando nos museus de arte, ela propunha utilizar a arte como ferramenta crítica da cultura.Segundo suas palavras,

No se trata más de filar unos cuadros, unos videos o unos performances, sino de proponer un entramado de oportunidades de lectura, que puedan conmover al otro, es decir, moverlo de su lugar, de las certezas y abrirle el mundo. Crearle una inestabilidad para que haya movimiento, es decir, para que la experiencia en el espacio museal sea transformadora. (González, 2015, p. 1).

Pensar os museus como plataformas para o exercício da interpretação e da crítica e como palco para experiências transformadoras, requer que consideremos quem tem acesso a essas instituições e às oportunidades que oferecem. Diversas pesquisas de público nos dão indicativos de perfis relativamente padronizados de frequentadores de museus. [2] Diversificar os públicos das instituições culturais é tarefa árdua e requer esforços coletivos, por meio de ações institucionais multisetoriais e políticas públicas, algo que não nos aprofundaremos neste texto. Mais bem, interessa pensar nos museus e demais instituições culturais como espaços para que os diferentes (e até mesmo divergentes) possam se encontrar de maneira igualitária. Poucos espaços públicos ou privados, em sociedades classistas como a brasileira, oferecem essa possibilidade de encontro e diálogo nos quais as hierarquias sociais sejam minimizadas.

Algumas instituições culturais, seja por sua programação e oferta cultural, seja por sua vocação institucional, como os SESCs (Serviços Sociais do Comércio), por exemplo, desempenham essa possibilidade de convivência com a diversidade de maneira aparentemente mais espontânea do que outras, como os museus. Neste caso, as oportunidades de encontros devem ser criadas e estimuladas pelas instituições museológicas e suas equipes, por meio de sua programação expositiva, de suas ações culturais e educativas, além de um processo de escuta e construção coletiva com seus públicos. Em atuação desde 2002, o Núcleo de Ação Educativa da Pinacoteca é um exemplo de um projeto museológico de longa duração, que trabalha no sentido de tornar um equipamento oficial da cultura mais permeável e relevante a distintos grupos sociais, além dos que já o acessam espontaneamente. [3] 

Retomando a questão da sociabilidade e seus impactos em nosso cotidiano, vale a pena traçar um paralelo entre a experiência da prática e acesso cultural com a produção de estados de saúde. Esta relação encontra respaldo num conceito alternativo de saúde que a compreende como ações que não se resumem à manutenção da vida biológica, mas à produção de uma vida qualificada, por meio da criação de sentidos, de convivência, de experiências de solidariedade e afetividade.

Conforme afirma Elizabeth Lima, podemos entender a

cultura como espaço de construção de pertencimento e de sentido coletivo, que estabelece enraizamento e compartilhamento. (...) Produzir experiências estéticas, estabelecer coletivos pensantes, inventar espaços experimentais nos territórios e comunidades, nas instituições ou nas ruas, são tentativas de produzir o comum e preocupar-se com um número cada vez maior de pessoas que estão sendo excluídas das redes de vida e cultura. São, portanto, práticas de resistência e de produção de saúde.(Lima, 2019, p. 4.)

A mesma autora relaciona a saúde mental com a experiência da criatividade, das trocas sociais, do acesso e da circulação pelo mundo da cultura. Para ela, as práticas artísticas e culturais são possibilidades de invenção e experimentação de outros mundos, de ativação das sensibilidades e fortalecimento das subjetividades. A tal ponto que defende que a sensibilidade é hoje em dia âmbito de luta político central em sociedades nas quais a experiência do mundo comum é expropriada pelas redes do capital.

A experiência educativa dentro dos espaços culturais, por exemplo, é altamente mobilizadora das capacidades de sociabilidade, de trocas e aprendizados coletivos, do exercício da sensibilidade e da interpretação, do estímulo ao diálogo e do pensamento crítico e criativo. Além disso, é possível perceber no cotidiano das ações educativas nos museus, o quanto tais experiências são ainda geradoras de bem-estar psicológico.

