18 Maio 2020 - Dia Internacional dos Museus

Vânia Dolores Estevam de Oliveira [1] 

Embora tenha sido dada a opção de escolher entre dois temas, devido às condições de excepcionalidade em que o mundo se encontra, nenhum assunto estará isento de, pelo menos, tangenciar a pandemia causada pelo novo coronavírus. Então, esta reflexão será no sentido de vislumbrar as possibilidades da instituição museal durante e no período pós pandemia, na perspectiva de trabalhar para a igualdade, com respeito à diversidade e visando à inclusão de todos os segmentos sociais.

Muitos são os profissionais preocupados, conclamando ao debate sobre o futuro dos museus no pós pandemia. Muitas instituições divulgaram e/ou abriram o acesso às suas plataformas digitais, no intuito de amenizar os impactos negativos do isolamento e distanciamento social em nossas vidas. A programação da 18ª Semana Nacional de Museus já inclui muitas palestras e debates online pois, no momento, a conexão digital é a alternativa que nos resta, tanto individual quanto institucionalmente. Contudo, isso já configura uma exclusão, visto que cerca de 25% [2] dos brasileiros ainda não tem acesso à internet. Certo é que, após o período de distanciamento social, o funcionamento em formato digital será uma alternativa provável. As perspectivas são de que os períodos de quarentena e relativo afrouxamento se estendam por um período de dois anos, no mínimo. Reproduzir e dar direito de fala à diversidade em meio digital, proporcionando a inclusão social, com tantos analfabetos digitais e ainda sem acesso à internet, será o grande desafio.

Cientistas, pensadores e seres humanos conscientes e preocupados com o futuro da vida humana sobre o planeta Terra são unânimes em afirmar que, depois da pandemia, o mundo terá que ser diferente. A vida normal será outra, diferente daquela que tínhamos até janeiro de 2020. Será um novo normal, graças à extraordinária capacidade de adaptação e transformação das criaturas humanas. Que essa certeza, tantas vezes demonstrada ao longo da história da humanidade, nos mantenha o entusiasmo pelo viver.

E o Museu, continuará existindo? Haverá lugar para ele em nossas vidas? Terá o mesmo formato, ou terá que se reinventar? São perguntas para as quais ainda não temos respostas. Contudo, vale expor algumas ponderações. De partida, é possível afirmar que os museus seguirão existindo, embora seu(s) formato(s) ainda seja(m) uma incógnita.

Os museus e seus acervos estão aí e, mesmo com o distanciamento social, as responsabilidades quanto à sua preservação não podem ser negligenciadas, sob pena de termos perdas irreparáveis para nossa memória e patrimônio cultural. Em uma breve sondagem entre amigas museólogas, fiquei sabendo dos cuidados com a conservação, mesmo em meio à quarentena imposta pelos riscos da pandemia – alguns apenas voltados para a segurança e outros, também com a preservação física dos objetos: abertura periódica das salas de exposição e reservas técnicas e monitoramento presencial semanal do acervo, para minimização dos danos. Profissionais responsáveis que não abrem mão de seu compromisso com os bens culturais, observando também os cuidados com a própria vida, sem dúvida, o bem mais precioso.

Para continuar permitindo o acesso aos bens culturais salvaguardados nos museus, cada vez mais, o investimento em formação e tecnologia se fará necessário, para disponibilizar na internet as imagens e informações relativas aos objetos, reunidas e processadas pela documentação museológica. Informações em diferentes níveis, que atendam desde a curiosidade infantil, ao mais exigente pesquisador. Penso que possibilitar o acesso digital às informações terá que ser uma prioridade. Isso requer domínio das técnicas de processamento e disseminação da informação, bem como aquisição e manejo de bases de dados mais complexas. Contudo, não dá para fazer documentação e conservação, exclusivamente com trabalho remoto, sem a observação e o contato direto com o acervo. Até atingir o espaço virtual, a preservação passa por várias etapas presenciais.

