Eliane Vilela Antunes [1]

“Aquele que faz o seu melhor, faz tudo o que se pode esperardele”
Helena Blavatsky [2]

Tudo começou com um sonho do visionário empreendedor de origem espanhola, Francisco Serrador Carbonell [3] (Valência, 1872 – Rio de Janeiro, 1941). Este ousado empresário vislumbrou nos terrenos vazios, onde durante muitos anos estivera assentado o Convento da Ajuda, de 1750 até a sua demolição em 1911, uma espécie de Broadway Carioca, inspirado na original, localizada em Nova York, com seus “skyscrapers”, recheados de espaços de entretenimento modernos, tais como cinemas e teatros monumentais, cafés e lojas, escritórios..., tudo o que uma cidade cosmopolita deveria ter. Por um tempo,o espaço aberto pela demolição, foi subaproveitado por pequenas feiras, parques e quermesses improvisadas, até que o capitalista Vivaldi Leite Ribeiro comprasse o terreno por 5000 contos. (ABC, 07/04/1928; p.2).

Daí em diante, Serrador, que já era o presidente da Companhia Brasil Cinematográphica [4], alia-se ao capitalista Vivaldi e sai em busca de outros investidores para viabilizar a construção dos primeiros arranha-céus da cidade, que abrigariam cineteatros e locais de fruição para o deleite da sociedade carioca.

Seu primeiro projeto era bem ambicioso, e previa além dos edifícios providos de cinemas, teatros, lojas, escritórios e até hotel, incluía também um pavilhão de patinação e um anfiteatro, que ele denominou de coliseu.

Conseguiu o aporte financeiro de alguns poucos empresários brasileiros listados a seguir: Luís da Rocha Miranda, Fortunato A. de Andrade, Afonso Vizeu, Eugenio Honold, Antonio Ribeiro Seabra, Marc Ferreze Marcolino Ribeiro de Carvalho.Dessa forma, Serrador se viu obrigado a adaptar o seu grandioso sonho à realidade que lhe foi imposta.

Contando com a colaboração financeira desses empresários, em 26 de abril de 1925 inaugurou o Capitólio, primeiro edifício de uma série de quatro, com cineteatros no térreo, seguido do Glória e do Império ainda no mesmo ano, e do Odeon, em 1926. A materialização do sonho de Serrador continuaria ainda na década de 1920, com o novo Cine Pathè e o Palácio-Teatro, seguidos de mais alguns, nos anos 30 e 40.

Em 1924, a revista Para Todos publicou em suas páginas, texto sobre o futuro edifício do cineteatro Glória, nova construção em cimento armadode Eduardo Pederneiras esua empresa, incluindo uma imagem da fachada, que apresentava um pavimento a menos do que foi materializado em 1925, além disso, nesse projeto o último pavimento era encimado por platibanda.

No periódico Revista da Semana, onde também foi publicado o desenho da fachada do primeiro projetoda futura edificação, o engenheiro e construtor Pederneiras já tinha o seu trabalho reconhecido.

E, como se vê, um projeto grandioso e que atesta exuberantemente e competência, aliás, já sobejamente comprovada, do architecto que o traçou, o ilustre engenheiro dr. Eduardo V. Pederneiras. É de edifícios imponentes, como esse, que carece o Rio de Janeiro para perder de vez os velhos aspectos coloniaes, que ainda o afeiam e colocar-se definitivamente à altura das grandes metrópoles do mundo. Nesse sentido é já notável a acção do dr. Eduardo V. Pederneiras, a cujo talento de architecto e constructor deve a nossa capital varias e esplendidas realisações. Só o facto de lhe ser confiada a execução da nova e monumental obra planejada é, por si só, uma garantia segura de perfeição com que vale a pena ser levada a termo. (Revista da Semana, 29/09/1923, p.13)

No projeto que foi efetivamente executado o antigo edifício Glória foi estruturado em nove andares. No térreo estabeleceram-se o Cineteatro Glória, aberto ao público no dia 03 de outubro de 1925, além da famosa charutaria Sudam, propriedade do empresário italiano Sabbado D’Angelo, e outros estabelecimentos comerciais. Do primeiro ao terceiro andarficavam escritórios e salas de firmas particulares. Finalmente, do quarto ao nono andar foi ocupado pelo Hotel Monroe, com suas qualidades e especificidades muito comentadas em diversos periódicos.

