RIO DE JANEIRO, Rio de Janeiro - Com uma literatura de excelência incontestável e estilo inimitável, Clarice Lispector se consagrou como uma das maiores escritoras de língua portuguesa de todos os tempos.


Clarice Lispector escrevia crônicas, aos sábados, para o JB nos anos 1960 e 70 (Foto: Divulgação)

Em comemoração ao seu centenário, em dezembro de 2020, a editora Rocco lança ainda este ano novas edições de suas obras, que contarão com capas e conteúdo extra inéditos. Os livros estão sendo lançados a partir de novembro, iniciando com as publicações da década de 1940 –“Perto do Coração Selvagem” (1943), “O Lustre” (1946) e “A cidade sitiada” (1949).

Assinado pelo premiado designer Victor Burton, o novo projeto gráfico dos livros traz nas capas recortes de telas feitas por Clarice, que pintou 22 quadros ao longo de sua vida. Na orelha dos títulos, o leitor encontrará a íntegra da tela retratada na capa, como a obra “Sem título”, que ilustra o seu romance de estreia “Perto do Coração Selvagem” e pertence ao acervo da escritora Nélida Piñon, e o quadro “Escuridão e Luz: centro da vida”, que aparece na reedição de “O Lustre”. Na contracapa, a foto de Clarice corresponderá à década em que cada livro foi publicado originalmente.

Para além das capas, os livros ganham renovação do conteúdo editorial com posfácios escritos por grandes especialistas da literatura Clariceana, como Nádia Battella Gotlib, Clarisse Fukelman, Benjamin Moser, Aparecida Maria Nunes, Ricardo Iannace, Marina Colasanti, Eucanaã Ferraz, Teresa Montero, Arnaldo Franco Junior e próprio filho da autora, Paulo Gurgel Valente, que excepcionalmente escreverá sobre seu último livro, “A hora da estrela”. O cineasta Luiz Fernando Carvalho, que está dirigindo nova adaptação da obra de Clarice (“A Paixão Segundo G.H.”), com estreia marcada para 2020, também assina um dos textos finais.

De acordo com o editor de Clarice Lispector na Rocco, Pedro Vasquez, a opção pelo uso de posfácios ao invés de apresentações ou textos introdutórios foi proposital com a preocupação de não dirigir ou tutelar a leitura, permitindo que o leitor aprecie o livro livremente. “Ao final do volume, a partir do texto dos especialistas, é possível contemplar a obra com outros olhos, sob um novo ponto de vista. O posfácio funciona, portanto, não como um guia de leitura e sim como um instrumento de expansão das possibilidades de interpretação, que, longe de direcionar ou restringir a interpretação do texto, multiplica as possibilidades de entendimento”, explica Vasquez. “Clarice tem uma popularidade cujo público não para de se expandir, apesar dela ter falecido há quatro décadas. Sem dúvida alguma Clarice está mais atual do que nunca, encontrando mais ressonância no coração dos leitores de hoje do que naqueles do seu tempo, quando a sociedade brasileira era bem mais acanhada do que a contemporânea”, completa.

Clarice foi uma mulher à frente de seu tempo. Seu primeiro livro “Perto do Coração Selvagem” causou grande impacto no cenário literário brasileiro. Com 23 anos incompletos e cursando Direito na Universidade do Brasil (atual UFRJ), ela se distanciava da literatura da época, dominada pelo regionalismo e o realismo, apresentando um estilo singular de escrita. Seu segundo romance, “O Lustre”, publicado em 1946, é um dos menos conhecidos do grande público, mas considerado por especialistas um vislumbre do poder da narrativa de Clarice. Um livro que se passa quase que inteiramente no campo do pensamento da personagem principal e apresenta diversas camadas de interpretação. Para fechar o conjunto de livros que Clarice escreveu antes dos 30 anos, “A Cidade Sitiada” fala da transformação de uma menina em mulher e de uma comarca em metrópole, sendo considerada um ponto de mutação que anuncia a extraordinária liberdade criativa da autora presente em suas obras seguintes.

Conheça os três primeiros livros de Clarice Lispector
Perto do Coração Selvagem (1943)
“Perto do coração selvagem” foi a estreia literária de Clarice Lispector, quando a autora tinha apenas 22 anos de idade, e causou grande impacto, suscitando artigos elogiosos de críticos e escritores. Esse foi um ano fundamental na vida de Clarice: além de publicar o primeiro livro, ela obteve a cidadania brasileira, casou-se e diplomou-se em Direito. O posfácio é de Nádia Battella Gotlib, autora da Fotobiografia de Clarice, editada pela EDUSP.

A leitura é caleidoscópica. A protagonista ora tem uma cor, ora outra, conforme o momento ("real" ou onírico). As cores dançam no enredo misturado ao cenário e às sensações da menina-mulher-amante. Joana desfila na vida dos outros personagens, destilando o veneno de víbora, instilado com ironia e respostas cruéis diante dos fatos. A leitura também é lúdica, quando o leitor tenta adivinhar o que a autora preparou páginas adiante e se surpreende com o que presencia.

O Lustre (1946)
“O lustre” é das obras mais difíceis de Clarice e, provavelmente, o menos conhecido. A narrativa é claustrofóbica, com a ação ocorrendo mais na mente dos personagens do que no mundo externo. Teve recepção crítica morna, o que entristeceu a autora. O posfácio é de Parul Sehgal, crítica literária do New York Times.

Em “O lustre” a sensação de inquietude é ainda mais intensa. Trafega-se, a maior parte do tempo, pelo mundo interior da protagonista, Virgínia, desde sua infância numa fazendola em um remoto vilarejo do interior até a vida adulta numa cidade grande e solitária. Clarice não permite ao leitor jamais ter completo acesso ao que se passa do lado de fora — a não ser na crua e, talvez, surpreendente cena final. No universo subjetivo da escritora, a única clareza está nos sentimentos. Virgínia ama seu irmão, Daniel, sua alma gêmea, seu senhor. Virgínia ama seu amante, Vicente, a quem conhece tão pouco... A história é contada como num jogo de luzes e sombras, cada parágrafo permitindo apenas antever, de relance, a força sufocante de tanto amor.

A Cidade Sitiada (1949)
“A cidade sitiada” foi escrito durante os três anos que Clarice viveu em Berna, quando seu marido trabalhava no consulado brasileiro local. Ela sentia-se melancólica, solitária e oprimida pelo silêncio da capital suíça. Talvez pelo fato de que a cidade é majoritariamente germanófila e Clarice, que dominava bem o inglês e o francês, não falava alemão.

A autora transferiu suas aflições e sentimentos pessoais para a protagonista, Lucrécia Neves, “mulher sitiada” que sentia-se sufocada no insípido subúrbio de São Geraldo. Assim que terminou de escrever o livro, Clarice rumou para a maternidade, para ter o primeiro filho, Pedro. O posfácio é de Benjamin Moser, inédito em Português, traduzido da edição norte-americana desta obra por ele coordenada.

Fonte: Caderno B - Jornal do Brasil

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