BRASIL, São Paulo - “O maior conflito bélico internacional ocorrido na América do Sul, que opôs Brasil, Argentina e Uruguai, conformando a Tríplice Aliança, contra o Paraguai, marcou de forma indelével o reinado de Pedro II”, explica a antropóloga Lúcia Klück Stumpf, da Faculdade de Filosofia, Letras e Ciências Humanas (FFLCH) da USP, sobre a Guerra do Paraguai (1864-1870).

Imagem: divulgação/Jornal da USP

“Se nos momentos iniciais a guerra serviu para enaltecer o Império brasileiro e a figura de Pedro II, a longa duração do conflito acabou por dar forma às oposições que foram responsáveis, no limite, pela deposição da monarquia, levada a cabo em 15 de novembro de 1889. O final da guerra marcou, assim, o início do ocaso do Império.“

Passaram-se 150 anos, mas há muitas questões deixadas no cotidiano dessa batalha que resultou na morte de 280 mil paraguaios, na época a metade da população do País, e 120 mil soldados argentinos, uruguaios e brasileiros. Segundo a antropóloga, a ausência de consenso até hoje informa a magnitude do evento e a sua importância nos rumos da história nacional.

Pesquisadora de iconografia histórico e artística, Lúcia busca respostas no conjunto de imagens que impulsionaram a imprensa da época. “Além de sua importância histórica, a guerra contra o Paraguai se apresenta como um estudo de caso muito interessante para pesquisas de cultura visual, campo em que atuo. Isso porque a eclosão da guerra coincidiu, no Brasil, com o auge do desenvolvimento de novas tecnologias óticas e de impressão, que impactavam as artes e a indústria, no que chamamos, em referência ao famoso ensaio de Walter Benjamin, de era da reprodutibilidade técnica.”

“A guerra contra o Paraguai pode ser entendida como o primeiro acontecimento a contar com uma cobertura jornalística imagética, ou os primórdios do fotojornalismo no Brasil.”

Quando a guerra começou, ainda não havia tecnologia que permitisse a reprodução direta da fotografia pela prensa. “Dessa forma, o que a imprensa ilustrada do Rio de Janeiro experimentou, com destaque para a cobertura realizada pela revista Semana Ilustrada, editada por Henrique Fleiuss, foi o uso de fotografias servindo como base para as ilustrações realizadas por litógrafos.”

A liberdade artística e interpretativa dos artistas, na observação de Lúcia, fazia com que essa operação de tradução da fotografia ao desenho funcionasse como uma forma híbrida de reportagem visual, que unia a criação artística à fotografia, em imagens narrativas voltadas a representar acontecimentos reais. “A guerra contra o Paraguai pode ser entendida, dessa forma, como o primeiro acontecimento a contar com uma cobertura jornalística imagética, no que o pesquisador Joaquim Marçal de Andrade caracteriza como os primórdios do fotojornalismo no Brasil.”

Com a modernidade surgiram novas formas de olhar o mundo e novas possibilidades de acesso às imagens. “A guerra contra o Paraguai, por sua vez, propiciava a criação de imaginários. Desencadeou a produção de imagens de diferentes tipos e suportes em uma escala nunca experimentada antes, sendo tema de dezenas de pinturas de história e retratos produzidas por artistas da Academia Imperial de Belas Artes. Foi o principal assunto tratado pela imprensa ilustrada da corte e das províncias entre os anos de 1865 e 1870, além de ter sido documentada por diversos fotógrafos.”

A pesquisa de Lúcia já resultou na tese de doutorado “Fragmentos de Guerra: Imagens e Visualidades contra a Guerra do Paraguai (1865-1881)” defendida no ano passado no Departamento de Antropologia da FFLCH, sob orientação da professora Lilia Katri Moritz Schwarcz. A tese foi selecionada recentemente pela Latin American Studies Association (LASA) como a Melhor Tese de Humanidades 2020, recebendo o prêmio Antonio Cândido.

Lúcia Klück Stumpf é pesquisadora residente na Biblioteca Brasiliana Guita e José Mindlin (BBM) da USP, onde investiga a utilização de gravuras – ilustrações, mapas, fotografias – nos livros publicados no Império sobre a Guerra do Paraguai. É também pesquisadora colaboradora do Brazil Lab da Universidade de Princeton, nos Estados Unidos, onde realizou o estágio-sanduíche do doutorado enre 2016 e 2017.

