FRANÇA, Paris - Há cerca de cem filmes na seleção do 22º Rendez-vous Avec Le Cinéma Français, um fórum de promoção dos maiores sucessos recentes do audiovisual francófono, iniciado na quinta-feira em Paris, com espaço para a badalação de novos projetos.


'Le Sel des Larmes' (Foto: Reprodução)

Alguns já têm estreia europeia marcada, como é o caso de “O Sal das Lágrimas” (“Le Sel Des Larmes”), do veteraníssimo Philippe Garrel: nenhuma produção é mais falada por aqui do que a dele. Aos 71 anos, ele é encarando como um potencial concorrente ao Urso de Ouro da Berlinale 2020 (20 de fevereiro a 1º de março) com seu novo longa-metragem, previsto para entrar no circuito francês no dia 8 de abril, abordando uma história de amor cheia de percalços. Estima-se que se trata do trabalho definitivo do septuagenário cineasta, que inaugurou sua carreira com “Marie pela memória” (“Marie pour mémoire”,1967).

“Com sua engenharia complexa, avessa a modismos, o Amor carrega um componente político em si, que é a habilidade de desafiar interditos de classe e de cultura, representando, de modo selvagem, a permanência e a universalidade de sentimentos que não se limitam a cabrestos civilizatórios”, disse Garrel por telefone ao JB.

Em “Le Sel des Larmes”, o realizador de “A cicatriz interior” (1972) e “A fronteira da alvorada” (indicado à Palma de Ouro de Cannes, em 2008) fala de um estudante francês, Luc (Logann Antuofermo), siderado por seu velho pai (André Wilms), que se apaixona por uma jovem de origem africana, Djemila (Oulaya Amamra) em meio a uma mudança de cidade, para tocar seus estudos. Mas a paixão pela moça vai alterar sua rotina e liberar sentimentos que hão de abrir feridas em sua relação familiar.

“Em ‘Civilização e Barbárie’, Freud nos mostrou que certos códigos de conduta são exercícios sutis de dominação, linguagem de controle. O amor também inclui controle. Filmo para poder investigar essa condição de submissão e de exploração. Só o que eu posso dizer, por enquanto, é que se trata de um olhar honesto sobre a vida, sobre os sentimentos, sem compromisso com as demandas do mercado e atento às possíveis mentiras inerentes ao olhar histórico, falando da interseção entre corações. Cinema pautado pelo imaginário, para libertar, é o que eu busco”, disse Garrel, cujo maior sucesso é “Amantes constantes”, ganhador do prêmio de Melhor Diretor e de Melhor Fotografia no Festival de Veneza de 2005. “Meu filho, Louis Garrel, fez esse filme e trabalhou comigo em outros projetos. Fico feliz ao vê-lo trilhar seu próprio caminho como diretor, em paralelo a seu trabalho na atuação”.

Nesta sexta, a principal atração do Rendez-vous foi a passagem da diretora Justine Triet, de 41 anos, para falar do cult “Sibyl”, que rendeu a ela uma indicação à Palma de Ouro de Cannes. Nele, temos “a” estrela do momento no cinema francês, Virginie Efira (de “Um amor à altura”), que está nas páginas da edição de janeiro da revista “Cahiers du Cinéma” nas fotos do esperado “Benedetta”, de Paul Verhoeven, do qual será a protagonista. E Virginie gravita com elegância do trágico ao hilário no papel de uma terapeuta às voltas com uma paciente com os nervos em frangalhos: uma atriz (Adèle Exarchopoulos, de “Azul é a cor mais quente”) cujo namorado traiu sua confiança. Sibyl (Efira) precisa atender a moça no meio de um set de filmagem comandado por uma diretora enervada (a alemã Sandra Hüller, de “Toni Erdmann”) onde tudo ameaça dar errado. Inclusive a psicóloga. Indicada à Palma de Ouro, a produção é o trabalho de maturidade da realizadora de “Na cama com Victoria” (2016).

“Encontrei em Virginie uma grande amiga, mas também uma parceira que se põe à prova no set, aceitando se adequar à direção complexa que eu proponho a cada plano, buscando uma forma de expor a verdade e o mal-estar que existem por trás das aparências nas relações do dia a dia”, disse Justina ao JB. “Para funcionar, eu crio uma atmosfera de troca, que exige muito do meu elenco, mas que liberta ideias.

Também nesta sexta o evento conferiu, em sua sessão fechada para distribuidores e exibidores a comédia em tons fantásticos “Le prince oublié”, de Michel Hazanavicius. O ganhador do Oscar de melhor direção por “O Artista” (2011) assina o que pode ser “o” fenômeno de bilheteria francês de 2020, de carona o carisma de Osmar Sy (do já citado “Intocáveis”). Ele vive Djibi, contador de histórias capaz de inventar as fábulas mais surpreendentes para entreter sua filha de 7 anos. Nelas, ele sempre é um herói imbatível, um príncipe cheio de glórias. Mas a menina chega à adolescência e, cansada do arquétipo do pai perfeito, resolve criar suas próprias fantasias, nas quais Djibi já não é tão infalível assim. O problema é que a imaginação crítica da jovem começa a refletir na vida dele, com consequências nada agradáveis. O Rendez-vous segue até segunda, quando Costa-Gavras, o papa do cinema político, passa por Paris com “Adults in the Room”, uma reflexão sobre a crise na Grécia.

Fonte: Jornal do Brasil - Caderno B - Rodrigo Fonseca

Agenda

Seg Ter Qua Qui Sex Sáb Dom
1
2
3
4
5
6
7
8
9
10
11
12
13
14
15
16
17
18
19
20
21
22
23
24
25
26
27
28
29
30
31