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- as exposições de arte ativas no final do século XIX e início do século XX -

Paulo Leonel Gomes VergolinoPaulo Vergolino

Há muito tempo buscam-se informações sobre o paradeiro de mostras de arte realizadas em locais distantes do eixo Rio-São Paulo. Como sabemos, no período compreendido entre o final do século XIX e o início do século XX, algumas cidades obtiveram maior destaque em relação a outras, quer fosse por facilidades de divulgação, quer fosse pela localização privilegiada ou mesmo pela vontade política de investir em eventos desse tipo.

Este trabalho visa a trazer ao conhecimento público alguns fatos considerados importantes para a história cultural de regiões como o Pará, mais especificamente a capital, Santa Maria de Belém do Grão-Pará. Fundada em 1616, Belém, apesar de distante da capital do país, Rio de Janeiro, e de sua quase irmã gêmea, a São Paulo da garoa, deve ser incluída no rol das cidades que, não sem dificuldades, contaram com uma elite regional investida da pretensão de se espelhar não somente na vitrine cultural que era a região Sudeste, mas na Meca do bom gosto e da civilidade: a cidade de Paris.

À época (1870-1912), Belém vivia o surto da extração e comercialização da borracha e acordava de um longo período de sono e marasmo cultural e urbano. Lembremo-nos de que, no século XVIII, a capital paraense fora sacudida pelo arquiteto italiano Antonio Giuseppe Landi que construiu prédios considerados por estudiosos verdadeiras joias do período oitocentista na Amazônia. Já ao final do século seguinte, a cidade vivenciou nova sacudidela e pôde tentar se equiparar às grandes metrópoles, cujos requintes e vida cultural e intelectual eram observados através de livros, revistas, jornais, gravuras, cartões postais, cartas enviadas por quem viajava ou estudava fora e mesmo novidades trocadas entre familiares e amigos em reuniões informais.

Belém, portanto, tornou-se, sob certos aspectos, uma capital agitada, pretensamente mais europeia que brasileira, dominada por um francesismo, especialmente no aspecto intelectual, que ressaltava a ligação da cidade com as principais capitais europeias, causada de um lado pela dependência financeira e comercial à Inglaterra, e, por outro, por uma relação cultural intensa com a França. (SARGE, 2000, p. 112)

Tendo em vista a modernidade pretendida, a cidade tratou de construir o que de melhor se conhecia em points urbanos e consequentemente culturais. Abriu praças (Praças da República e Batista Campos) e inaugurou avenidas. Bairros novos surgiram, entre eles os bairros de Nazaré, do Umarizal e Batista Campos; a cidade foi alargada e arborizada com espécimes originários da Índia, como por exemplo a mangueira; foram construídos mercados e casas de teatro como o Teatro da Paz e o Mercado de Ferro (Francisco Bolonha), especializado no comércio das chamadas “carnes verdes” vindas da Ilha de Marajó e do “Ver-o-Peso”, mercadão público que até hoje abastece a capital de inúmeros tipos de gêneros alimentícios.

À época, os governantes Antonio José de Lemos (1843-1913) e, posteriormente, Lauro Sodré (1858-1944) buscaram, cada um a seu modo, elevar os padrões de higienização e modernização da cidade.

Belém já possuía sistema de água e saneamento; a luz elétrica foi autorizada a funcionar pelo decreto Federal n° 5.780 de 26.01.1905 (SARGES, 2000, p. 92). Além disso, o governo construiu uma usina para incinerar o lixo produzido pela cidade e inaugurou, em 24 de abril de 1912, o Cine Olympia, considerado o mais antigo cinema ainda em funcionamento no país.

No que diz respeito às mostras de arte, Belém do Pará não se colocou muito atrás de outras capitais brasileiras mais incensadas. A falta de museus e galerias de arte não afugentou artistas, pelo contrário: obrigou-os a se adaptar à malha urbana da melhor maneira possível a fim de obter visibilidade e reconhecimento.

