Róbson Bonfim de Caires [1]

Carlos Alberto Santos Costa [2]

No campo da cultura, nos acostumamos a ver a designação de Patrimônio Cultural aplicada a diversas produções humanas selecionadas pelo Estado Brasileiro, por meio dos órgãos patrimoniais. Tal designação resulta de um complexo e imbricado processo de mensuração qualitativa de valores atribuídos aos objetos patrimonializados – em suas expressões material, imaterial e/ou paisagística –, o qual, em tese, considera questões históricas e estéticas, além de aspectos como a singularidade, a excepcionalidade, a monumentalidade e a relevância sociocultural. No âmbito dessa discussão, o Patrimônio Arqueológico está no rol dos bens reconhecidos como Patrimônio Cultural e é acautelado pelo Estado. Esta condição leva a que, na prática, as suas conceituação e legitimação sejam quase exclusivamente acionadas pelo Estado e por especialistas, muitas vezes distante da sociedade (COSTA, 2019, p. 110).

Nesse contexto, os bens definidos como Patrimônio Cultural identificados nos meios urbanos – onde há maior circulação de pessoas e concentração de informações – passam a ser mais valorados e socializados, se comparados com àqueles identificados nos contextos rurais. Pensamos que, talvez, esse vício de atuação naturalizado nos meios oficiais de proteção do patrimônio conduza a menor imposição de força de trabalho desses órgãos nos sítios arqueológicos rurais, deixando de revelar a suntuosidade e a importância do Patrimônio Arqueológico, sobremaneira de períodos pré-coloniais, como relevantes para as questões de memória e de identidade, em benefício direto da sociedade. Nessa situação se encontra a maioria dos sítios de arte rupestre.

A arte rupestre aparece de forma abundante no Brasil. São milhares de sítios espalhados por todo o país. De beleza exuberante, a arte rupestre brasileira está entre as mais extraordinárias do mundo, seja pela qualidade das pinturas e gravuras, ou pela suntuosidade das paisagens naturais escolhidas pelas populações do passado para a sua elaboração (ETCHEVARNE, 2007; JORGE et alli, 2007; PEREIRA, 2003; PESSIS, 2003; PROUS, 2007). Localizada em grandes superfícies rochosas, tem no Nordeste, precisamente no Estado da Bahia, uma das regiões de grande concentração destas representações pré-coloniais. Em metade do território baiano é possível encontrar uma ampla concentração de vestígios rupestres, seja em quantidade como em variedade (COSTA, 2012, p. 66). Áreas como a Chapada Diamantina, o Vale do São Francisco, onde se concentram vegetações de Cerrado e Caatinga, apresentam um grande acervo dos registros gráficos pré-coloniais (ETCHEVARNE et alli, 2011, p. 47).

No universo dos sítios arqueológicos de arte rupestre do Brasil, gostaríamos de apresentar três exemplos, existentes no Morro do Engenho, situado no município de Dom Basílio, região semiárida do sudoeste da Bahia. Trata-se de uma área inserida em uma espaço de transição entre a Serra Geral e a Borda Ocidental da Chapada Diamantina (imagem 1).

Acima, à esquerda, o estado da Bahia, com identificação do município de Dom Basílio. Acima, à direita, Dom Basílio, com identificação do Morro do Engenho. Abaixo, no centro da imagem o Morro do Engenho. Fonte: Google Earth, 2019

Imagem 1: Acima, à esquerda, o estado da Bahia, com identificação do município de Dom Basílio.
Acima, à direita, Dom Basílio, com identificação do Morro do Engenho.
Abaixo, no centro da imagem o Morro do Engenho.
Fonte: Google Earth, 2019.

O Morro do Engenho é um inselberg de granito com elevações de 700m e estende-se à margem direita do Rio Brumado, tributário do Rio de Contas, principal curso d’água da região. Além das formações graníticas, outro atributo marcante são as enormes formações rochosas cársticas entremeadas por todo o morro, formando um emaranhado de grutas, locas e paredões nos diversos afloramentos rochosos da paisagem. A vegetação predominantemente no morro é a caatinga, formada por plantas que nos meses mais secos perdem as folhas. Este bioma apresenta-se de duas formas: no cume e paredões, compostas por plantas de pequeno porte adaptadas a pouca quantidade de água; e nas terras baixas, uma vegetação lenhosa com plantas espinhentas e cactos. A harmonia do local se completa com uma fauna diversificada de répteis, mamíferos e aves.

