RIO DE JANEIRO, Rio de Janeiro - Construtora Calper quebra contrato, Prefeitura perde prazo de seguro, e obra do Museu Casa do Pontal na Barra fica paralisada a dois meses da inauguração.

 Maior acervo de arte popular do Brasil está novamente ameaçado e direção busca solução.

Deveria faltar pouco para o maior acervo de arte popular do Brasil desembarcar na Barra da Tijuca em um museu projetado pelos premiados Arquitetos Associados das galerias de Inhotim (MG), com paisagismo assinado pelo escritório Burle Marx. A construção deveria ter sido finalizada em julho último, e sua inauguração estava prevista para dezembro. No entanto, o não cumprimento do contrato por parte da construtora Calper – somado ao descaso da Prefeitura que não renovou o seguro da obra – paralisou o trabalho há três meses.

Obra da nova sede do Museu Casa do Pontal, na Barra da Tijuca, RJ (Foto: divulgação)

A nova sede do Museu Casa do Pontal está localizada no coração da Barra, em local acessível, que concentra cerca de um milhão de habitantes, a quatro quilômetros do Barra Shopping e da Cidade das Artes. Sua localização é fruto de negociação com a Prefeitura, pois o espaço original, no Recreio dos Bandeirantes, sofreu nos últimos anos graves inundações causadas pela construção de um megacondomínio na região, que colocaram em risco seu acervo. A Prefeitura reconheceu sua responsabilidade na questão, e cedeu um terreno na Barra da Tijuca por um período de 50 anos renováveis, e garantiu parte dos recursos para a construção da nova sede – R$ 7,5 milhões do total de R$ 11 milhões. Esta verba seria repassada pela empresa Calper, que estava em dívida com a Prefeitura. As obras começaram em junho de 2016 e estavam previstas para terminar em julho deste ano.

Entretanto, em abril deste ano, a diretoria do Museu foi informada que os aportes da obra seriam interrompidos. A Calper, responsável pelo pagamento, avisou que não faria o depósito das duas últimas parcelas do contrato nas datas acertadas – 15 de abril e 15 de maio – em um total de aproximadamente R$2 milhões. Em 2 de maio, o Museu informou o não pagamento à Prefeitura, e a falta de previsão de a construtora honrar o acordo. A direção do Museu alertou a Prefeitura sobre a necessidade de pedir a prorrogação do seguro, que garantiria a finalização da obra. Mas o seguro venceu, a Prefeitura perdeu os prazos e não fez a prorrogação, e desde então o Museu tenta uma solução para a finalização da obra.

“Já temos 70% da sede nova construída, faltam 30%, muito pouco. Este acervo guarda a preciosa história da arte popular do país. Foi muito esforço para conseguirmos um acordo com a Prefeitura, que não só reconheceu o impacto da urbanização do Recreio na sede atual como também cedeu o terreno e viabilizou recursos através da Calper”, diz Angela Mascelani, diretora do Museu.
Os gastos com a manutenção do canteiro de obras estão sendo arcados pelo Museu Casa do Pontal, e, em função disso, a sede atual terá o seu funcionamento reduzido a partir de novembro, e só abrirá de quinta a domingo.

“Infelizmente teremos que fechar às terças e quartas-feiras, pela primeira vez desde 1992. Vamos readequar as agendas das escolas e grupos turísticos que nos visitam, e esperamos que eles compreendam a situação emergencial, assim como o nosso público como um todo”, lamenta o diretor-executivo Lucas Van de Beuque.




Verão: aumento de risco para o acervo do Museu
Em função do megacondomínio que tem provocado inundações no Museu, o verão tornou-se um risco para o acervo. A paralisação da obra e o não cumprimento do prazo de inauguração são motivos de extrema apreensão para a diretoria do Museu, pois o cronograma evitaria que o acervo tivesse que enfrentar as chuvas de verão na sede atual.