Em meio a uma turbulenta transformação urbanística, a fama de Belém como uma nova vitrine para os artistas nacionais corria pelo país afora. Foi então que muitos pintores brasileiros, alguns já consagrados, passaram a incluir a cidade no roteiro de suas viagens. Abria-se na região, enriquecida pela exploração da borracha, um novo mercado para as artes plásticas no Brasil. (FIGUEIREDO, 2010, n. 28.1, p. 7)

A pesquisadora Moema Alves, em seu artigo Caminhos trançados: a cidade de Belém e as exposições de arte no entresséculo, descreve um processo de ocupação realizado pelos artistas nas casas de comércio de Belém:

[...] em um primeiro momento, as exposições individuais e coletivas foram se organizando em vitrines e no interior de lojas de joias, sapatos, tecidos, livrarias ou mesmo na casa dos artistas. Era uma forma, portanto, de não deixar de exibir, divulgar e comercializar as obras. Por cederem seu espaço ou organizarem mostras, e pelo fato de atingirem um público diversificado, as casas comerciais se tornaram espaços importantes para a difusão da arte. (ALVES, 2013, v. VIII, n. 2)

Não podemos esquecer que Belém era uma cidade pequena no período, circunscrita aos bairros centrais e a alguns poucos que iam se desenvolvendo conforme a população aumentava. O Bairro da Campina – popularmente conhecido como Bairro do Comércio devido à alta concentração de estabelecimentos comerciais – figurou como o local predileto dos artistas daquela época. Até hoje, o bairro concentra uma grande quantidade de lojas e gente. Nas vitrines dos comércios frequentemente podiam-se encontrar muitas obras de arte. É o que retrata Alves no parágrafo a seguir:

Na João Alfredo – como é popularmente conhecida a rua – há ainda hoje uma edificação de dois pavimentos com arquitetura mourisca. Este prédio abrigou a Livraria Universal Tavares Cardoso, que durante muito tempo realizou exposições, como a do Pintor Domenico De Angelis, em 1888; a do espanhol Francisco Estrada, em 1908; a do Pintor Russo Demétrio Ribcowsky em 1910, ou a do retrato de Floriano Peixoto feito pelo Professor de Dresden, Martin Schumam, em 1912. Estrada, inclusive, foi um dos pintores que mais circulou com obras entre os estabelecimentos comerciais. Em 1897 expos na fotografia Fidanza; em 1899 na Loja Paris N’ América, famosa loja de tecidos que ainda persiste com essa mesma função; em 1897, 1900, 1907 na Loja Filial, o pintor expôs ainda em sua residência, no ano de 1900 e em 1911 no Teatro da Paz. (ALVES, 2013, v. VIII, n. 2)

2015 11 vergolino01Livraria Universal Tavares Cardoso, Belém Pará
Acervo: site panoramico.com de Odilson Sá

Vemos que, na falta de uma galeria especializada ou de museus de artes plásticas, as opções que restavam aos artistas eram locais alternativos: as ruas e os comércios. Ainda que a cidade tivesse um museu de etnologia, geologia, botânica, zoologia e arqueologia, o Museu Emilio Goeldi, fundado em 1871 e tido atualmente como um dos mais antigos do país, o mesmo não objetivava exposições de artes visuais.

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Sala de exposições de geologia, no interior do prédio principal do Museu Emílio Goeldi,
em fotografia publicada do Álbum do Estado do Pará de 1908. Coleção de Luís C.B. Crispino [1]

Abaixo, encontramos uma rara imagem de uma das mostras realizadas no espaço adaptado do Teatro da Paz: uma mostra do artista Carlos Custódio de Azevedo, inaugurada em 1906, segundo pesquisas de Aldrim Moura de Figueiredo.

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Exposição de Carlos Custódio de Azevedo [2], 1906 (fotografia original de Antonio de Oliveira)
Acervo: Biblioteca Pública do Pará Arthur Vianna

Ao analisar essa fotografia, percebemos algumas características incomuns, entre outras o fato de as obras estarem alinhadas pela base, ou mesmo dispostas longe da parede, suspensas possivelmente por cordões e presas por baixo. Uma longa mesa coberta por tecido também figura na foto, mas deixa perceber que é composta, em parte, por pés bipartidos dispostos ao longo de toda a extensão.

