Larissa Altemar [i] 

Danira Silva [ii] 

Para falar das possibilidades em Educação Museal, no que se refere às questões indígenas, é necessário compreender qual o objeto dessa prática de educação: as exposições de museus. Retomando as origens, do que tradicionalmente entendemos como museus, é possível identificar os discursos que acompanham o pensamento ou a produção intelectual ocidental e que atravessam, e por vezes definem, a maneira como as questões indígenas são abordadas nas expografias. 

Ao nos aproximarmos do tema percebemos que as coleções etnográficas, seus discursos e modos de exposição rendem uma boa referência, pois, segundo José Reginaldo Gonçalves (2007), as coleções etnográficas são boas metáforas para se entender os marcos e características da produção antropológica e etnográfica, tendo em vista suas diferenças, no século XIX e início do século XX. Citamos o exemplo da antropologia pois ela tradicionalmente contribui na produção de conhecimento sobre “o outro” - tradicionalmente os povos originários das Américas, África e Oceania - que, nesse caso, equivale às formas de organização social dos diversos povos indígenas do Brasil. Assim, artefatos em coleções de museus receberam uma narrativa, que conta com todo aparato de apreensão de mundo de uma cultura. No fim, ao falarem da cultura do “outro” dizem, também, bastante de sua própria ontologia.

Assim, coleções etnográficas, sem dúvida, contribuíram para o conhecimento de outros povos ou para a difusão desses conhecimentos, e uma vez expostas nos museus, serviram como documentação sobre outras civilizações. No entanto, a episteme ocidental vem carregada dos seus valores e isso incide sobre o discurso que se faz sobre “o outro”. Desse modo, os museus etnográficos, a depender do seu momento histórico e modos de aquisição de acervo, podem ter configurado disputas de poder assimétricas, nos quais objetos tirados dos seus contextos podem ter gerado tanto discursos quanto situações inconvenientes para aqueles que os produziram. Ou seja, tradicionalmente, museus e suas exposições servem a um discurso unilateral, isso para nos deter em coleções etnográficas antropológicas. Se nos direcionarmos para museus cuja preocupação passa pela preservação, memória e história de um país, ainda encontramos outras clivagens do problema museu. 

As instituições museais foram importantes para o fortalecimento de um ideal de nação fornecendo um discurso de identidade cultural reunida em um território. Sobre isso, Paul B. Preciado (2017) fala sobre os museus enquanto  "máquinas performativas” e com essa expressão pretende dizer que museu é um aparato de construção de subjetividade. Em seu argumento o museu não representa sujeitos de um país ou região. O museu, na verdade, constrói a ideia desse sujeito que diz representar e, por isso, é um aparato, também, ideológico. Nesse sentido, as instituições museais, representam ficções políticas privilegiando contextos históricos e narrativas, que por fim reforçam um discurso de identidade.

Não raro, o apelo discursivo dos museus, sobretudo mais tradicionais, trazem a perspectiva colonial, uma vez que atualizam, nas escolhas narrativas, as relações assimétricas de poder do passado de colonização. Mas a constatação desses discursos não exclui a possibilidade que as instituições sejam descolonizadas. Outras iniciativas de curadoria ou ações educativas, por exemplo, podem ser caminhos para a apropriação crítica das instituições sobre sua história e acervo, sobretudo, as mais tradicionais. No entanto, subverter a lógica de uma instituição que tem suas bases em um pensamento, que serviu, durante séculos, a empresa colonial e seus desdobramentos, é tarefa cuidadosa.

Daí a pertinência de fazer um exame mais detido de alguns pressupostos e premissas que essa tentativa de descolonizar o museu pôs em jogo, para assim identificar os pontos cegos e as zonas de conflito que vêm misturados com as boas intenções, se é que se quer resgatar alguma possibilidade crítica para aqueles, em vez de reforçar as categorias e relações de poder que supostamente se procura desarticular. (COCOTLE, 2019 p. 04)

A perspectiva decolonial serve-nos de inspiração e nos parece uma boa saída ética para tratar de temas que cercam povos que há tanto foram colocados, em nosso esquema ontológico, em uma posição de subalternos. Para tanto, faz se necessário compreender que isso se dá enquanto exercício contínuo e complexo exigindo transpor a lógica que permeia as instituições desde a sua criação. 

Brulon (2020) através do pensamento que orienta a museologia, compreende entre outras coisas que existe uma lógica que separa corpo e mente, colocando o discurso do museu sempre em função do objeto ao invés do sujeito. Nesse sentido, pretende argumentar que para se descolonizar o pensamento museológico é preciso priorizar os sujeitos. 

Algumas instituições têm pensado e reformulado suas narrativas para contar em outras perspectivas. É o que fazem, para citar exemplos do tema que queremos cercar, os museus que, ao invés de trazer objetos pertencentes dos povos indígenas, enquanto coleções etnológicas, fazem o trabalho de curadoria junto aos povos, de modo que seus interesses em contar sobre os objetos sejam a tônica da narrativa da exposição.

