18 Maio 2020 - Dia Internacional dos Museus

Simone Flores Monteiro [1] 

Como vamos comemorar o Dia Internacional dos Museus com os museus fechados?

Talvez essa tenha sido a preocupação de todos os trabalhadores de museus durante esse período que antecedeu o dia 18 de maio, em que os museus estão fechados. Ao mesmo tempo que é uma preocupação, também se tornou um exercício de se repensar, se reinventar, ainda que, tenhamos a tecnologia que para alguns museus, já mais familiarizados ou avançados, oferecem visitas, atividades e interações, outros não estavam preparados. O que aconteceu em todos os outros setores da sociedade, que estão tendo de se adaptar e, mais, vivenciar e planejar o depois, a crise.

Os museus têm uma função social, ou várias funções sociais, que em algumas sociedades é reconhecida em outras nem tanto. E, também, diversos museus enfrentam a dificuldade de não serem reconhecidos pelos outros museus, pelas comunidades, pela academia e pelos profissionais. E, nesse momento, de incertezas e dificuldades que muitos museus já vinham vivenciando, seja pela natureza de sua criação, por serem museus públicos sofrendo a diminuição ou ausência de verbas, ou museus privados tendo de lidar como incremento das questões orçamentárias, a situação se agrava, pois se interrompe uma relação diária com o público. O vírus fez fechar os museus.

Também não podemos esquecer, nesse momento difícil, que o Brasil atravessa uma instabilidade política que afeta diretamente a Política Nacional de Museus. Uma política pública para o campo dos museus construída de forma participativa e que teve nesses dois últimos anos vários abalos. Entre eles: dois de seus importantes instrumentos de gestão pública, que fazem parte da estrutura do Instituto Brasileiro de Museus, o Conselho Consultivo do Patrimônio Museológico que foi alterado, diminuindo a participação da sociedade e o Comitê Gestor do Sistema Brasileiro de Museus que está desarticulado.

A sociedade organizada em redes se beneficia de instrumentos articulados e estratégicos que conseguem avançar por meio de um trabalho colaborativo. Aponto aqui duas redes que acompanho e que acredito que estão desempenhando um papel de referência na preservação dos acervos, memórias e também realizando um trabalho mais inclusivo.

A Rede Brasileira de Coleções e Museus Universitários que possui uma articulação sistêmica congregando museus e coleções universitárias de todo o país. O objetivo primordial é a preservação e divulgação do acervo museológico das universidades brasileiras. Mauricio Candido da Silva, da Universidade de São Paulo e Coordenador Técnico do Museu de Anatomia Veterinária da Faculdade de Medicina Veterinária e Zootecnia da USP, vem atuando como articulador dessa Rede que prepara o VI Fórum de Museus Universitários, que seria esse ano e foi adiado para o próximo ano, por conta da pandemia. Outra rede é a Rede de Centros de Memória Marista, que iniciou no Brasil e por sua atuação de referência já se estendeu para a Região América Sul, com o objetivo de integrar as experiências existentes nos Centros de Memória Marista e de qualificar a gestão dos acervos culturais e espirituais.

No âmbito da comemoração do dia 18 de maio e da situação que todos vivenciamos atualmente, trazer nesse texto a consideração sobre as Redes se fez importante por dois motivos, estamos vendo e alguns até participando de diversas redes de colaboração e solidariedade que se formaram nesse período da pandemia, fortalecendo o auxílio e laços sociais, assim é possível perceber que por meio da colaboração e das práticas sociais os museus podem ser mais potentes e que essas experiências podem oferecer contribuições mais específicas para as situações que enfrentamos diariamente.