Azevedo agrupa as obras grandes e pequenas em um conjunto sem espaçamento, o que causa certa confusão para os olhos de hoje, e põe logo abaixo de cada obra uma etiqueta contendo, provavelmente, informações sobre a mesma e o preço. A iluminação era natural e não sabemos se foi usada também luz artificial, visto que o local dispunha de grandes lustres e apliques dispostos por todo o ambiente.

Abaixo, outro exemplo de imagem de exposição, desta vez da mostra de Antonio Parreiras, de 1905, no mesmo local, seguindo os mesmos moldes.

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Exposição de Antonio Parreiras [3], 1905 (fotografia original de Antonio de Oliveira)
Acervo: Biblioteca Pública do Pará Arthur Vianna

Antonio Parreiras expôs em 1905 e produziu uma de suas obras de maior vulto, a tela A Conquista do Amazonas, entregue três anos depois ao governo do Pará, à época ocupado por Augusto Montenegro, encomendada quando de sua estada em Belém.

Além de Azevedo e Parreiras, o Teatro foi palco de muitos outros expositores: Benedito Calixto, Oscar Pereira da Silva, João Batista da Costa, Theodoro Braga, Francisco Aurélio de Figueiredo Melo, Joseph Casse e tantos mais. O que se nota é que a cidade havia se transformado em um local bastante rentável para artistas vindos de outros estados e países. O governo enriquecido pela produção e exportação da borracha, sedento de novidades, fazia encomendas para adornar seus palácios públicos e privados e a nova burguesia paraense procurava agir da mesma forma adquirindo obras de arte.

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Antônio Parreiras, A Conquista do Amazonas, 1907, óleo sobre tela, 400x800cm
Acervo: Museu do Estado do Pará – MEP

 No intuito de corroborar esses acontecimentos, não poderíamos deixar de citar a fundação, em 1841, pelo governo do estado do Pará, desta vez na pessoa de Lauro Sodré, do Liceu Benjamin Constant e a aprovação de uma lei de incentivo descrita abaixo pelo pesquisador Edilson Farias em sua publicação Tramas e Dramas sobre a tela de Constantino Motta:

A regulamentação proveniente da Lei n° 61 de 1892, este último assegurando a alguns artistas (pensionistas) seus estudos fora do Brasil e, consequentemente, a oportunidade de entrarem em contato com mestres da Academia Imperial de Belas Artes do Brasil e, em Paris, desfrutarem da cultura de outros centros europeus. A bolsa de estudos instituída pela Coroa permitiu a Constantino Pedro Chaves da Motta, por exemplo, o estudo de pintura na Academia Real de São Lucas, em Roma. (FARIAS, 2007, v. II, n. 2)

Fatores como esses são fundamentais para nos ajudar a explicar e compreender os novos caminhos a serem abertos no campo das artes de forma menos incipiente e as mudanças ocorridas para que a cidade se equipasse com os primeiros e salutares organismos criados para este fim. De fato, Belém do Pará se beneficiava, enfim, de pessoas interessadas em mudar a situação de provincianismo e mesmo de amadorismo cultural até então vigentes.

Em pesquisa realizada nos jornais microfilmados da Biblioteca Nacional do Rio de Janeiro, em 09 de julho de 2014, encontramos algumas notícias esclarecedoras no Jornal A Pátria Paraense de 31 de julho de 1894. Segundo o jornal, naquela data fora divulgada a primeira ideia de uma mostra de produtos industriais e manufaturados intitulada “Amazônica”, da qual participariam os estados do Amazonas, do Pará e do Maranhão. Entretanto, por problemas financeiros, o governo do Grão-Pará não conseguiu patrocinar a vinda de produtos das duas regiões anexas ao estado e a ideia aparentemente não vingou.