A inauguração do Hotel Monroe representa mais uma conquista civilizada do Rio dada a sua feição “sui generis”. Compõem-no cerca de cem magníficos apartamentos, elegantemente mobiliados e decorados pela conhecida firma Alexandre Martins & Cia., à rua do Ouvidor, 87 providos de toda commodidade e conforto, destinados a receberem famílias, casaes ou simples hóspedes. (Para Todos, 07/11/1925, p.50)

Num primeiro momento apenas o cinema foi inaugurado, mas, poucos meses depois foram iniciadas as apresentações de espetáculos teatrais, pois o local equipado para receber 1200 pessoas, também foi dotado de espaçoso e moderno palco, como atesta o trecho abaixo extraído do periódico Correio da Manhã (04/10/1925, p.2).

O palco é amplo, podendo nelle trabalhar qualquer companhia teatral. A temperatura é mantida no nível desejado, dispondo o Glória de ventilação tanto natural como artificial....No alto, num remate, uma cupola de arco rebatido que, por um engenhoso dispositivo luminoso, toma gradualmente vários cambiantes de cor.

A construção financiada por Luís da Rocha Miranda & Filhos e Eugenio Honold ficou a cargo da empresa do engenheiro Eduardo Vasconcellos Pederneiras(1888-1979).Este profissional recebeu educação esmerada fora do Brasil, e estudou na Escola Politécnica do Rio de Janeiro, se formando com apenas 22 anos, no curso de Engenharia. Afilhado de Eduardo Guinle Palassian [5], figura de suma importância em sua carreira profissional, pois o admitiu em suas empresas, até fundar sua própria construtora em 1921, com sede na cidade serrana de Petrópolis, e depois se estabelecendo no Rio de Janeiro.

Dentre as inúmeras obras relevantes no currículo do engenheiro e de sua construtora citamos as seguintes:

- Grupo Escolar Pedro II, na Rua do Imperador, em Petrópolis. Projeto do arquiteto Heitor de Mello. Construção: 1922.
- Edifício da Praia do Flamengo, 116. Construção: 1923.
- Edifício do periódico A Manhã, na av. Rio Branco, 173. Construção: 1927
- Sede do Botafogo Futebol Clube, av. Wenceslau Brás. Construção: 1928.
- Casa residencial, atual Pinakotheke Cultural. Rua São Clemente, 300. Projeto e Construção: 1929.
- Colégio Sacre Couer (no Morro da Graça) Rua Pinheiro Machado, 22. Construção: 1935.
- Antigo Palácio Rosa, atual edifício Metropolitan, localizado no Largo do Machado, 21. Construção: 1936.
-Companhia Sul América, Rua do Ouvidor, 61. Construção: 1941.
- Edifício Sears Roebuck, atual Botafogo Praia Shopping, Praia de Botafogo, 400. Construção: 1949.
- Hotel Sheraton Rio, Av. Niemeyer, 121, Leblon. Construção: 1971.
- Sede do Tribunal de Contas do Distrito Federal, Brasília. Construção: 1972.
- Edifício Cidade do Carmo, Rua Sete de Setembro, 111. Construção: 1973.

Eduardo Pederneiras foi muito atuante nos órgãos representativos do setor da Construção Civil, dentre os quais destacamos o Sindicato da Indústria da Construção Civil – SINDUSCON, onde ocupou a presidência durante o período de 1938 a 1954. Também trabalhou como correspondente da revista francesa Architecture d’Aujourd’ hui, na década de 1930.

Construção eclética, que mescla a estrutura de fachada muito calcada na arquitetura francesa haussmanniana [6], de linhas geométricas rígidas e regulares, notadas desde os avanços das cornijas, balcões e pilastras, até o ritmo contínuo das aberturas. Entretanto os elementos decorativos distribuídos desde o embasamento, o corpo principal e o coroamento trazem elegância e harmonia ao conjunto. Do refinado repertório ornamental neoclássico foram utilizados friso de óvalos, denticulado e de elementos fitomorfos [7] segmentados, além de caneluras, balaústres, guirlanda de flores, voluta florida e folhada, rosário de pérolas, torçal de folhas de café, dentre outros.

Nos ângulos do seu coroamento apresenta o que poderíamos chamar de ‘tímidas’ mansardas [8], pois suas paredes recobertas por ardósia têm pouca inclinação. Possivelmente estes aposentos foram utilizados para os serviços internos do hotel.

O articulista do jornal O Globo, que escreveu sobre o que viu no diadainauguração do Cine Glória, nos confirma a cor original da edificação e exalta a decoração de sua fachada.

