MINAS GERAIS, Belo Horizonte - Dia 9 de julho inaugurou no Palácio das Artes, da Fundação Clóvis Salgado, a exposição 'Narrativas em Processo: Livros de Artista na Coleção Itaú Cultural'.


Exposição 'Narrativas em Processo', obra de Artur Barrio (Foto: divulgação/Coleção Itaú Cultural)

A mostra permanece aberta ao público de 10 de julho a 29 de setembro. Com curadoria de Felipe Scovino, projeto expográfico de Marcus Vinícius Santos e idealização do núcleo de Artes Visuais do Itaú Cultural, ela apresenta 46 das 125 obras deste acervo do Itaú em um percurso dos últimos 84 anos de história contemporânea e moderna da confecção de livros de artista.

“Acompanhando a criação de novos procedimentos para a concepção de livros de artista, a exposição constitui diversas relações para o leitor”, avalia Scovino. Uma delas, de acordo com ele, é a da pluralidade de ações não só com a literatura e as artes visuais, como também com o design, a política e em alguns momentos com a música. “Também se verifica uma leitura que não se esgota, que se desdobra redefinindo o papel do livro, do leitor e o do artista”, observa.

'Narrativas em Processo' já foi exibida em São Paulo, no Itaú Cultural; em Ribeirão Preto, no Instituto Figueiredo Ferraz; e em Curitiba, no Museu Oscar Niemeyer. Em cada cidade, a escolha e recorte das obras e seções sofreu mudanças. No Palácio das Artes chega renovada, com foco nos artistas brasileiros que constam neste acervo e na transição entre o moderno e o contemporâneo, especialmente quando o formato do livro ultrapassa as fronteiras do seu formato físico e conceitual, expandindo o lugar da palavra para além da página.

Doze obras que estão nesta exposição, não passaram pelas outras itinerâncias. Gravuras do Album Anamorfas (1980), de Regina Silveira; O Meu e o Seu – Impressões do nosso tempo (1967) e gravuras deste álbum, um duplo conjunto de Antonio Henrique Amaral. Novidades são, ainda, Caixa de Retratos (2010), de Marcelo Silveira; De Arte (2001) e A Simétrica (1995), de Waltercio Caldas. Encontra-se, também, de João Camara e Gastão de Holanda, Lito 70 (1969). Um grupo de artistas assina Gravuras Gaúchas (1952) – Ailema Bianchetti, Carlos Alberto Petrucci, Carlos Mancuso, Carlos Scliar, Danubio Villamil Gonçalves, Edgar Koetz Fortunato, Gastão Hofstetter, Glauco Rodrigues, Glenio Bianchetti, Plinio Bernhardt e Vasco Prado.

Ainda entre as obras apresentadas pela primeira vez nesta itinerância, encontram-se Dossiê Cruzeiro do Sul – Southern Cross Dossier (2017), de Lais Myrrha, Escravos de Jó (2016), de Aline

Motta, Fiação (2004), de Edith Derdyk, Das Baleias (1973), de Calasans Neto e Vinicius de Moraes e Gravuras do álbum das Baleias (1973) desta dupla e Caminhos (1984), livro com objetos e texto Alberon Soares e Otacílio Colares.

A mostra
“Esta não é uma exposição apenas sobre livros-objetos como se poderia imaginar quando veem à mente a expressão ‘livro de artista’”, observa Scovino. Em suas palavras, a mostra, amplia essa percepção ao envolver os atributos que cercam este tipo de obra de arte: reflete a produção de uma revista pelo próprio artista concebendo seu conteúdo e design gráfico; a manufatura de um livro ou a intervenção propondo uma ação conceitual ou física nesse suporte, ambos em caráter de tiragem limitada; a ilustração de uma publicação ou a produção de uma obra especialmente concebida para a sua capa; e a execução de um álbum de gravura.

Em Belo Horizonte, 'Narrativas em Processo: Livros de Artista na Coleção Itaú Cultural' se desdobra em seis núcleos – Paisagens, Rasuras, Livros-objetos, Uma escrita em branco, Álbuns de gravura e Design gráfico: um breve panorama sobre ilustrações no Brasil.

Paisagens exibe trabalhos que transportam o leitor a uma experiência sensorial por meio de efeitos de impressão. Os livros têm uma aspiração ao tátil e à textura na superfície ou nas imagens, dada a fusão de cores e formas utilizadas. Dão um panorama nesse sentido, obras como Paisagismo, de Roberto Bethônico, que acumula camadas, e sobreposições sobre o estado transitivo da natureza. Cria, assim, uma relação fecunda entre objeto e imagem.

Situação semelhante acontece em Memória Fotográfica, de Lucia Mindlin Loeb, onde o vazio – que também ocorre em Bethônico – incide na construção metafórica da imagem de uma câmara escura, já que o livro é atravessado em seu miolo por um “furo”. Entre outras obras exibidas neste núcleo, também são emblemáticas Páreo (2006), de Tatiana Blass, Partitura, de Sandra Cinto, e Buenos Aires Tour (2003), de Jorge Macchi.

O núcleo seguinte, Rasuras, apresenta livros que, ao receber intervenção plástica, tem a sua função semântica ampliada. As obras não respeitam o jogo de uma narrativa linear, a escrita não precisa ser compreendida e o que importa é a mensagem final, que tem até um certo grau de violência e gestualidade. Em Balada (1995) de Nuno Ramos, o livro espesso e de capa dura não contém palavras, mas sim uma perfuração profunda à bala transpassando-o brutalmente, do começo ao fim, servindo como o único signo de leitura da obra.