Na edição do dia 08 de agosto de 1894 do mesmo jornal, encontramos outra preciosa notícia, desta vez englobando as artes plásticas:

[...] a Exposição de Artes e Ofícios de 1895 realizar-se-á na Praça Saldanha Marinho (Largo do Quartel) no grande palácio em que funciona o Liceu Paraense, Liceu Benjamin Constant e atualmente a biblioteca pública. Uma parte da praça será devidamente decorada e o edifício será interior e exteriormente iluminado a luz elétrica. A exposição contará de trabalhos de pintura, música, escultura, arquitetura, xilografia etc. e outras artes de artistas paraenses ou que tenham trabalhos neste meio. Haverá uma galeria das senhoras para o trabalho da mulher paraense. A exposição durará uma semana e só poderá ser visitada à noite, a exceção do Domingo em que as suas portas estarão abertas durante todo o dia. (A PÁTRIA PARAENSE, Ed. 08 ago. 1894)

Essas informações nos auxiliam a constatar que, entre outros pontos, a cidade já se organizava para a inauguração de mais uma mostra aberta, não em um local improvisado como de costume, mas em um espaço próprio para isso, com divisão espacial para obras de artes plásticas de senhores e senhoras; seleção de técnicas; arquitetura e música pensadas para o ambiente; iluminação especial e mais: ficou estabelecido que a visitação ao espaço só se daria fora do horário comercial. Sem dúvida podemos depreender que, para além da importância da exposição em si, os organizadores mostravam total e irrestrita abertura para quem quisesse participar, tornando o evento o mais amplo possível.

Mais à frente, a coluna de notícias sobre a exposição completa:

[...] finda a exposição terá lugar o júri composto do Conselho Administrativo da Sociedade Propagadora do Ensino para a concessão de 5 medalhas de ouro ou prata e 10 menções honrosas, que serão concedidos aos participantes que merecerem em outra sessão solene. Está, desde já aberta, a verba de 5 contos para os preparativos da grandiosa exposição. É necessário animar as artes entre nós, e um dos meios mais poderosos é o certame projetado. (A PÁTRIA PARAENSE, Ed. 08 ago. 1894)

Percebe-se que a capital já vivenciava a necessidade de exposições de produtos comerciais, industriais e da inclusão das artes plásticas no cotidiano da população, sobretudo com fins de instrução.

No caso da mostra projetada para 1895 foram também propostas uma comissão de julgamento, premiações, menções honrosas e solenidades para coroar o acontecimento com louvor. A comissão se preocupou em contatar por carta os diversos paraenses estudantes de escolas de Belas Artes na Europa para que participassem com obras na ocasião da mostra em si. Entre outros, o Jornal A Pátria Paraense destacou nomes como o de Meneleo Campos, Manoel do Amaral, João Farias e Alípio Cesar. Não faltaram notícias sobre o evento que fora inspirado nas Feiras Internacionais de Produtos Industriais e de Artes e Ofícios das quais o Brasil participava. Foram propostos também para a abertura da mostra de 1895 fogos de artifício, consertos musicais com premiação, produtos de decoração folheados a ouro, artesanato produzido com cabelos humanos, mostra de chapéus de senhoras e buquês.

Antes de acontecer, a mostra de 1895 fora amplamente divulgada pelo Jornal A Pátria Paraense durante um ano. Além desta, podemos destacar outras exposições de real importância ocorridas no Pará tendo em vista apresentar o melhor da Região Norte para o restante do Brasil e do mundo: a mostra de 1866 realizada no Edifício do Colégio Gentil/Amparo; a de 1877, realizada no Palácio do Governo (construção ainda existente) e a última versão da conhecida “Feira Paraense”, realizada em 1896.