Nesse 18 de maio de 2020, os museus estão fechados por conta da pandemia COVID 19. Todos os museus, de alguma forma, devem estar documentando este momento, esta situação. Cito aqui, o Museu Diários do Isolamento, um museu no ambiente virtual em processo de implementação, fruto de uma iniciativa de extensão do Núcleo de Estudos sobre Museus, Ciência e Sociedade (NEMuCS), Curso de Museologia, da Universidade Federal de Pelotas, coordenado pelo Professor Daniel Viana de Souza, que apresenta na sua página da rede social os seguintes objetivos: “atuar numa rede de parcerias na necessária interpretação dinâmica da nova normalidade e assim tem a proposta de construir uma memória do presente que possibilita a formação de uma consciência ativa, capaz de dar subsídios para que todos enfrentem os desafios propostos, não só pela pandemia, mas pelas próprias sombras dos movimentos anti-conhecimentos, tendo como papel essencial estabelecer a comunicação e o debate amplo, livre, democrático e consciente sobre a ciência e seu importante papel na sociedade” (http://instagram.com/mudiufpel). É uma iniciativa de criação e inovação que busca ser um instrumento de memória alternativo e contribuir para o desenvolvimento, que não se caracteriza por substituir ações e relações nos museus e nas comunidades.

É preciso que todos estejam atentos para o registro dos acontecimentos, das ações e atitudes vivenciadas pela humanidade em suas comunidades, cada uma com suas particularidades no enfrentamento do problema tão grave e tão sério, que é o vírus, que faz adoecer, que mata e que revela, mais ainda, a face desigual e desumana do mundo em que vivemos. Pois, embora atinja a todos, não atinge todos de forma igual. Justo no ano em que a temática a ser refletida é Museus para a Igualdade: Diversidade e Inclusão.

Átila Tolentino, coordenador das atividades da Casa do Patrimônio da Paraíba, programa de educação patrimonial vinculado à Superintendência do Iphan na Paraíba, comentou num evento das redes sociais no mês de abril desse ano, que os museus estão fechados porque as pessoas são essenciais!! Tudo o que os museus guardam é testemunho da vida ou das formas de viver no planeta Terra e, preservam, com um único objetivo ou, deveria ser, de que se possa aprender o respeito pela própria vida e pela vida do outro, sendo o outro, as pessoas, os animais, as plantas, os microrganismos, a diversidade que compreende a realidade do nosso mundo.

Ao longo da História o homem, por diversos motivos, teve e tem inúmeras dificuldades para lidar consigo mesmo e com o outro e, principalmente, lidar com o diferente, embora a natureza seja de uma ampla diversidade que o homem ainda evidencia muita incapacidade de observar e compreender que faz parte desse todo. Recomendo aqui, quando os museus reabrirem, a exposição Marcas da Evolução, do Museu de Ciências e Tecnologia da Pontifícia Universidade Católica do Rio Grande do Sul, em Porto Alegre, que tem como um dos objetivos mostrar que somos uma pequena parte desse mundo em constante evolução.

Assim como as pessoas nunca viveram uma situação dessas, os museus também não. Estamos inseridos num processo acompanhando a dinâmica da vida e que evidencia claramente distinções entre as pessoas e os museus. Algumas pessoas terão a oportunidade de passar a quarentena de uma forma mais segura e tranquila, se é que isso é possível, mas são aquelas que tem casa, internet, que podem solicitar tele entregas e evitar sair as ruas. Outras, terão que buscar abrigos ou então dividir espaços com muitas pessoas, sem acesso à internet ou até mesmo condições de higiene.

Os museus fecharam e foram se reinventar na busca de caminhos para estarem perto do público, seja incrementando atividades através dos sites e nos canais das redes sociais para uma aproximação com aqueles que foram para casa, cumprir a quarentena e, que vão estar mais ligados no mundo virtual. E, se percebe, uma dedicação imensa nessas relações virtuais, mas, fiquemos atentos, vivemos no capitalismo, que para muitos o que interessa é o lucro e vale lembrar que esse lucro passa pelas empresas de tecnologia, que nos falam em inteligência artificial, mas que por trás dessa artificialidade estão um grande número de trabalhadores desconhecidos e ainda estimulam o consumismo de eletrônicos e uma série de produtos que mais impactam o meio ambiente de modo negativo. Sem falar na grande publicidade, financiada por essas empresas, que virá na desconstrução da necessidade de espaços de trabalho e de estudo com a apologia do trabalho e estudo remoto em desvalorização da presença, do encontro. Dito isso, as visitas virtuais, as conferências, as reuniões remotas, as aulas e capacitações por meio do uso da tecnologia facilita o desenvolvimento de muitas atividades, mas é apenas uma ferramenta importante, não é o fim em si próprio. Nada disso vai suprir a emoção de estar num museu ou num debate ao vivo com o professor e colegas. Estar e vivenciar são experiências ao vivo, de encontro de pessoas e de pessoas com a materialidade. Afinal, os sentidos da visão e da audição não nos bastam, precisamos do tato, da emoção do tocar, do experimentar, de poder escolher e, somente no espaço podemos fazer escolhas, pois na virtualidade as escolhas já estão postas. Orhan Pamuk, no livro Museu da Inocência nos diz que: “Os verdadeiros museus são lugares onde o Tempo é transformado em Espaço”. Espaço de encontro com o conhecimento, com as memórias e heranças, com as invenções e descobertas, com a cultura e a ciência que possibilitam a criatividade e a inclusão.