Mais uma obra representativa neste núcleo é As potências do orgânico (1994/1995), de Fernanda Gomes, Claudia Bakker, Artur Barrio e Adriana Varejão. Nesta mostra, estão apenas as obras de Fernanda Gomes e Adriana Varejão. O surgimento da escrita visceral é o que marca este núcleo, testificado ainda por meio de três obras de Artur Barrio – Uma Extensão do Tempo (1996), Caderno Livro (1997) e O Sonho do Arqueólogo.

Desde meados dos anos 1950, no Brasil, os poetas concretos vinham problematizando as noções de livro, palavra e leitor e este é o teor do núcleo Livros-objetos. Obras nele exibidas, como Muda Luz (1970), projeto de Plaza e Augusto de Campos, e Notassons – Notações Musicais e Visuais Aleatórias (1970-1992), de Montez Magno, demonstram a ideia de escrita expandida e desdobrada em novas poéticas e (des)continuidades.

Uma escrita em branco é um núcleo contemporâneo e apresenta obras, que quebram as expectativas de um conceito fechado de livro ou leitura. Eles são oferecidos ao público como matéria, densa, compacta e sensorial. Por exemplo, Devaneios – Utopias, livros em pó de tijolo e resina produzidos por Brigida Baltar em 2005 e Blocado: a arte de projetar, obra de Debora Bolsoni, de 2016, composto de ferro, papel e cola.

Em Álbum de gravuras encontram-se obras de artistas plásticos que tiveram atuação determinante na passagem do moderno ao contemporâneo no Brasil. Entre elas, Gravuras Gaúchas (1952) em que o icônico Grupo de Bagé, tais como Carlos Scliar, Glauco Rodrigues e Glênio Bianchetti, defendiam a popularização da arte. Há obras emblemáticas desse período também de Arthur Luiz Piza e Sérvulo Esmeraldo, este último importante artista cearense e um dos pioneiros da arte cinética no Brasil.

Em uma de suas obras paradigmáticas, Variations sur une courbe, Esmeraldo apresenta uma poética incomum em seu trabalho. O mesmo acontece em Bernard Palissy, de Piza, cujas sete gravuras originais também estão em exposição.

Sandra Cinto está presente com o livro objeto Partitura, inspirado em antigos cadernos de estudos musicais e reinventados com a técnica da litografia. De Antonio Dias, há um livro com imagens ampliadas de pele humana, Flesh Room with Anima.

Antonio Henrique Amaral e João Câmara, também presentes neste núcleo, exploraram, nos anos 1960, cada um a seu modo, percepções sobre o tema da identidade e, em especial, de uma linguagem popular extremamente vigorosa e crítica. Já a tônica na pesquisa de Regina Silveira é duvidar dos códigos de representação. Em Anamorfas (1980), presente na mostra, nota-se um registro significativo desse estudo que subverte os sistemas de perspectiva.

Finalizando o percurso, Design gráfico: um breve panorama sobre ilustrações no Brasil desenha um caráter historiográfico e narrativo ao exibir as capas e as mais diversas ilustrações para livros em tiragem limitada feitas por artistas plásticos. Este núcleo traz à tona a importância do design gráfico, até chegar a trabalhos contemporâneos mais recentes, que problematizam o chamado livro-objeto em obras de Augusto de Campos, Waltercio Caldas e Brígida Baltar. Inclui a poética da literatura de cordel em obras de Raimundo de Oliveira e de Calasans Neto – e aquarelas feitas à mão por Cicero Dias para Casa Grande & Senzala.


Exposição 'Narrativas em Processo', obra de Antonio Dias (Foto: divulgação/Coleção Itaú Cultural)

Coleção Itaú
As peças desta exposição pertencem ao acervo do Banco Itaú, mantido e gerido pelo Itaú Cultural. Formado por recortes artísticos e culturais que abrangem da era pré-colombina à arte contemporânea, cobre a história da arte brasileira e importantes períodos da história de arte mundial. A coleção começou a ser criada na década de 1960, quando Olavo Egydio Setubal adquiriu a obra Povoado numa Planície Arborizada, do pintor holandês Frans Post – agora exposta no Espaço Olavo Setubal, que ocupa o 4º e 5º andares do Itaú Cultural, em São Paulo, na exposição permanente dos recortes Brasiliana e Numismática também pertencentes a este acervo.

Atualmente formada por mais de 13 mil itens, a coleção reúne pinturas, gravuras, esculturas, fotografias, filmes, vídeos, instalações, edições raras de obras literárias, moedas, medalhas e outras peças. Trata-se da oitava maior coleção corporativa do mundo e a primeira da América do Sul, segundo levantamento realizado pela instituição inglesa Wapping Arts Trust, em parceria com a organização Humanities Exchange e participação da International Association of Corporate Collections of Contemporary Art (IACCCA).

As obras ficam instaladas nos prédios administrativos e nas agências no Brasil e em escritórios no exterior. Recortes curatoriais são organizados pelo Itaú Cultural em exposições no instituto e exibidas em itinerâncias com instituições parcerias pelo Brasil e no exterior, de modo a que todo o público tenha acesso a elas.

Serviço
Narrativas em Processo: Livros de Artista na Coleção Itaú Cultural
Período expositivo: 10 de julho a 29 de setembro de 2019
Grande Galeria Alberto da Veiga Guignard / Palácio das Artes
Av. Afonso Pena, 1537 – Centro – BH/MG
Horário: terça-feira a sábado, das 9h30 às 21h; domingos, das 16h às 21h
Entrada Gratuita

Informações para o público: (31) 3236-7400
www.fcs.mg.gov.br

Fonte: SEC MG

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