Olhares de ressignificação paisagística e patrimonialização cultural

Luciano J. Alvarenga [1]

Nas paragens rurais ao sul, centro-oeste e sudoeste de Minas Gerais, nas terras de Campo Belo, Boa Esperança, Campos Gerais, Lavras, Carmo de Minas, Andrelândia, entre outros municípios, deparamo-nos não raramente com corredores de árvores e pequenos arbustos entre fazendas, cafezais, cultivos agrícolas diversos, pastos ou áreas abandonadas. Ao transitarmos pelas estradas que entremeiam esses lugares, é possível vivenciar o aspecto singular e imaginativo que tais corredores evocam: vistos do alto de uma serra, é como se as plantas que lhes dão forma estivessem ali, disciplinada e caprichosamente enfileiradas, a percorrer aquelas paisagens.

O que muita gente desconhece, entretanto, é que esses corredores têm origem numa prática comum, sobremaneira nessas regiões, até meados do século XX: a inserção de “valos” (ou “valas”) para demarcação das divisas entre áreas de propriedades rurais. Cuidava-se assim, quando os arames farpados ainda não se encontravam facilmente nos armazéns daquelas cidades, de conduzir escavações em forma de canais longitudinais, de aproximadamente 1-1,5m de profundidade por 3-6m de largura, sobre as linhas divisórias das glebas como forma de delimitá-las e protegê-las em relação às suas cercanias (Castro, 2004, p. 12).

 

Valos, no plano baixo, vistos do Pico do Gavião

Foto 1: Valos (corredores de árvores), no plano baixo, vistos do Pico do Gavião,
São Tomé das Letras, sul de Minas Gerais. Foto: Luciano J. Alvarenga.

Certamente, as mãos que as empreenderam, muitas das quais sob regime de escravidão, não podiam imaginar àquela altura que os valos iriam desempenhar funções ambientais de grande valia muitos anos depois. Pesquisas cuidadosamente conduzidas na Universidade Federal de Lavras (Ufla) têm demonstrado que esses valos históricos, colonizados ao longo dos anos por espécies vegetais e animais típicas das regiões em que ocorrem, comportam-se como genuínos corredores ecológicos, propiciando o fluxo de flora e fauna e a conservação da biodiversidade in situ. E, curiosamente, apesar da largura aparentemente modesta que apresentam, as árvores, arbustos e herbáceas que eles abrigam, em condições favoráveis de umidade (devido à profundidade relativa dos canais, se comparados à matriz circundante), funcionam na paisagem como se fossem verdadeiras florestas compactadas.

 

Valo associado a muro de pedra em fazenda situada em Campo Belo

Foto 2: Valo associado a muro de pedra em fazenda situada em Campo Belo, sudoeste de Minas Gerais.
Foto: Luciano J. Alvarenga.

Derivadas de um antigo modo de demarcar glebas rurais, e que muito provavelmente encontra suas raízes na Europa, essas marcas na paisagem podem hoje ser “ressignificadas” na perspectiva da salvaguarda dos patrimônios natural e cultural. Na Galicia, p.ex., investigações científicas similares às desenvolvidas na Ufla têm vindo a salientar a relevância ambiental dos “valados”, segundo a designação própria daquela comunidade espanhola, como refúgios e fornecedores de alimentos para muitas espécies locais da flora e da fauna (Porto, 2001, p. 240). Paralelamente, chamam a atenção para a necessidade de preservá-los em face da crescente homogeneização degradadora, quase sempre “disfrazada de ‘progreso’” (Senén, 2008, p. 32), a que as paisagens culturais agrícolas galegas, à semelhança das brasileiras, têm sido submetidas. Processos esses que deixam apreensivos caminhantes e admiradores desses cenários, entre camponeses, estudiosos e poetas, como retratam os versos de Manuel Rivas (2003, p. 310):

Vai vello Fin Negan pola recta da parcelaria,
tan perfecta, tan recta
que non encontra os pasos
nin rodeiras de carro
nin sebes nin valados
nin loureiros nin cristo,
camiño falso,
chan e liso. [2]

 

Valle del Valiñadares visto do alto de A Xesta

Foto 3: Valle del Valiñadares visto do alto de A Xesta, no percurso entre Lourenzá e Abadín, Galicia,
de onde é possível contemplar valados a “trilhar” a serra, como se partissem do fundo do vale.
Disponível em: https://vivecamino.com/etapas/lourenza-abadin/ Acesso em: 30 jun. 2016.