Concidentemente, o Jornal A Folha do Norte de 08 de janeiro de 1896 publicou o desabafo de um dos artistas premiados na Exposição Benjamin Constant (provavelmente aberta nas dependências do liceu homônimo), insatisfeito com a premiação injusta:

Exposição Benjamin Constant – porque considerei a maioria do júri incompetente para julgar minhas obras, declaro que recuso a medalha que me foi concedida na Exposição Benjamin Constant. Ainda que ele me tivesse concedido medalha de ouro, meu procedimento seria o mesmo. E se expus meus quadros, foi por me ter esquecido completamente do proverbio russo que diz: - Não deiteis pérolas ...não importa a quem. Belém 08 de janeiro de 1896. D.O. Widhopff [4]. (A FOLHA DO NORTE, 08 jan. 1896)

Não foi possível conseguir fotografias dessas importantes iniciativas culturais da Região Norte, porém certamente podemos afirmar, a partir dos jornais da época, que existiu um grande esforço, tanto da iniciativa pública quanto da privada, para expurgar, por meio de grandes mostras de produtos e artes, o atraso urbano em que a cidade esteve inserida. No afã de tornar-se avant-garde e atrativa para quem dela se aproximasse, Belém não mediu esforços para se equiparar (guardadas as devidas proporções) a locais como Paris, Londres, Chicago ou Turim – cidades-sede de importantes exposições internacionais de produtos industriais, manufaturados e culturais em sua mais ampla acepção.

Em 14 de junho de 1903 – já no alvorecer do novo século, portanto –, novas notas são encontradas no mesmo jornal A Folha do Norte; elas registram com orgulho que a escultora e pensionista paraense Julieta França [5] foi aceita com o Busto de Mademoiselle Fortin no Salão da Sociedade de Belas Artes de Paris. Esclarecem também que a artista precisaria talhar a peça em mármore ou fundi-la em bronze, mas ressentia-se do pequeno “soldo” dado através do primeiro prêmio concedido à escultura pela Academia de Belas Artes do Rio de Janeiro e que não seria suficiente para Julieta conseguir este intento. Este detalhe vem reforçar a ideia de que existia um conjunto ralo, ainda que bastante ativo, de artistas no norte do país, se em comparação com artistas cariocas e paulistas. Os paraenses se especializavam no exterior, recebiam prêmios e sobreviviam de sua arte, pelo que acreditamos – amor à profissão.

Em 1909, encontramos Osório Duque Estrada na publicação O Norte trazendo reveladoras informações sobre os acontecimentos culturais de Belém àquela época: “só para se ter uma ideia, nos últimos dois anos foram realizadas em Belém 17 exposições públicas de pintores nacionais e estrangeiros” (O NORTE, 1909). Ele enumera 65 galerias de pintura pertencentes a amadores, ao Estado e à Intendência Municipal. Entre as mais destacadas está a do colecionador Fernando de Castro Paes Barreto com 130 obras em óleo de artistas nacionais e internacionais. O primor da coleção certamente seria a Leda do pintor renascentista Ticiano Vecellio (1488-1576), obra que contava, na época, com os avais de mais de 40 peritos e artistas, entre outros August Rodin, conseguidos pessoalmente pelo próprio intelectual na Europa.

A pergunta que se faz é: o que aconteceu com esta obra, bem como com as outras raridades que figuravam na coleção? Não é consenso entre os estudiosos, mas é provável que a coleção tenha sido vendida e se dispersado. Osório, em seu livro, destaca que o próprio Paes Barreto teria dito ao autor do livro que venderia ao Estado a sua preciosa coleção por um preço abaixo do estimado, se este se interessasse em comprá-la. Pelo que apuramos, essa compra nunca foi efetuada.

Os relatos aqui abordados são uma singela prova de que existia sim vida cultural em Belém e era até bem intensa para os moldes da época. Entretanto, a cidade logo sofreria com a queda das vendas da borracha e entraria em um período de crise, pois não se sustentaria apenas com a exportação da castanha-do-pará, das jutas e madeiras, produtos que faziam a fama da região naquele tempo.