O edifício que se ergue por 6 andares acima, num bello tom cremado e delicadamente ornado de festões de estucaria fina, apresentava uma fachada sobriamente enfeitada, com uma decoração que não ocultava, antes fazia salientar-se as suas linhas elegantes(O Globo, 03/10/1925, p.5).

Em artigo do jornal A Noite, edição de 15 de maio de 1926, discorrendo a respeito das diretrizes seguidas pelos construtores na cidade do Rio de Janeiro, seus estilos e normas, Eduardo Vasconcellos Pederneiras expressa a sua opinião sobre o assunto e defende a importância da arquitetura como marcador do grau civilizatório de um povo. O construtor faz referência a dois prédios, um ainda em construção e a outro, o recém-construído Glória, ambos “... em estylo francez modernizado, influenciado pelo Luiz XVI.”

Dividido entre as antigas construções, em que predomina o “estylo colonial, ou melhor, o estylo brasileiro” e os novos “arranha-céos”, Pederneiras se posiciona:

“Sou um dos engenheiros architectos brasileiros, um dos que mais se tém esforçado para dotar a cidade de boas construções, a despeito de todas as dificuldades oriundas dos excessivos preços dos materiaes e mão de obra... Sou, portanto, favorável ao colonial, quando em logar apropriado, mas não nos prédios altos do centro da cidade construídos em cimento armado constrastando com o ambiente de progresso, dos automóveis; do asfalto, dos bondes electricos, telephones e toda a intensidade das cidades modernas.”

A escassez de hóspedes limitou a existência do glamoroso Hotel Monroe, que funcionou apenas até 1931. Já no ano seguinte encontramos anúncios no periódico O Jornal disponibilizando os apartamentos para alugar como escritórios.

Desde 1956 já existiam projetos de reforma do edifício Glória e, após a última apresentação da Companhia Dercy Gonçalves neste ano, o prédio foi fechado para obras, que um ano depois foram embargadas pelo então prefeito Negrão de Lima.

Embora tenha funcionado como cinema foi como teatro, que se firmou desde 1926, quando inaugurou o primeiro espetáculo, do gênero revista, pela Companhia Trololó, chamada “Hora do Sério”, estrelada por Aracy Cortes. Oscarito, um dos atores que se apresentaram em grandes sucessos de sua carreira no teatro Glória, ficou muito triste com a possibilidade da demolição da sala de espetáculos.

Esse impasse continuou até o final desta década, quando no ano de 1958, a estrutura do cineteatro foi desfeita para a construção de uma galeria de lojasde serviços e pequenos bares. Também chegou a ser cogitada a inclusão de uma nova sala de espetáculos acima da galeria, mas isso nunca foi levado a termo. Esta transformação foi muito criticada como atesta a matéria do periódico:

“...isto é profundamente lamentável, representando uma perda tremenda para o teatro brasileiro e para a vida noturna da cidade, cujos habitantes vêem com tristeza a antiga e esplêndida Cinelândia dos sonhos e dos desvelos de Francisco Serrador transformar-se numa estúpida zona comercial e bancária, num tributo dado ao desapiedado mercantilismo de nossa época.”

Uma das premissas para que um patrimônio arquitetônico tenha uma vida longa seria a salvaguarda pelo poder público, ao menos em uma das três instâncias: municipal, estadual ou federal. O prédio do antigo Cineteatro Glória inaugurado em 1925 fará 96 anos de existência em outubro do ano corrente. Em 1989, a fachadado prédio teve o seu tombamento efetivado pela esfera municipal. Passou por muitas alterações, a maioria em sua área interna, com a contínua adequação e modernização, de acordo com seus novos usos e funções. A intervenção mais recente ocorreu em toda a sua área interna, no ano de 2007. Apesar de algumas poucas modificações em sua fachada térrea, ainda mantém a concepção inicial idealizada pelo engenheiro Eduardo Vasconcellos Pederneiras, mantendo os elementos constitutivos de seu desenho e os ornamentos de cunho neoclássico, tornando-se um testemunho de uma época de glamour e sonho.


Notas

[1] Museóloga graduada pela Escola de Museologia da Universidade Federal do Estado do Rio de Janeiro (1999). Possui Licenciatura com habilitação em Artes pela Universidade Cândido Mendes (2007) e Pós-Graduação Latu Sensu, em História da Arte Sacra, pela Faculdade de São Bento do Rio de Janeiro (2017). Atua desde os anos 2000, em instituições da guarda de variadas tipologias de acervo.