Sem pretendermos explorar o tema de todos os ângulos, investigações e reflexões levadas a efeito até agora, quer no Brasil, quer do outro lado do Atlântico, dão como certa a importância crucial dos valos para: conservação e recuperação da biodiversidade regional; preservação de registros botânicos e arqueológicos de antigos modos de fazer; contemplação, compreensão e fruição das paisagens culturais em que os valos, como traços identitários, estão inseridos.
Carregados de novos significados ecológicos e culturais, os valos históricos carecem, todavia, de atenção específica dos poderes públicos, nomeadamente no âmbito dos municípios onde são encontrados. Sob a ótica do direito constitucional brasileiro, há elementos que indicam sua possível patrimonialização cultural, quer como vestígios ambientais, que são, de “modos de criar, fazer e viver”, quer como “sítios de valor histórico, paisagístico, artístico, arqueológico, paleontológico, ecológico e científico”, nos termos da Constituição da República, de 1988 (cf. art. 216, II e V). Como sugeriu trabalho recente, também é possível cogitar a salvaguarda dos valos históricos no âmbito das estratégias contemporâneas de “musealização” de territórios e de chancela de paisagens culturais (Miranda & Alvarenga, 2016).
Fato é que, ante as várias ameaças e danos que afetam os valos (extração vegetal, expansão não planejada de estradas vicinais, avanço das fronteiras agrícolas, etc.), é preciso envidar esforços para sua proteção, pois eles representam não apenas marcas de antigas práticas, herdadas de povos que contribuíram para a construção das identidades brasileira e mineira, mas guardam consigo, como sítios-refúgio da vida – que se tornaram pelo decurso do tempo e pela paciente ação da natureza –, sementes para replantarmos nosso futuro.

 

[1] Graduado em Direito pela Universidade Federal de Minas Gerais; especialista em Ambiente, Sustentabilidade e Educação pela Universidade de Évora; mestre e doutorando em Ciências Naturais pela Universidade Federal de Ouro Preto; professor e pesquisador em Direito e Ciências Ambientais; Este endereço de email está sendo protegido de spambots. Você precisa do JavaScript ativado para vê-lo.

[2] Tradução livre: “Vai velho Fin Negan pela planície de terras / tão perfeita, tão reta / que não encontram os passos / nem rodeiro de carro / nem sebes nem valos / nem loureiros nem cristo, / caminho falso, / plano e liso”.

 

Referências

  • CASTRO, G. C. Análise da estrutura, diversidade florística e variações espaciais do componente arbóreo de corredores de vegetação na região do Alto Rio Grande, MG. 2004. 83f. Dissertação (Mestrado em Engenharia Florestal) – Departamento de Ciências Florestais, Universidade Federal de Lavras. Lavras, 2004.
  • MIRANDA, Marcos Paulo de Souza; ALVARENGA, Luciano J. Por entre valos e muros de pedra: fundamentos para salvaguarda e musealização de paisagens culturais em Minas Gerais. Revista Museu, n. esp., maio 2016. Disponível em: http://www.revistamuseu.com.br/site/index.php/br/artigos/18-de-maio/244-por-entre-valos-e-muros-de-pedra. Acesso em: 30 jun. 2016.
  • PORTO, C. V. O contorno das fragas do Eume: outros hábitats de interesse. Cátedra, n. 8, p. 235-244, 2001.
  • RIVAS, M. Do descoñecido ao descoñecido. A Coruña: Espiral Maior, 2003.
  • SENÉN, F. Paisaxe-paisanaxe en Galiza: destrución da identidade. Cerna, n. 56, p. 32-33, 2008.

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