As peças, feitas em materiais delicados, não podem entrar em contato com a água de forma alguma, com risco de perda total. No ano passado, a equipe precisou retirar, durante uma enchente em janeiro, cerca de 100 obras, uma por uma, em um delicado trabalho de sua manipulação. O Museu ficou fechado por 30 dias. E neste ano, em abril, a água invadiu as galerias, impossibilitando o funcionamento durante uma semana. Por causa da urbanização no entorno da atual sede do Museu Casa do Pontal nos últimos anos, o Museu passou a sofrer com enchentes por conta da impermeabilização do solo da região e pelo fato de seu terreno ter ficado abaixo da cota das novas ruas.

A COPPE/UFRJ recomendou, então, a construção de uma nova edificação em outro terreno para a segurança das cerca de 8.500 obras do mais importante acervo de arte popular do Brasil, parte dele tombada em 1991.

“Mesmo com um plano de emergência – comportas para evitar inundação, bombas para a retirada da água e gerador para que o plano possa ser efetuado apesar da falta de luz – as enchentes têm ocorrido em situações até de chuvas moderadas”, explica Lucas Van de Beuque. Angela Mascelani faz um alerta. “A situação é de emergência”, diz. “Não estamos de braços cruzados! Acionamos os responsáveis. E temos procurado parceiros que tenham sensibilidade para reconhecer este momento-chave no qual nos encontramos. Este acervo guarda a preciosa história da arte popular do país. Não se pode abrir mão deste patrimônio e de nossa identidade brasileira e nos deixarmos imobilizar. O momento é crítico!”, destaca.

A etapa seguinte – transferência do acervo da sede atual para a Barra da Tijuca e realização da nova exposição – tem apoio do BNDES e está garantida. Para isso, as obras de construção da nova sede precisam estar finalizadas.

Sobre o Museu Casa do Pontal
Inaugurado em 1976 pelo designer francês Jacques Van de Beuque, o Museu Casa do Pontal reúne o maior acervo de arte popular brasileira no país. Suas obras contam histórias e costumes do povo brasileiro, resultado de 40 anos de pesquisas e viagens de Jacques pelo Brasil. Seu acervo, tombado pela Prefeitura do Rio como referência cultural da cidade, é composto por mais de 8.500 peças de cerca de 300 artistas brasileiros, produzidas a partir do século 20. O Museu já realizou mais de 70 exposições do acervo no Brasil e em outros 15 países como: Alemanha, Suécia, Espanha, Portugal, França, Estados Unidos, Índia, entre outros. As exposições foram vistas por mais de dois milhões de pessoas.

A excelência da atuação do Museu vem sendo reconhecida por diversos prêmios e titulações recebidos ao longo de anos, entre elas a Ordem do Mérito Cultural do Governo Federal, no ano de 2005, e o Prêmio de Cultural do Estado, em 2010, além de contar com a certificação da UNESCO. Em 2013, o Museu Casa do Pontal foi apontado pela revista época com um dos três melhores Museus da cidade, junto ao MAR e MAM.

A Casa do Pontal possui a maior coleção de Mestre Vitalino no Brasil e no mundo. São 88 peças do artista, cujo trabalho integra acervos prestigiosos, como o do Museu do Louvre, na França, Frida Kahlo, no México, e Museu do Brooklyn, nos Estados Unidos. Durante uma visita, diante de uma peça do artista Zé Caboclo, o escritor português José Saramago, Prêmio Nobel de Literatura, se inspirou para escrever o romance "A Caverna". É possível apreciar as engenhocas criadas pelo artista fluminense Adalton. Uma delas é a obra “Carnaval”, que recria os desfiles de Sambódromo com movimento de bonecos e samba-enredo nos alto-falantes. Adalton tem obras como parte do acervo da Fundação Cartier, em Paris, e no Museu da Criança, em Miami. “Roda da Vida” é uma fatia de uma grande árvore totalmente esculpida em forma de mandala, sem nenhum recorte ou colagem, com influência da melhor estatuária africana. Seu autor, G.T.O., participou da Bienal de São Paulo (1969 e 1971), da Trienal de Bratislava, na Tchecoslováquia (1970), da Biennale Formes Humaine, em Paris (1974) e da Bienal de Veneza (1980), na Itália.

Fonte: divulgação por e-mail

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