Além disso, esses espaços propõem ações para que se ocupe o museu com escolhas que favoreçam os interesses dos povos, ou os donos das culturas das quais fazem parte os objetos em exposição. Ou seja, algo para além de “dar voz” é fazer das instituições um lugar onde as populações subalternizadas possam se apropriar e dizer elas mesmas ao não-indígena sua perspectiva.

As mudanças na orientação do pensamento museológico, em meados do século XX, refletiram sobre as experiências nas instituições mais tradicionais, bem como, abriram a discussão para criação de outras museologias. É o caso, por exemplo, do que ocorreu com o primeiro museu indígena do Brasil em inícios da década de 1990, o Museu Magüta.

O Museu Magüta é concebido em colaboração com setores de etnologia do Museu Nacional, uma instituição sabidamente tradicional, mas que na ocasião ajudou a organizar o acervo e pensar exposições junto às lideranças Ticuna. O museu foi instalado na cidade de Benjamin Constant, no Amazonas, em um momento delicado para os Ticuna. 

Outras instituições mais tradicionais, como o Museu do Índio no Rio de Janeiro, que possui um acervo etnográfico, com um histórico associado às instituições de ordem tutelares, cedem espaço para apropriações dos sujeitos - coletivos indígenas. Embora tanto o Museu Nacional, quanto o Museu do Índio continuem sendo museus dentro da lógica que separa os sujeitos dos objetos - parafraseando Bruno Brulon (2020) - eles abrem algumas possibilidades para que as populações indígenas possam se apropriar da sua pesquisa, acervo, documentação (CURY, 2016). Diante de muitos esforços e conflitos, que predaram línguas e culturas inteiras, fez se necessário recuperá-las pelos dispositivos da mesma sociedade que os destruiu. Assim, ir aos arquivos e frequentar universidades, são formas de conseguir reconstruir históricos de culturas indígenas, ao modo do não-indígena, para poder forjar armas políticas para cortar os instrumentos de subjugação construídos ao longo dos séculos e que nos formaram enquanto um país. 

A exemplo do Museu Magüta, outras musealizações e apropriações foram sendo feitas pelas comunidades historicamente subalternizadas. Museus, casas de cultura e centros culturais, dentro das comunidades, são experiências museológicas protagonizadas pelos donos dos objetos, fazendo com que se apropriem desses dispositivos-discursos e ganhem mais um instrumento para as disputas de poder. Com isso, dispõem-se de maneira mais interessante ou conveniente para comunicar para dentro da comunidade, para os mais jovens, partilhando e fortalecendo o coletivo. Desse modo, os museus indígenas funcionam enquanto ferramentas políticas, uma vez que tem potencial de legitimar sua memória coletiva, além de ser um veículo de informação e um espaço educativo (NASCENTE e ABREU, 2018) 

Aos museus, enquanto dispositivos de discursos, podem caber ainda mais numa problematização no que tange às questões indígenas. Por muito tempo a nossa narrativa enquanto país, uma “comunidade imaginada” [1], que teve seu início com a chegada dos europeus, privilegiou os ocorridos ligados, de maneira ampla e demasiado genérica, aos portugueses e suas empresas. De modo que, pouco se sabe ou se guardou sobre as histórias dos contatos [2]. Os museus enquanto dispositivos discursivos e, ao mesmo tempo, produto dessa mentalidade reproduzem, em certa medida, as ausências sobre os povos nativos brasileiros.

Nesse sentido, cabe apontar que não é necessário que o tema do acervo seja etnológico ou trate especificamente sobre algum povo ameríndio para que a questão indígena esteja presente em uma exposição. O apagamento das trajetórias dos povos ameríndios (des)aparecem em um discurso expográfico no qual a ausência diz muito mais sobre nosso passado colonial. A sobreposição da história do colonizador sobre a do colonizado é evidenciada nos silêncios ou, até mesmo, na falta de dados e documentos para se expor. 

Enquanto profissionais do Programa Educativo do MMGV, identificamos discursos informativos que se apropriam de informações atualizadas e colocam os grupos mineiros no mapa de Minas Gerais. Para dialogar com o momento presente, ressalta-se que os “índios de Minas Gerais estão vivos”. Essa afirmação, aparentemente óbvia, presente na sala Povos Mineiros, precisa ser enfatizada, para evitar o apagamento desse povo. Ao mesmo tempo em
que os coletivos indígenas aparecem no presente e reafirmam o lugar que ocupam na geografia mineira atual, ainda se rascunham enquanto ocupantes dessa paisagem. Além disso, ficam invisíveis no passado, no qual o destaque são os grandes feitos dos inconfidentes, das cidades do ciclo do ouro e a riqueza cultural dos espetáculos.