Nesta feição de relevo foram achados três sítios de arte rupestre – um pequeno abrigo e dois paredões a céu aberto –, onde os grafismos se encontram agrupados em seis painéis e algumas figuras isoladas. Os sítios foram georeferenciados, registrados fotograficamente e descritos, além de nominados respeitando a toponímia adotada pela população local, como: Loca dos Tapuias, Pedra de Fogo e Três Marias.

As primeiras incursões mostram que 85% das pinturas do Morro do Engenho são monocrômicas em vermelho. Somente no sítio Três Marias encontram-se grafismos em amarelo, muitos deles associados com o vermelho. As pinturas foram produzidas com traços grossos, aplicados com os dedos. Dentre as temáticas abordadas destacamos os motivos figurativos e abstratos. No conjunto dos motivos figurativos aparecem com maior frequência os antropomorfos, seguidos dos zoomorfos. Os motivos abstratos são figuras geométricas de caráter simples (quando apenas representam elementos geométricos isolados) e complexo (quando ocorre associação de elementos geométricos). Vale ressaltar que os motivos abstratos dividem espaço nos painéis com os motivos figurativos (imagem 2).

Antropomorfo aplicado com os dedos em cor vermelha no sítio Loca dos Tapuias; geométrico complexo aplicado com os dedos em bicromia de vermelho e amarelo no sítio Três Marias; zoomorfo (lagarto) aplicado com os dedos em com vermelha no sítio Pedra Fogo. Fotos: Robson Bonfim de Caires

Imagem 2: Antropomorfo aplicado com os dedos em cor vermelha no sítio Loca dos Tapuias;
geométrico complexo aplicado com os dedos em bicromia de vermelho e amarelo no sítio Três Marias;
zoomorfo (lagarto) aplicado com os dedos em com vermelha no sítio Pedra Fogo.
Fotos: Robson Bonfim de Caires.

Os motivos antropomorfos e zoomorfos têm tamanhos variados, entre 5 e 15 centímetros, sendo estas representações bastante esquemáticas, com traços bem definidos e de fácil percepção. Os antropomorfos, por exemplo, são bem trabalhados deixando evidente para o observador os elementos básicos do corpo humano, como a cabeça, o tronco, os braços e as pernas.

No sítio Três Marias foi encontrada sobreposição. No entanto, nesse momento da pesquisa não é possível definir se essa sobreposição reflita momentos pictóricos diferentes, haja vista a aparente manutenção estilística das pinturas. Em todos os sítios as representações foram aplicadas em superfícies verticais.

Uma análise preliminar sugere que em nenhum dos sítios é possível a realização de escavações arqueológicas. Na Loca dos Tapuias a única área abrigada é de tamanho reduzido; comporta no máximo dez indivíduos. Apesar da existência de sedimento, a análise inicial demonstra que as condições necessárias para uma escavação não foram observadas; durante as chuvas a área abrigada funciona como uma espécie de conduto de passagem da água que provoca interferência direta na formação e manutenção solo, pois desloca permanentemente sedimentos para fora da área abrigada, deposita novos sedimentos e dificulta a eventual manutenção de materiais culturais. Ou seja, há a constante descaracterização de possíveis extratos arqueológicos (imagem 3). Nos sítios Pedra Fogo e Três Marias os pisos são compostos por blocos de calcário sobrepostos, tanto na área direta quanto nos seus arredores, portanto, com a ausência de substrato sedimentar.

Sítio Loca dos Tapuias, onde se vê o agenciamento completo de um painel de pinturas. Foto: Róbson Bonfim de Caires

Imagem 3: Sítio Loca dos Tapuias, onde se vê o agenciamento completo de um painel de pinturas.
Foto: Róbson Bonfim de Caires.