Só que é preciso reconhecer: a cidade das mangueiras foi palco de acontecimentos relevantes quando se quer refletir sobre cultura. Nosso país produziu fora do eixo no que tange às artes visuais e alguns bolsões relampejantes do verdadeiro espírito inovador e moderno, tais como Santa Maria de Belém, têm que ser elencados.
O povo paraense queria viver bem, morar bem, viajar e se divertir, enriquecer não só o bolso, mas os olhos – e as artes plásticas e cênicas tinham papel preponderante nesse quesito. A população elitizada estava se preparando para ingressar no século XX e queria as melhores colocações. Se conseguiu, não cabe a nós julgar. Ficamos muito felizes em apontar alguns fatos e resgatar algumas imagens, diminuindo esse abismo que teima em existir entre o que foi realizado no Norte e o que é conhecido no Sul do país.

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  • [1] Dentre as muitas fotos reunidas em pesquisa para a confecção deste trabalho, encontramos na publicação As origens do Museu Paraense Emilio Goeldi – aspectos históricos e iconográficos a rara imagem que integra este texto. Chamamos a atenção para a disposição das peças que, pelo que se percebe, foram catalogadas, pois, aparecem próximas de etiquetas de identificação. Algumas peças já apresentam o devido espaçamento entre uma e outra, como é o caso das que estão nos recipientes de vidro, localizados mais para o alto da base piramidal que as sustenta; outras, como as rochas em si, estão apenas amontoadas em desacordo com a museografia atual. O acervo, à época, não conta com nenhum tipo de vitrine de proteção ou mesmo iluminação especial: os objetos ficam ao alcance do público. Na imagem também se lê o aviso: “pede-se não tocar nos objetos”.
  • [2] AZEVEDO, Carlos Custódio de (Belém, PA 1871 – 1944). Foi para Paris em 1891, estudou com os mestres Jules Lefebvre, Lucien Doucet, Marcel Baschet, F. Schowmer e Paul Sain. Em 1899, participou com a tela A fiandeira no Salon de Paris, a qual hoje pertence ao acervo do Governo do Estado do Pará. Expôs individualmente, em Belém, apenas duas vezes a primeira: em 1901, à rua João Alfredo e em 1906, no Salão Nobre do Teatro da Paz. Foi professor de desenho e de francês, lecionou no Colégio Paes de Carvalho e em outros de ensino da capital paraense.
  • [3] PARREIRAS, Antonio Diogo da Silva (Niterói, RJ, 1860 – idem, 1937). Pintor, desenhista e ilustrador. Inicia estudos artísticos como aluno livre na Academia Imperial de Belas Artes (Aiba), no Rio de Janeiro, em 1883, onde permanece até meados de 1884. Neste período frequenta as aulas de paisagem, flores e animais, disciplina ministrada por Georg Grimm (1846-1887). Por discordar do ensino oferecido, desliga-se da Aiba e segue seu antigo professor, passando a integrar o Grupo Grimm ao lado de Castagneto (1851-1900), Caron (1862-1892), Garcia y Vasquez (ca.1859-1912), entre outros, dedicando-se à pintura ao ar livre. Em 1905 está em Belém do Pará, realizando estudos na Floresta Amazônica e exposição. Nesta cidade contrai malária.
  • [4] WIDHOPFF, David O. Pintor e caricaturista. David Ossipovitcvh Widhopff (1867: Odessa, Rússia – 1933: Paris, França). 1894-96 – Esteve em Belém do Pará, contratado pelo governo estadual para dar aulas no Colégio Paes de Carvalho. Durante sua estada na capital paraense, criou a Escola de Belas Artes do Pará, o jornal humorístico O Mosquito e o primeiro suplemento de caricatura da imprensa local, no jornal A Província do Pará. 1897 – Retornou à Europa, fixando residência em Paris. Passou a colaborar com o Courrier Français, o Cocoricó e outros jornais satíricos da capital francesa. Tornou-se uma das figuras mais conhecidas da Belle Époque parisiense.
  • [5] FRANÇA, Julieta. (Belém, PA 1870 - ?) Artista – escultora. Recebendo inicialmente apoio de seu pai e realizando seus primeiros estudos com o artista Domenico de Angelis, parte em 1897 para a então Capital Federal com o objetivo de ingressar na Escola Nacional de Belas Artes. Concorre e é agraciada em 1889 com o Prêmio de Viagem ao Exterior – figurando, inclusive, como a única candidata feminina na seção de escultura. Viaja para Paris em 1900, permanecendo na Europa até 1905 como pensionista da União. Aluna destacada de Antoine Bourdelle, estuda na prestigiosa Academia Julian. França sofreu muitos revezes devido à inconsistência dos pagamentos de sua pensão e fatores como este a impediram de realizar suas esculturas como gostaria. Fundindo-as em bronze e em outros materiais de melhor resistência, não conseguiu o mesmo prestígio para com seu trabalho pela crítica brasileira no retorno ao país natal. Lançou um raro álbum: Souvenir de ma carrière artistique, obra de onde se conseguem extrair alguns relatos pessoais e fotos de suas obras. Terminou seus dias como uma modesta professora de artes. É considerada uma das primeiras escultoras brasileiras.

