ITÁLIA, Veneza - Iniciado na quarta-feira, com a projeção do morno “The truth”, do japonês Hirokazu Koreeda, o 76º Festival de Veneza recebe neste sábado, em concurso, um dos filmes mais esperados do ano, “Coringa” (“Joker”), que atrai uma fila de nerds para a terra das gondôlas.


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Inspirado nas HQs da DC Comics, esse thriller é produzido pelo mítico Martin Scorsese (de “Taxi Driver”), com direção de Todd Phillips (da trilogia “Se beber, não case”), sobre o arquiinimigo do Batman. O Palhaço do Crime, que já contou com o talento de César Romero (na série do Homem-Morcego dos anos 1960), de Jack Nicholson (em 1989) e de Heath Legder (em 2008, numa atuação coroada postumamente com o Oscar de coadjuvante), dispõe agora do carisma de Joaquin Phoenix. Mas a versão que vai às telas é mais sombria que a encarnação do vilão nos quadrinhos, onde foi criado em 1940, por Jerry Robinson. De Veneza, “Coringa” vai para o Festival de Toronto, no Canadá, e estreia no dia 3 de outubro em circuito internacional. Desde quarta, vê-se pelas ruas de Veneza uma horda de fãs do personagem com camisetas que replicam suas feições na capa de uma graphic novel aclamada: “A piada mortal”, de Alan Moore.
“O Coringa nunca foi idealizado como um psicopata e sim como um palhaço que acredita ser um gênio do crime”, disse Robinson, numa entrevista de 2008, três anos antes de sua morte, dando a deixa para um conceito que Phoenix optou por subverter. "Arte é para desestabilizar", disse o ator ao Jornal do Brasil semanas antes de começar as filmagens de “Joker”. "Gosto de papéis que fogem do óbvio".

No Brasil, o filme de Todd Phillips sobre o Palhaço do Crime chega com versões dublados, cabendo a Hélio Ribeiro emprestar a voz a Phoenix. O astro americano botou no chinelo uma legião de atores que chegaram a ser cotados para o papel: Paul Bettany (o albino Silas de “O código Da Vinci”), Hugo Weaving (o Agente Smith de “Matrix”) e Crispin Glover (o George McFly de “De volta para o futuro”). “Desconstruir a figura clássica do herói de ação: essa tem sido a minha premissa... e eu embarco nela feliz, para poder subverter convenções do cinema", disse Phoenix ao JB, em Cannes, de onde saiu coroado com o prêmio de melhor interpretação masculina, em 2017.

Com a cabeça dividida entre o espaço de James Gray e seu virtuoso “Ad Astra” e as desilusões nupciais reveladas por Noah Baumbach no monumental “Marriage Story”, ambos exibidos nesta quinta, Veneza fabricou tempo, em sua agenda apertada, para celebrar a (merecida) consagração do ganhador do Leão de Ouro de 2018: “Roma”. Produção com a grife Netflix, o longa-metragem do mexicano Alfonso Curarón (“Gravidade”) foi eleito o Filme do Ano na votação realizada pela Federação Internacional de Imprensa Cinematográfica, a Fipresci. A honraria será entregue a ele durante a cerimônia de abertura do 67º Festival de San Sebastián, no dia 20 de setembro, na Espanha. A decisão veio do voto de 618 críticos de diferentes países.

Chamado de obra-prima pela “Vanity Fair”, “Roma” ganhou três Oscars em fevereiro: melhor filme estrangeiro, melhor fotografia e melhor direção. Fotografada (em P&B), montada, escrita, produzida e dirigida por Cuarón, com base em suas memórias juvenis, este drama sobre a atomização de uma família de classe média, no México dos anos 1970, correu algum dos maiores festivais de cinema do mundo, a partir de Veneza, como os de Toronto, Londres e Marrakech, totalizando 37 prêmios. Favorita ao Oscar, em múltiplas categorias, a produção vai ter exibições em tela grande em diferentes locais do mundo, incluindo no Brasil, no fim do mês, para valorizar sua potência visual, alimentando a visibilidade dos filmes do serviço de streaming em outras telas: espera-se o mesmo destino para “The Irishman”, que Martin Scorsese dirigiu para a Netflix, e para “Pinóquio”, animação de Guillermo Del Toro, em fase de desenvolvimento.

“É importante que a existência de um filme não se perca com o tempo. Quando foi que vocês viram um filme de Robert Bresson ou de Yasujiro Ozu numa sala de cinema pela última vez? E quando foi que viram um filme de um mestre do porte deles em outro suporte, doméstico?”, questionou Cuarón em sua passagem por Veneza, já garantindo que “Roma” seria exibido em salas comerciais e não só na Netflix. “É importante avaliarmos bem o destino dado a cada filme, a partir de suas especificidades. Este é um filme em preto & branco, falado em espanhol, calcado no drama e sem ferramentas de cinema de gênero. Que espaço será que ele teria em circuito? O importante dessa questão é defender que haja opções de como os filmes sejam vistos, de acordo com o tamanho deles”.

Embora andem grafando seu título por aí em minúsculo, “Roma” saiu, originalmente, como “ROMA”: o uso de letras maiúsculas é uma brincadeira com a palavra “amor”, virado às avessas pelas cacetadas da vida. Em seu novo e confessionalíssimo trabalho, Cuarón revive a crise familiar de uma química, Sofia (Marina de Tavira), cuja paz vai entrar em xeque em meio a viradas em sua rotina afetiva e em seu país. Tudo é narrado sob a ótica de sua empregada, uma jovem ameríndia, Cleo (Yalitzia Aparicio). “Eu tive uma babá índia que marcou a minha infância e este filme é uma recordação do que vivi com ela”, disse Cuarón, que vê seu trabalho ser comparado a “Amarcord” (1973), de Fellini, por sua dimensão memorialística.

Veneza chega ao fim do no dia 7 de setembro, com a entrega de prêmios e a exibição fora de concurso do drama anglo-italiano “The Burnt Orange Heresy”, de Giuseppe Capotndi, com o rolling stone Mick Jagger no elenco.

Fonte: Jornal do Brasil - Caderno B (Rodrigo Fonseca)

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