Em relação às exposições, canal direto de comunicação com o público visitante, arrisca-se de novo a dizer que elas continuarão a acontecer. No Brasil, sempre nos lamentamos de uma baixa estatística de visitação e, agora, essa pode ser uma vantagem. Nossas exposições tem um público que não ocasiona aglomerações. Já aquelas exposições com filas na porta e fluxo interno intenso - as chamadas exposições blockbusters -, serão impensáveis durante um bom tempo. Para atingir um público maior, visitas virtuais e exposições online teriam que ser privilegiados, aliadas a um suporte informacional e de atividades educativas e culturais na internet.

Certamente as atividades educativas serão as mais afetadas pela nova realidade que está por vir. A limitação no número de participantes das atividades presenciais, bem como o necessário distanciamento, vão inviabilizar muitas dessas experiências em espaços fechados reduzidos e em instituições que não dispõem de áreas abertas. Essas terão que investir em atividades e jogos online, bem como em parcerias com as instituições de educação formal. Contudo, o atendimento do público escolar – responsável por considerável parcela de público dos museus – será profundamente alterado.

Esses e outros problemas que surgirão com o desenrolar dos fatos somam-se aos já existentes, como pessoal reduzido, recursos financeiros escassos, e o visível sucateamento em curso, da área cultural. Com décadas de atraso na utilização da tecnologia, a maioria dos museus brasileiros tem grandes desafios pela frente. Iniciativas conjuntas, parcerias interinstitucionais, compra de materiais (de conservação, por exemplo) em conjunto para os vários museus vinculados a uma mesma instituição, visando reduzir os custos, são apenas algumas possibilidades.

Como equacionar mudanças tão drásticas com o atendimento à diversidade e a necessidade de inclusão social, cultural e digital, para uma atuação museal focada na igualdade de direitos e condições de vida? É preciso pensar e fazer diferente, pois essa pandemia veio nos atirar ao rosto que o modelo até então utilizado, está apodrecido e gasto. Com ‘mais do mesmo’, talvez o museu esteja fadado a desaparecer.

Em livro referência para a história e compreensão da cidade, Lewis Mumford (1998), aponta que,como instituição urbana por excelência, “o museu assumiu muitas das características negativas da metrópole: seu gosto desnorteado pela aquisição, sua tendência à exagerada expansão e à desorganização, seu hábito de medir o êxito pelo número de pessoas que passam pelas suas portas”. Contudo, logo a seguir ele mesmo enumera algumas virtudes, como a de ser “método de ter acesso [...] a um mundo cuja imensidade e complexidade, de outro modo, estaria muito longe do alcance humano”. E nos diz também que “o museu é uma contribuição indispensável à cultura das cidades; e, quando chegarmos a pensar na reconstrução orgânica das cidades, veremos que o museu, não menos que a biblioteca, o hospital, a universidade, terá uma nova função na economia regional” (p. 605). Terá chegado o momento?

Para finalizar, é muito atual o trecho quase ‘profético’ da mesma obra:

Se estivéssemos preparados para restabelecer a habitabilidade da Terra e para cultivar os espaços vazios da alma humana, não seria tanta a nossa preocupação com estéreis projetos escapistas de exploração do espaço interplanetário ou com políticas ainda mais definidamente desumanizadas, baseadas na estratégia do extermínio coletivo em massa. Já é hora de voltar à Terra e encarar a vida em toda a sua fecundidade, diversidade e criatividade orgânica (MUMFORD, 1998, p. 616).

Enquanto isso, pela vida de todos e todas, de todas as idades, cores, orientações sexuais e etnias, fiquem na aldeia, fiquem no quilombo, fiquem em casa!


[1] Museóloga, vice coordenadorado Bacharelado em Museologia e professora do Programa de Pós Graduação Interdisciplinar em Performances Culturais da Faculdade de Ciências Sociais da Universidade Federal de Goiás.

[2] Em áreas rurais, o índice chega a 53,5%. Em áreas urbanas é 20,6%. Dados disponíveis em<https://agenciabrasil.ebc.com.br/economia/noticia/2020-04/um-em-cada-quatro-brasileiros-nao-tem-acesso-internet>. Acesso em 17 mai. 2020.


Referências

  • MUMFORD, Lewis. A cidade na história: suas origens, transformações e perspectivas. 4ª ed. Trad. Neil R. da Silva. São Paulo: Martins Fontes, 1998.

Agradecimento especial ao auxílio luxuoso das amigas e museólogas Josiane Kunzler e Maria de Jesus Pires. 


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