“Os registros fotográficos seguiram os rastros de sangue deixados pelos exércitos aliados, desde o Brasil e a Argentina até o Paraguai."

“Fotógrafos brasileiros, argentinos e uruguaios, além dos europeus, registraram cenas tanto sangrentas como pitorescas, diretamente do front, ou ‘teatro’ das operações da guerra”, conta Adriane Costa da Silva, historiadora formada pela FFLCH e mestre pela Faculdade de Educação da USP. “Imagens registradas por fotógrafos profissionais e anônimos no local inovaram a cobertura da imprensa, com a publicação de fotorreportagens nos jornais da época.”

Segundo a historiadora, as fotografias revelam o cotidiano de civis e militares nas cidades da região platina, como Uruguaiana, Assunção, Humaitá, Lambaré e Luque. “Os registros fotográficos retratam cenas de paisagem, corpos de soldados mortos nos confrontos, campos de batalha, acampamentos militares, residências de oficiais, estações ferroviárias, igrejas e hospitais”, observa. Nas cenas registradas pelos fotógrafos figuravam tanto pequenos como grandes personagens. O fotógrafo Luigi Terragno, por exemplo, retratou Pedro II com trajes regionais, durante a viagem do monarca a cidades do Rio Grande do Sul, em 1865. Ao mesmo tempo, fotógrafos do estúdio Bate & Cia retratavam africanos escravizados e indígenas que lutaram nas fileiras brasileiras.”

Muitos fotógrafos, segundo as pesquisas de Adriane, eram viajantes europeus ou norte-americanos, que registravam tipos humanos e cenas pitorescas, para compor cartões postais ou álbuns, que eram comercializados no mercado brasileiro e internacional. “Os registros fotográficos seguiram os rastros de sangue deixados pelos exércitos aliados, desde o Brasil e a Argentina até o Paraguai. Entre 1864 e 1870, os fotógrafos atuaram nos principais campos de batalha, juntamente com os militares. Eles registram em imagens todas as fases do conflito, em cidades como Uruguaiana e Humaitá, no Brasil, Corrientes e Rosário na Argentina, Tuiuti, Passo da Pátria, Tuiu-cuê e Assunção, no Paraguai”, destaca Adriane. “Nem sempre é possível identificar quem é o fotógrafo ou estúdio por trás das câmeras. Há fotografias de Agostinho Forni, Carlos Cesar, Frederico Trebbi, José Ferreira Guimarães, Luigi Terragno. Mas, a autoria de muitas imagens ainda permanece no anonimato.”

“A narrativa de Taunay traz notícias de soldados brasileiros mortos pela epidemia de cólera e da derrota. Uma versão muito diferente da imagem gloriosa do quadro "Batalha de Campo Grande", de Pedro Américo.

Entre os jornalistas brasileiros incumbidos de cobrir a guerra do Paraguai estava Alfredo Maria Adriano d’Escragnolle Taunay, conhecido como Visconde de Taunay, título que recebeu de D. Pedro II. Era engenheiro militar, historiador, teatrólogo e músico, entre outras funções que o prestigiaram no Brasil Império. “Taunay participou de expedições militares entre 1865-1867 e 1869-1870. Seus escritos circularam na imprensa carioca”, conta a historiadora. “O célebre correspondente da Semana Ilustrada classificava como ‘documentário’ sua produção não-ficcional, tais como o diário, as cartas, os relatos de viagem e álbuns de gravuras.”

Adriane define os escritos do Visconde de Taunay como narrativas extremamente visuais. “São imagens verbais, cenas ou sequências de um roteiro para audiovisuais. Ele narra os episódios com enquadramentos utilizados em desenhos e fotografia”, explica. “Nas páginas de Semana Ilustrada, os leitores da corte eram transportados pelas cartas de Taunay para cenários compostos por paisagens e personagens daquelas paragens remotas. Parte dos textos jornalísticos do Visconde de Taunay foram reunidos por Affonso Taunay na coletânea Recordações de Guerra e de Viagem, com prefácio do cronista João do Rio.”

Entre as obras de Visconde de Taunay está o clássico A Retirada da Laguna, publicado diversas vezes por editoras diferentes e que hoje se encontra em domínio público, disponível para download gratuito. “A narrativa de Taunay traz notícias de soldados brasileiros mortos pela epidemia de cólera e da derrota. Uma versão muito diferente das imagem gloriosa no quadro Batalha de Campo Grande, de Pedro Américo, de 1871.”