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Referências Bibliográficas

  • ALVES, Moema. Caminhos Trançados: a cidade de Belém e as exposições de arte no entresséculos. 19&20, Rio de Janeiro, v. VIII, n. 2, jul./dez.2013. Disponível em: http://www.dezenovevinte.net/arte%20decorativa/belem_exposicoes.htm . Acesso em: 16 jul. 2014.
  • BASTOS, Vera Burlamaqui; CRISPINO, Luís Carlos Bassalo; TOLEDO, Peter Mann de (Org). As Origens do Museu Paraense Emílio Goeldi – Aspectos Históricos e Iconográficos (1860-1921). Belém do Pará: Ed. Paka-Tatu, 2006.
  • BRAGA, Theodoro. História do Pará. São Paulo: Melhoramentos, 1931.
  • CINTRÃO, Rejane. Algumas exposições exemplares - as salas de exposição na São Paulo de 1905 a 1930. Porto Alegre: Ed. Zouk, 2011.
  • DAVID OSSIPOVITCVH WIDHOPFF. Disponível em: http://brasilartesenciclopedias.com.br . Acesso em: 16 jul. 2014.
  • DUARTE, Paulo Sérgio; RIBEIRO, Noemi. IN: GRACIE, Reila (Org). Julieta e Nicolina – duas escultoras brasileiras; a escultura feminina na passagem do século XIX ao XX. Rio de Janeiro: Editora Publicações, 2009, p. 132.
  • DUQUE-ESTRADA, Osório. O Norte (impressões de Viagem). Porto: Livraria Chardron de Lello & Irmão editores, 1909.
  • FARIAS, Edison. Tramas e dramas sobre a tela de Constantino da Motta. 19&20, Rio de Janeiro, v. II, n. 2, abr. 2007. Disponível em: http://www.dezenovevinte.net/obras/cm_tramas_imagens.htm . Acesso em: 16 jul. 2014.
  • FIGUEIREDO, Aldrim Moura. Quimera Amazônica: Arte, Mecenato e Colecionismo em Belém do Pará, 1890-1910. Pernembuco, n. 28.1, 2010. Disponível em: http://www.revista.ufpe.br/revistaclio/index.php/revista/article/view/101/71 . Acesso em: 16 jul. 2014.
  • LIVRARIA UNIVERSAL TAVARES CARDOSO. Disponível em: http://www.panoramio.com/user/899908 . Acesso em: 16 jul. 2014.
  • SARGES, Maria de Nazaré. Belém: Riquezas produzindo a Belle-Époque (1870-1912). Belém do Pará: Editora Paka-Tatu, 2000.
  • UNIVERSIDADE FEDERAL DO PARÁ. Texto do blog do Museu da Universidade Federal do Pará sobre Carlos Custódio de Azevedo. Disponível em: http://mufpa.wordpress.com . Acesso em: 16 jul. 2014.

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Postado em: quarta-feira, 25 de novembro de 2015 | 20:46 por Editoria RM

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