Outros museus estão utilizando a tecnologia para auxiliar as comunidades em que estão inseridos, com campanhas de alimentos, materiais de higiene e proteção, numa perspectiva de colaboração, de multiplicar a esperança e de reduzir o medo.

Considero um bom momento para pensarmos os museus são espaços de que? Ou ainda como tornar esses espaços mais inclusivos e promotores de igualdade?

Por fim, me apropriando de algumas ideias de Klaus Hilbert, digo que o que interessa é que os museus são espaços sobre a vida e a morte. São espaços que tratam da natureza, dos animais, das pessoas, das coisas, do fazer, do sofrer, dos lugares e dos tempos. Acredito que a ciência, a arte, a história, a memória, devem ser úteis, pesquisadas, contadas, retratadas e desenhadas para responder às necessidades das pessoas que precisam de compreensão, de consolo e de ajuda para entender suas tragédias, suas derrotas e também suas vitórias e, assim, se sentirem incluídas.


[1] Doutorado em Museologia pela Universidade Lusófona de Humanidades e Tecnologias, Especialista em Museologia pela Universidade Federal do Rio Grande do Sul. Especialista em Sociedade, Economia e Política pela Fundação Universidade Federal do Rio Grande. Graduada em História pela Fundação Universidade Federal do Rio Grande. Coordenadora de Projetos Museológicos do Museu de Ciências e Tecnologia PUCRS.


Referências bibliográficas

  • Castells, M.(org). Outra Economia é possível: cultura e economia em tempos de crise. Rio de Janeiro: Zahar, 2019.
  • Castells, M. O poder da Identidade. Lisboa: Fundação Calouste Gulbeenkian, 2003. Volume II.
  • Castells, M. A era da informação: Economia, Sociedade e Cultura.V. I – A sociedade em rede. São Paulo: Paz e Terra, 1999.
  • Chagas, Mario de Souza. Há uma gota de sangue em cada museu: a ótica museológica de Mário de Andrade. Chapecó: Argos, 2006.
  • Hilbert, Klaus. Ossos do Ofício: arqueologia na prática.1 edição. Curitiba: Appris 2020.
  • Lei 11.906 de 20 de janeiro. (2009) Criação do Instituto Brasileiro de Museus (IBRAM).
  • Leite, P.P. Museologia nômade e economia solidária: intervenções de educação popular patrimonial em : <https://www.researchgate.net/publication/339352330_Museologia_nomade_e_economia_solidaria_Intervencoes_de_educacao_popular_patrimonial . Acesso em: março 2020.
  • Monteiro, Simone F. Política Pública para museus no Brasil: o lugar do Sistema Brasileiro de Museus na Política Nacional de Museus. in http://www.museologia-portugal.net/files/upload/doutoramentos/simone_flores.pdf
  • Museu Diários do Isolamento: http://instagram.com/mudiufpel
  • Silva, M. (2019). A Rede Brasileira de Coleções e Museus Universitários: proposição, pesquisa, colaboração e manifestação de apoio ao Museu Nacional da Universidade Federal do Rio de Janeiro e ao Instituto Brasileiro de Museus. Revista CPC, 14(27), 297-309. https://doi.org/10.11606/issn.1980-4466.v14i27p297-309
  • Pamuk. Orhan. O Museu da Inocência. São Paulo: Companhia das Letras. 2011.
  • Ugarte, D. (2008). O Poder das redes. Porto Alegre: Edipucrs.


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