Para dar conta dessa abordagem há pesquisas sendo feitas a fim de avaliar os níveis de bem-estar gerados pela participação em atividades em museus, como a Museum Wellbeing Measures (ou Medidas de Bem-estar no Museu), conduzida por um grupo de pesquisadores da University College London, junto a diversos museus no Reino Unido. A pesquisa propõe um modelo para medir o impacto dessas atividades no bem-estar psicológico dos participantes, como indicadores do seu estado mental. Assim, a participação em atividades dentro de um museu (sejam elas educativas ou não) pode fazer com que os visitantes se sintam, entre outros aspectos: entusiasmados; alegres; inspirados; encorajados; interessados; amigáveis; motivados; positivos e comunicativos. (Thomson e Chatterjee, 2013, p. 5)

Outro interessante estudo foi realizado recentemente pelo escritório regional da Organização Mundial da Saúde (OMS) na região europeia, voltado especificamente para o papel das artes na melhoria das condições de saúde e bem-estar. O relatório final reflete o crescente reconhecimento mútuo das áreas da cultura e da saúde, e de seus potenciais de articulação conjunta. Conforme afirmam as autoras do relatório,

As atividades artísticas podem ser consideradas como intervenções complexas ou multimodais, na medida em que combinam múltiplos componentes diferentes, todos conhecidos como promotores de saúde. As atividades artísticas podem envolver engajamento estético, envolvimento da imaginação, ativação sensorial, evocação da emoção e estimulação cognitiva. Dependendo de sua natureza, uma atividade artística também pode envolver interação social, atividade física, envolvimento com temas de saúde e interação com ambientes de cuidados com a saúde. (Fancourt e Finn, 2019, p. 2)

Como documento elaborado para subsidiar a criação de políticas públicas de ambas áreas (cultura e saúde), o relatório ainda considera que se deve reconhecer o valor agregado do engajamento com as artes para a saúde,

assegurando que formas de arte culturalmente diversas estejam disponíveis e acessíveis a uma variedade de grupos diferentes ao longo da vida, especialmente aqueles de minorias desfavorecidas; incentivando as artes e organizações culturais a fazer da saúde e do bem-estar uma parte integrante e estratégica do seu trabalho; promovendo ativamente a consciência pública sobre os benefícios potenciais do engajamento artístico para a saúde; e desenvolvendo intervenções que incentivem o engajamento artístico para apoiar estilos de vida saudáveis. (Fancourt e Finn, 2019, p. IX)

Por outro lado, ainda propõe que se considere a inclusão da educação em artes e humanidades na formação de profissionais de saúde para melhorar suas habilidades clínicas, pessoais e de comunicação (Idem).

Para profissionais que atuam diretamente com os públicos na área da cultura, tais constatações não chegam a ser surpreendentes, mas é relevante sua sistematização e reconhecimento por parte das instâncias de saúde. Compreender, valorizar e incentivar os impactos das ações culturais na promoção de saúde será um aspecto cada vez mais presente no planejamento e nas ações das instituições culturais. Especialmente após a experiência coletiva de uma crise sanitária tão intensa como a que vivemos nos dias atuais.

Logicamente, refletir sobre todo o potencial da participação cultural na promoção de bem-estar e saúde física e psicológica é algo plausível numa situação em que a sociabilidade presencial seja possível, uma vez que não é viável pensar que estratégias de participação virtual à distância substituam o contato humano direto, nem que o acesso aos recursos digitais seja universalizado, especialmente junto aos grupos em situações de vulnerabilidade social.

Mas como profissionais da cultura devemos nos preparar para a retomada de nossas ações presenciais, em algum momento no curto ou médio prazo e paulatinamente. Assim, revisando a questão inicial, vale que nos perguntemos: como fazer um museu comum gerador de experiências transformadoras para pessoas diferentes?


[i] Graduada em História pela USP. Especialista em Estudos de Museus de Arte pelo MAC/USP e em Museologia pelo MAE/USP. Master of Arts in Museum Studies pela Universidade de Leicester, no Reino Unido. Trabalha desde 2002 no Núcleo de Ação Educativa da Pinacoteca de São Paulo onde coordena os Programas Educativos Inclusivos.

[1] https://casadopovo.org.br/
Acesso em maio de 2020.

[2] Para ter acesso a dados recentes de perfis de visitantes de museus em capitais do país, acesse: http://www.culturanascapitais.com.br/
Acesso em maio de 2020.

[3] Para conhecer os diferentes programas que compõem o Núcleo de Ação Educativa da Pinacoteca de São Paulo, acesse: http://museu.pinacoteca.org.br/programas-desenvolvidos/
Acesso em maio de 2020.


Referências bibliográficas


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