Na sala Caminhos e Descaminhos os indígenas aparecem pontualmente, algumas vezes quase escondidas dos visitantes, em cima de uma estrutura onde o que chama atenção são vídeos cuja narrativa coloca foco na ocupação em decorrência da corrida do ouro. Nos mapas que recobrem as paredes do espaço, as imagens dos indígenas aparecem intercaladas com imagens de negros e negras escravizados ou libertos, tropeiros e eclesiásticos. Em uma sala na qual o foco é a espacialidade de Minas Gerais pouco se evidencia as ocupações dos povos originários e o foco se dá na extração do minério e na formação de vilas e arraiais em torno dessa dinâmica. O que nos leva a refletir: como seria um mapa que mostrasse a ocupação indígena na Minas Gerais do século XVIII e XIX? 

Para pensarmos em alternativas para tratarmos de assuntos ligados às questões indígenas é importante ter em mente que as instituições museais, assim como a mentalidade nacional, excluem e invisibilizam as histórias dos povos indígenas e sua influência na nossa cultura. Assim, é importante observar os discursos que sobrevivem nas instituições e também no imaginário brasileiro.

A nossa preocupação, enquanto profissionais de um setor Educativo de museu, está em como desenvolver modos de sensibilizar e criar espaços dialógicos para tratar desse tema de modo a fazer justiça às histórias e culturas diversas neste sítio, que aprendemos a chamar de Brasil. Pensamos que esse esforço já vem sendo organizado pelos programas educativos, tendo em vista que são setores inspirados na Sociomuseologia, que até certo ponto, caminha em direção a esse debate. Porém, se se espera uma virada radical dos museus, enquanto instituições integralmente envolvidas no objetivo de incluir mais subjetividades, desconfiamos que é melhor que o faça de modo que envolva outras instituições e políticas.


[i] Larissa Altemar - Mestre em Educação e Inclusão Social, Licenciada em Teatro, Pedagoga e pós- graduanda em Direitos Humanos e questões sociais. Atualmente é Assistente Pedagógica no MMGV e é integrante do Coletivo Geral Infâncias.

[ii] Danira Silva - Mestranda em Ciências Sociais, Graduação em Ciências Sociais. Atua como educadora no Educativo do MMGV.

[1] Ver ANDERSON, Benedict. Comunidades imaginadas: reflexões sobre a origem e a difusão do nacionalismo.

[2] Entendemos por história do contato a documentação e narrativa do início da relação entre povos indígenas e a sociedade não indígena. A história do contato vai variar do período da colonização no Brasil até outros períodos mais recentes.


Referências

  • BRULON, Bruno. Descolonizar o pensamento museológico: reintegrando a matéria para repensar os museus. Anáis do Museu Paulista: São Paulo, Nova Série, vol. 28, 2020.
  • COCOTLE, Brenda Caro. Nós prometemos descolonizar o museu: uma revisão revisão crítica da política museal contemporânea. MASP Afterall: Arte e descolonização, São Paulo, 2019. Disponível em: https://masp.org.br/arte-e-descolonizacao Acesso: em Fevereiro de 2020.
  • CURY, Marília Xavier. Introdução In: Museus indígenas - Saberes e ética, novos paradigmas em debate. Marília Xavier Cury (Org) III Encontro paulista de questões indígenas e museus. IV Seminário Museus, Identidades e Patrimônio Cultural. São Paulo: Secretaria da Cultura, ACAM Portinari, Museu de Arqueologia e Etnologia da Universidade de São Paulo, 2016.
  • FREIRE, José Ribamar Bessa. Museus indígenas, museus etnográficos e a representação dos índios no imaginário nacional: O que o museu tem a ver com educação? in MUSEUS E INDÍGENAS. Saberes e ética, novos paradigmas em debate, Marília Xavier Cury, organizadora. São Paulo: Secretaria da Cultura : ACAM Portinari : Museu de Arqueologia e Etnologia da Universidade de São Paulo, 2016.
  • GONÇALVES, José Reginaldo Santos. Coleções, Museus e teorias antropológicas: Reflexões sobre conhecimento etnográfico e visualidade. In: Antropologia dos objetos : coleções, museus e patrimônios / José Reginaldo Santos Gonçalves. Rio de Janeiro, 2007.
  • NASCENTE, Lívia da Silva e ABREU, Regina. Museus e povos indígenas: novas formas de comunicação museológica no século XXI. In: Memórias e Patrimônios Indígenas: Conquistas e Desafios. Regina Abreu e José Ribamar Bessa Freire (Org).Curitiba: editora CRV, 2018.
  • PRECIADO, Paul B.. Cuando los subalternos entran en el museo: desobediencia epistémica y crítica institucional. Curso de Cultura Contemporánea “Fuera de foco”. MUSAC, 2017.

 

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