Adriane atuou junto ao Laboratório de Pesquisa e Ensino de Ciências Humanas (Lapech) da Faculdade de Educação da USP. Em parceria com o Centro de Trabalho Indigenista (CTI) e Ministério da Educação, as pesquisas resultaram na publicação do livro História do Povo Terena, também disponível para download. “Dois capítulos do livro são dedicados à Guerra do Paraguai e seus desdobramentos. Relatam as aventuras de Visconde de Taunay, durante a sua viagem às aldeias terena no antigo Estado de Mato Grosso. E também narrativas indígenas sobre a Guerra do Paraguai, coletadas durante a pesquisa de campo nas aldeias, realizada pela equipe do Lapech e CTI.

“Até a guerra do Paraguai, nunca se tinham visto imagens de tropas do Brasil combatendo, muito menos no exterior."

“A partir da invenção do daguerreótipo, em 1839, impressão da imagem em metal, a fotografia deixou de ser apenas experimentação e tornou-se atividade profissional. Já a partir de 1842, daguerreotipistas norte-americanos anunciavam seus serviços no Brasil. Em 1847, o Almanaque Laemmert anunciou três oficinas especializadas no Rio de Janeiro”, explica André Amaral de Toral, doutor em História Social pela FFLCH. A técnica que permitiu a expansão da fotografia nas décadas de 1860 e 1870 foi a “dobradinha”, negativo de colódio úmido e cópia sobre papel albuminado. A elaboração de um negativo à base de colódio sobre chapas de vidro ou metal e a possibilidade de produção de múltiplas ampliações sobre papel agilizaram a produção e reprodução de registros fotográficos, permitiram um rentável aproveitamento comercial.

“O registro fotográfico da guerra do Paraguai contra a Tríplice Aliança foi, em termos gerais, uma continuidade do tipo de fotografia que se fazia na época. Mas foi, também, mais do que isso”, explica Toral. “A cobertura in loco e a força do assunto trouxeram maneiras inovadoras de se representar o conflito, o que colaborou para a constituição de uma linguagem fotográfica com características próprias em relação à pintura ou gravura do período dedicadas à guerra.”

Toral, artista visual e professor de Estética e Análise da Imagem na Fundação Armando Álvares Penteado (Faap), em São Paulo, cita a ascensão comercial da fotografia, um bom negócio no decorrer da Guerra do Paraguai. Conta que diversos estúdios ofereciam retratos dos governantes que formavam a Aliança e carte-de-visite de personagens políticos ou comandantes militares, vendidos separadamente. Nos jornais do Brasil e da Argentina, anunciavam-se descontos especiais para retratos de soldados. “Esse clima contagiou até o severo D. Pedro II, que, como muitos outros soldados, fez-se retratar em trajes militares, uniforme de gala e traje de campanha, em dois carte-de-visite feitos por Luiz Terragno em 1865, provavelmente em Porto Alegre. Procurando dar o exemplo como primeiro voluntário da pátria, o imperador brasileiro tentava se identificar com o cotidiano de soldados e oficiais, ao menos nos seus sinais exteriores, como vestir uniforme e tirar fotografias.”

Toral comenta que, durante a mobilização de tropas, os fotógrafos fizeram excelentes negócios, registrando os jovens soldados em seus flamantes uniformes. “Até a Guerra do Paraguai, nunca se tinham visto imagens de tropas do Brasil combatendo, muito menos no exterior. Na Argentina e no Uruguai já se conheciam daguerreótipos e fotografias de episódios militares da conturbada vida política desses dois países entre as décadas de 1840 a 1860. O público desses países podia ver, por meio das fotografias, não só as tropas nacionais, mas também o inimigo.”

A fotografia na Guerra do Paraguai trouxe mudanças significativas em relação às imagens produzidas nos tempos de paz. “Qualquer que fosse o assunto, a guerra como que transformou a qualidade do material produzido”, compara Toral. “Os fotógrafos abandonaram uma certa rigidez na composição das fotos em ambientes fechados e passaram, dadas as condições, a fazer retratos em campo aberto, em meio a tendas, baterias de canhões, cadáveres, barracas e soldados. Muitas fotos, infelizmente anônimas, fizeram do cotidiano do acampamento guerreiro o seu fundo. Temos fotos que, ao contrário do que era feito na época, cultivavam uma realidade sem retoques, com os personagens em situações apresentadas como espontâneas, não em poses rígidas.”

Fonte: Jornal da USP (Texto: Leila Yaeko Kiyomura Moreno/Diagramação: Cleber Siquette)

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