18 Maio 2020 - Dia Internacional dos Museus

Leticia Brandt Bauer [1] 

O Dia Internacional dos Museus de 2020 - que, salvo engano, nunca foi comemorado em situação tão adversa como a atual, em plena pandemia de Covid-19 - nos convida a pensar sobre um tema que considero condição essencial para que os museus contemporâneos exerçam, de fato, o papel de agentes transformadores. Partindo da premissa que os museus podem (e, no meu entender, devem) promover a igualdade e o respeito à diversidade, é possível afirmar que o primeiro passo rumo a esse objetivo não pode ser outro que não uma profunda autocrítica institucional. Esse exercício complexo, que envolve toda a cadeia operatória dos museus, pode ser o ponto de partida para uma modificação real nas relações entre instituições e comunidade.

O texto que serve como referência para o tema deste ano cita a identificação e superação de preconceitos daquilo que museus exibem e contam. Acredito que é importante explicitar que, junto a isso, também é necessário identificar e superar os preconceitos naquilo que os museus “não exibem”... Há urgência em problematizar as coleções, suas formas de organização e seus processos de documentação. Necessitamos, também, localizar as lacunas, os vazios, os silenciamentos e avaliar constantemente nossas ações como equipe e a relação com a comunidade à luz dessa perspectiva. É certo que alguns anos como gestora de museus já me mostraram que quase tudo é mais complexo, lento e difícil de ser realizado na prática. Ainda mais se reconhecermos que a promoção da igualdade e a luta em favor da diversidade tem como principal desafio desconstruir os preconceitos que se encontram ativos de maneira estrutural em nossa sociedade. Ainda assim, sigo acreditando que não há outro modo de mudar senão por meio das tentativas.

Entre erros e acertos, precisamos colocar em movimento o sistema que organiza os museus em toda a sua conformação. Gostaria de citar algumas ações do Museu de Porto Alegre Joaquim Felizardo (SMC/ PMPA), onde trabalho. Trata-se da elaboração de exposições de curta duração que foram desenvolvidas a partir de um ponto de vista engajado, pautado pelos Direitos Humanos. Cito como exemplos as exposições: (In)Visibilidades dos povos indígenas em Porto Alegre: intervenções na exposição “Transformações Urbanas” (2015), organizada a partir de inserções na exposição de longa duração que indicavam lacunas sobre os povos originários na expografia e que contou com a parceria da Secretaria Adjunta dos Povos Indígenas e Direitos Especiais (SAPIDE), então ligada à Secretaria Municipal de Direitos Humanos (PMPA); Tambores de Porto Alegre (2016), resultado da parceria entre o Museu e o grupo percussivo AlabêÔni, com diferentes objetos e instrumentos, acervo da família de Mestre Borel e menção a figuras como Mestre Batista, luthier construtor de Sopapos, e Mãe Rita, responsável, ao que tudo indica, pelo primeiro terreiro de batuque de Porto Alegre; a exposição Uma Cidade pelas Margens (2016), que explorou a trajetória de pessoas e organizações que protagonizaram a luta pela visibilidade e pelo direito à diversidade em Porto Alegre e resultou numa parceria do Museu com o Nuances – Grupo pela livre expressão sexual, a Liga Brasileira de Lésbicas do Rio Grande do Sul (LBL- RS), além do Curso de Graduação em Museologia, do Laboratório de Políticas Públicas Ações Coletivas e Saúde (LAPPACS) e do Programa de Pós-Graduação em História (PPGHIST), todos vinculados à Universidade Federal do Rio Grande do Sul; e a mais recente, intitulada Interfaces Arquipélago: um bairro feito de ilhas e muitas histórias (2019), realizada em parceria com o Projeto Interfaces Arquipélago e o Museu das Ilhas, museu comunitário sediado na Ilha da Pintada. Essas exposições foram realizadas por meio de curadoria compartilhada, tornando o processo desafiador mas, certamente, mais inclusivo e representativo. Além disso (e, provavelmente, por isso), questões do tempo presente permearam as iniciativas, com pautas sensíveis e relevantes para os participantes. Devido aos temas, o combate ao racismo, à intolerância religiosa e LGBTfobia, por exemplo, foram fios condutores dos processos criativos que resultaram nas mostras.

Como disse antes, na prática quase tudo é mais difícil e menos linear. Ainda não conseguimos vencer uma série de desafios. De qualquer modo, certamente o diálogo estabelecido por meio das curadorias compartilhadas já reposicionou uma série de condutas e entendimentos. Entretanto, nada disso ocorreria sem o primeiro passo: é preciso tomar uma posição como instituição. Estamos vivendo um momento em que a escalada do autoritarismo e a banalização da violência ameaçam conquistas realizadas por diferentes movimentos sociais ao longo do tempo e isso reverbera, também, nos museus. É preciso estar atenta. E forte.


[1] Historiadora com atuação na área de Museus e Patrimônio Cultural. Atuou como pesquisadora do IPHAN e dirigiu o Museu das Missões/ IBRAM/ MinC. Pesquisadora e Coordenadora Executiva do Projeto Victor Meirelles - Memória e Documentação, desenvolvido pelo MVM/IBRAM. Integra o corpo editorial da Revista Eletrônica Ventilando Acervos. Mestre e Doutora em História pela UFRGS (bolsa CNPq), com período de doutorado sanduíche na Universidade de Paris I, Panthéon-Sorbonne (bolsa CAPES). Diretora do Museu de Porto Alegre Joaquim Felizardo/ SMC/ PMPA. Doutora em História e diretora do Museu de Porto Alegre Joaquim Felizardo.


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