18 Maio 2020 - Dia Internacional dos Museus

Marcos Paulo de Souza Miranda [1] 

Como sabido, neste ano de 2020 a pandemia do coronavírus, também chamada COVID-19, se abateu sobre todo o planeta, mudando radicalmente a vida de grande parte da população mundial, obrigada a alterar seus hábitos e formas de ser e de fazer a fim de evitar a contaminação pela temida e pouco conhecida doença.

Contudo, o enfrentamento de doenças e epidemias é algo nada inédito na história do povo brasileiro, que, desde o descobrimento, já se deparou com diversas delas, tais como cólera, febre amarela, tuberculose, gripe espanhola, entre tantas outras.

Não há dúvida de que a atual pandemia deixará vestígios materiais e imateriais sobre a sua ocorrência na história de nosso povo. Além de artigos de uso pessoal (como máscaras) que possivelmente poderão atravessar as décadas, alas específicas de sepultamentos em cemitérios (sobretudo nas cidades mais afetadas), registros documentais e lembranças destes tempos de sofrimento, isolamento e saudade certamente se estenderão para o futuro, a exemplo do que ocorreu, em similitude, com a gripe espanhola de 1918, acerca da qual tivemos oportunidade de ouvir muitas histórias de protagonistas daquele episódio.

Nestes tempos de pandemia, parece-nos oportuno lançarmos olhares para um patrimônio cultural ainda pouco conhecido, quase oculto, na história de nosso país: os denominados “cemitérios de bexiguentos”, com os quais já nos deparamos, por mais de uma vez, em nossas andanças pelas Minas Gerais.

Nas duas últimas décadas do século XIX uma grave e mortífera epidemia de varíola atingiu grande parte do país, fazendo milhares de vítimas.

A peste da varíola, também conhecida, naquele tempo, pelo nome de “bexiga”, em razão das bolhas (pústulas) que se formavam no corpo dos doentes, era altamente contagiosa.

Recomendava-se à época que as roupas das vítimas fossem queimadas e as habitações desinfetadas com queima de enxofre, água com cinza e posterior caiação das paredes.

Falava-se, ainda, que os corpos das vítimas tinham o poder de propagar a doença por mais de um século e contaminar quem deles se aproximassem.

Esses fatos fizeram com que o medo da contaminação impedisse, muitas vezes, a sepultura dos corpos nos cemitérios públicos, razão pela qual foram improvisados cemitérios em campos ermos, normalmente na zona rural ou subúrbios, que ficaram conhecidos como “cemitérios de bexiguentos”, por servirem de local de descanso aos corpos das vítimas da varíola, popularmente conhecida como “bexiga”, como já explicamos.

O fato foi marcante para o povo brasileiro naquela época e deixou marcas até mesmo em nossa literatura.

Na obra de Jorge Amado, por exemplo, que conviveu com personagens que enfrentaram a epidemia, a “bexiga” aparece por mais de uma vez, normalmente com o tom de crítica ao poder público em relação aos mais pobres e à ausência dos serviços de saúde. Em Tereza Batista Cansada de Guerra, a bexiga é considerada como “determinada a matar, fazendo-o com maestria, frieza e malvadez, forte, feia e ruim”. A doença também é citada em Capitães de Areia. Em uma crônica, registrou ainda o famoso escritor baiano: “Eu tinha diante de mim um monstro. As faces inchadas, vermelhas e em pus, os lábios lívidos... Era como se aquela face fosse queimada por dentro e estalasse em empolas e emapostemas a epiderme. Quis recuar, quis aproximar-me (...)Há epidemia, oh! sim, há epidemia! E eu tenho medo meu amigo, um grande, um desastrado pavor...”

Cemitério de bexiguentos em Formiga – MGCemitério de bexiguentos em Formiga – MG

Geralmente cercados por muros de pedras e com acesso frontal por um portão de madeira, nos cemitérios de bexiguentos normalmente não existem lápides ou túmulos, o que dificulta a identificação dos mortos que ali foram sepultados (conquanto não seja incomum a existência de registros nos cartórios, igrejas e em jornais sobre as vítimas). Em geral, eles contam com singelas cruzes de madeira ou metal assinalando as antigas covas e são tratados como locais sagrados e de respeito pela população das redondezas.

Sob a ótica patrimonial, esses velhos cemitérios constituem lugares de memória ainda pouco conhecidos e explorados.

Congregam aspectos materiais relacionados à morte e imateriais, ligados à exclusão, à doença e à fatalidade dos tempos de antanho, normalmente de conhecimento da população que vive em seu entorno e que ali, em vários casos, praticam atos de veneração aos mortos e respeito religioso, sobretudo no dia de finados. Em alguns casos há lendas relacionadas ao local ou a pessoas que neles foram sepultadas, algumas consideradas como santas.

Esses cemitérios singulares carregam em si valores de antiguidade (em geral são do final do século XIX ou começo do século XX), raridade (os remanescentes são sítios da exclusão, em geral situados na zona rural, sendo que muitos já foram destruídos pelo abandono) e representatividade (marcas materiais de um tempo de sofrimento e morte) que podem justificar a sua proteção, seja sob a ótica material (a exemplo do tombamento, inventário ou registro como sítio arqueológico histórico) ou imaterial (declaração como lugar de memória, ou registro como lugar de celebrações).

Além disso, podem fornecer elementos de relevo passíveis até mesmo de musealização in situ ou mediante fornecimento de informações (iconográficas, cartográficas, documentais etc.) para museus que lidam com a história da saúde pública, por exemplo.

Esses cemitérios são campos santos simples, desprovidos de aspectos monumentais tais como a arte tumular, tão própria das necrópoles da elite social. Neles não há estátuas de bronze, lápides de mármore, nem tampouco epitáfios.

É exatamente essa singeleza, decorrente da abrupta morte e das particularidades relacionadas à exclusão decorrente da isoladora doença que vitimou os corpos ali sepultados, em um tempo de muitas crendices e precários conhecimentos sobre saúde, que os tornam especialmente relevantes.

Enfim, os velhos “cemitérios de bexiguentos” merecem maior atenção e reflexões enquanto bens potencialmente carregados de valores passíveis de identificação, estudo e proteção pelo poder público e pela sociedade.

Nem só de monumentos de caráter elitista e excepcional é constituído o patrimônio cultural do povo brasileiro.


[1] Membro do Instituto Histórico e Geográfico de Minas Gerais e do International Council of Monuments and Sites (ICOMOS).

 

Entre em contato conosco!

Envie seus comentários, críticas e elogios sobre esse artigo para o email Este endereço de email está sendo protegido de spambots. Você precisa do JavaScript ativado para vê-lo. .

Agenda

Seg Ter Qua Qui Sex Sáb Dom
1
2
3
4
5
6
7
8
9
10
11
12
13
14
15
16
17
18
19
20
21
22
23
24
25
26
27
28
29
30
31