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O arte-educador Paulo Vergolino entrevista Waldir Salvadore, autor do livro Italiano e Nosso: Felisberto Ranzini e o 'Estilo Florentino', que aborda a vida e obra do arquiteto e sua influência em São Paulo

PV: Você considera São Paulo uma cidade que investiu no estilo eclético em que medida? Isso é uma característica já presente no Início do Século XIX ou mesmo antes desse século?

WS: A arquitetura eclética encontrou na São Paulo da virada do século XIX para o XX condições especiais para se desenvolver: a riqueza gerada pelo café, o crescimento populacional vertiginoso e o processo de urbanização acelerado provocados pela correntes imigratórias que tinham a cidade por destino; uma sociedade ávida por novidades e progresso, e avessa ao passado colonial de pobreza que a caracterizou até a segunda metade do século XIX. Disto tudo resultou o cenário arquitetônico eclético que prevaleceu na fisionomia da cidade até pelo menos o final dos anos trinta.

PV: Nos fale um pouco sobre a sua formação e quando de seu conta de seu real interesse sobre esse assunto.

WS: Meu interesse pela arquitetura e pela história da cidade teve início na adolescência: meu primeiro emprego, de "office-boy", em meados dos anos setenta, permitiu que eu percorresse e conhecesse em minúcia todos os bairros centrais e arredores. Descobri encantado muita coisa, pesquisei outras tantas, vi com tristeza muita coisa desaparecer, numa época em que a luta pela preservação do patrimônio ainda engatinhava. Desde então passei a fotografar tudo o que me parecia relevante, o que resultou num razoável acervo acumulado ao longo desse período. Esses e outros interesses correlatos me conduziram ao curso de história da USP e, anos depois, ao mestrado em sociologia da arte na mesma instituição.

PV: Sabemos que vocês são os atuais proprietários do Espaço Cultural Casa Ranzini - pode nos falar um pouco sobre essa residência e sua importância para a cidade de São Paulo?

WS: Trata-se de um projeto de Felisberto Ranzini (1881-1976) para sua moradia, que nela viveu de 1924 até sua morte; Ranzini trabalhou no Escritório de Ramos de Azevedo por mais de quarenta anos, respondendo por obras emblemáticas da cidade como, por exemplo, o Mercado Municipal e a Casa da Rosas na Avenida Paulista. Sua casa, belo exemplar em estilo florentino, é um dos raros sobreviventes residenciais bem conservados - ele foi adquirido da família, e era ocupado pelo neto do arquiteto por ocasião da compra - e representativos dessa vertente da arquitetura eclética em São Paulo. Depois de restaurado, solicitamos seu tombamento junto aos conselhos de proteção municipal - Conpresp - e estadual - Condephaat - sendo aprovados por ambos, o que dá bem a medida de sua importância.

PV: Em breve você publicará um livro – pode nos contar um pouco sobre essa importante publicação?

WS: Primeiro volume da coleção "Ecletismo Paulista" e intitulado Italiano e nosso: Felisberto Ranzini e o "estilo florentino", trata-se de um despretensioso estudo a ser publicado pelo selo Cultura Acadêmica da Editora da Unesp sobre a vida e a obra do arquiteto, bem como o contexto profissional e sócio-cultural em que ele atuou, incluindo ainda uma análise mais detalhada de uma das variantes expressivas do ecletismo na cidade, o denominado "estilo florentino", de suas origens na Itália à sua disseminação na capital e interior paulista, com destaque para a Casa Ranzini, documento significativo dessa corrente estilística.

PV: São Paulo, julgamos nós, é uma cidade que preserva seu patrimônio arquitetônico de forma fraca, assim como outras capitais importantes - o que se deve fazer para mudar essa realidade?

WS: Não há, por exemplo, nenhuma espécie de incentivo regular à preservação do patrimônio tombado: o mínimo que o munícipe proprietário de qualquer imóvel tombado - que exige condições de restauro e manutenção especiais, via de regra mais onerosas - deveria desfrutar seria o acesso a mecanismos de isenção e/ou abatimento de IPTU (que ocorre, por outro lado, em relação a agremiações desportivas...).

PV: Você acredita que o resgate da arquitetura histórica presente no Brasil, pode ajudar a despertar o interesse da sociedade para que outros meios como: artes visuais, a música e o teatro sejam também valorizados de forma mais profunda?

WS: São universos de criação artística que se tangenciam mas que não se comunicam, necessariamente. A arquitetura tem "valor de uso" e uma consequente dimensão social - e afetiva - numa escala que outras manifestações não têm. De qualquer modo, educação de qualidade é um requisito incontornável para compreensão, fruição e valorização de bens culturais (e a situação do Brasil nesse aspecto dispensa comentários...).

 

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SERVIÇO:

Italiano e Nosso: Felisberto Ranzini e o “Estilo Florentino”
Waldir Salvadore
Coleção Ecletismo Paulista
Cultura Acadêmica Editora

Waldir Salvadore, bacharel em história e mestre em sociologia pela USP, é também autor de São Paulo em preto e branco: cinema e sociedade nos anos 50 e 60 (Annablume, 2005) e O eixo do seixo (poesia, 2012).

“Este livro, que vem ladeado por mais dois, escritos por outros dois brilhantes historiadores, dentro de uma coleção importante sobre o ecletismo paulista, revela algo que pode ser lido como uma persistência [...]: a ideia de que São Paulo é uma cidade de muitas faces, repleta de opções, cores, texturas, sons, falas e artífices.
Como tudo isto convive, em pleno século XXI, lado a lado, podemos dizer, então, que o ecletismo 
paulista nunca se esgotou.
Se ecletismo é escolha, São Paulo escolheu ser mistura.

E, para nosso deleite, Waldir Salvadore escolheu estudar aquilo que quase ninguém olhou nessa cidade eclética: a arquitetura florentina riscada pelo - quase - esquecido Felisberto Ranzini.”
Fernando Atique

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