Quanto ao estado de conservação das pinturas, a área sofre a ação direta de agentes naturais, como insolação, ação eólica e pluviométrica (imagem 3). Ocorre, também, depredação antrópica indireta, ocasionada pelos constantes desmatamentos e queimadas que acontecem diretamente no local ou no entorno imediato dos sítios. Além disso, também foi observado o escorrimento mineral e o desplacamento das rochas, que afetam de forma irreversível a integridade dos desenhos.

Sítio Três Marias, onde é possível se perceber o esmaecimento dos Painéis por ação pluviométrica. Foto: Róbson Bonfim de Caires

Imagem 4: Sítio Três Marias, onde é possível se perceber o esmaecimento dos Painéis por ação pluviométrica.
Foto: Róbson Bonfim de Caires

Apresentamos três sítios de arte rupestre existentes no Morro do Engenho, no município de Dom Basílio, Bahia, legítimos representantes do Patrimônio Arqueológico do município e do Patrimônio Cultural da nação. Este pequeno universo é revelador do potencial arqueológico da região – da qual se tinha notícia de apenas um sítio de gravuras registrado (COSTA & COMERLATO, 2018, p. 123) – e desses sítios para a compreensão das ocupações passadas desse espaço, para a re-apropriação social contemporânea pelas populações locais e para as atividades de extroversão e fomento da economia local, com a exploração turística responsável.


[1] Graduado em História pela Unijorge e Mestrando em Arqueologia e Patrimônio Cultural na UFRB. E-mail: Este endereço de email está sendo protegido de spambots. Você precisa do JavaScript ativado para vê-lo.

[2] Professor dos Programas de Pós-Graduações em Arqueologia e Patrimônio Cultural da UFRB, em Museologia da Ufba e em Desenho Cultural e Interatividade da Uefs. Pesquisador Associado do Centro de Estudos em Arqueologia, Artes e Ciências do Patrimônio da UC-PT. E-mail: Este endereço de email está sendo protegido de spambots. Você precisa do JavaScript ativado para vê-lo.


Referências

  • COSTA, Carlos Alberto Santos Costa. Por políticas para a gestão e musealização do patrimônio arqueológico: uma escala de sentidos. Revista Habitus, v. 17, n. 1, p. 101-123, 2019.
  • COSTA, Carlos Alberto Santos. Representações rupestres no Piemonte da Chapada Diamantina, Bahia, Brasil. Coimbra: FLUC, 2012, 474p. (Tese de doutorado).
  • COSTA, Carlos Alberto Santos; COMERLATO, Fabiana. Patrimônio arqueológico do Sudoeste da Chapada Diamantina: ênfase a Rio de Contas-BA. In: MARTINS, Violeta de Souza (Org.). Geoparque do Alto Rio de Contas-BA: proposta. Salvador: CPRM, 2017, v. 2, p. 122-140.
  • ETCHEVARNE, Carlos. Escrito na pedra: cor, forma e movimento nos grafismos rupestres da Bahia. Rio de Janeiro: Versal, 2007, 312p.
  • ETCHEVARNE, Carlos Alberto; COSTA, Carlos Alberto Santos; COMERLATO, Fabiana; BEZERRA, Alvandyr Dantas. Monumentos arqueológicos de arte rupestre na Bahia. In: ETCHEVARNE, Carlos; PMENTEL, Rita (Orgs.). Patrimônio Arqueológico da Bahia – Série estudos e pesquisas, n. 88. Salvador: SEI, 2011, p. 47-76.
  • JORGE, Marcos; PROUS, André; RIBEIRO, Loredana. Brasil rupestre: arte pré-histórica brasileira. Curitiba: Zencrane Livros, 2007, 272p.
  • PEREIRA, Edithe da Silva. Arte rupestre na Amazônia - Pará. São Paulo: UNESP, 2003, 245p.
  • PESSIS, Anne-Marie. Imagens da pré-história: Parque Nacional Serra da Capivara, 1ª ed. São Paulo: FUMDHAM/PETROBRÁS, 2003, 320p.
  • PROUS, André. Arte Pré-histórica do Brasil. Belo Horizonte: Editora Com Arte, 2007, 128p.

 

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