[2] Elena Petrovna Blavatsky (1831-1891) foi uma escritora russa, cofundadora da Sociedade Teosófica.

[3] Nascido na cidade espanhola de Valência, Francisco Serrador Carbonell chegou ao Brasil em 1887, no porto de Santos. Passou algum tempo em Paranaguá, depois em Curitiba, onde fixou residência e envolveu-se no ramo do entretenimento formando parceria com o comerciante Antonio Gadotti. Os sócios resolvem tentar a sorte em São Paulo, e abrem diversas salas de cinema, além disso, tornam-se representantes da produtora francesa Pathé Frères, nos estados de São Paulo e Paraná amealhando grande sucesso.

[4] Por volta de 1911, Serrador e Gadotti fundam a Companhia Cinematográfica Brasileira, para a exibição e distribuição de filmes. Os lucros obtidos pela empresa impulsionaram os futuros empreendimentos de Francisco Serrador, na então capital federal.

[5] Padrinho do engenheiro e construtor Eduardo Vasconcellos Pederneiras, Eduardo Guinle Palassian (1846-1912) foi um bem sucedido empresário de origem francesa, que estabeleceu e ampliou seus negócios no Rio de Janeiro, em fins do século XIX.

[6] George-Eugene Haussmann (1809-1891) foi nomeado prefeito do departamento do Sena, em Paris, pelo Imperador Napoleão III, com a missão de modernizar a capital francesa. Durante a sua gestão, de 1853 a 1870, grandes avenidas foram rasgadas e preenchidas por edifícios com fachadas dotadas de altura e estrutura padronizadas. Esse modelo de reforma urbanística serviu de inspiração ao prefeito Pereira Passos, que vislumbrou e chegou a materializar uma série de mudanças na arquitetura, da parte central da cidade do Rio de Janeiro.

[7] Elementos ornamentais de inspiração vegetal, muitas das vezes, estilizados.

[8] Uma das fortes características das fachadas haussmannianas é justamente a ocorrência das chamadas mansardas, que são janelas construídas nos telhados para iluminar o seu desvão, sendo este utilizado como aposento e geralmente revestido por telhas de ardósia.


Referências Bibliográficas

  • ABREU, Mauricio de A. Evolução Urbana do Rio de Janeiro. Rio de Janeiro, IPP, 4º Ed, 1987 (2011).
  • FREIRE, Rafael de Luna. “A Companhia Cinematográfica Brasileira e a Marc Ferrez & Filhos: Discutindo a relação entre Francisco Serrador e a família Ferrez (1912-1915)”, Vivomatografías. Revista de estudios sobre precine y cine silente en Latinoamérica, n. 6, diciembre de 2020, pp. 116-148. Disponible en: <http://www.vivomatografias.com/index.php/vmfs/ article/view/320> [Acesso 12.06.2021].
  • GONZAGA, Alice. Palácios e Poeiras: 100 anos de cinema no Rio de Janeiro. Rio de Janeiro: Record, 1996.
  • LIMA, Evelyn Furquim Werneck. Arquitetura do espetáculo- teatros e cinemas na formação da Praça Tiradentes e da Cinelândia. Rio de Janeiro, Editora UFRJ, 2000.
  • MARANHÃO, Ricardo. Cinelândia: retorno ao fascínio do passado. Rio de Janeiro: Letra Capital, 2003.
  • MÁXIMO, João. Cinelândia – Breve história de um sonho. Rio de Janeiro: Salamandra Consultoria Editorial Ltda., 1997.
  • NUNES, Denise Vianna. A ação da Construtora Pederneiras no processo de verticalização carioca. In Leituras gráficas da cidade - Anais do I seminário LAURD. PROURB. Rio de Janeiro: Rio Book ́s, 2014.
  • SILVA, Gastão Pereira da. Serrador: o criador da Cinelândia. Rio de Janeiro: Empresa. Propaganda Ariel, s/d.
  • SOUZA, José Inácio de Melo. Imagens do passado: São Paulo e Rio de Janeiro nos primórdios do cinema. São Paulo: Senac, 2004.
  • ___________Um centenário para se eternizar Sinduscon-Rio desde 1919 100 anos. São Paulo: BB Editora, 2018.

Periódicos:

ABC (1928), A Casa (1933), A Cena Muda (1943, 1944), A Exposição de 1922, Almanach Eu Sei Tudo (1928), AlmanakLaemmert (1930), A Noite (1925, 1926), Brasil Revista (1927), Careta (1927), Correio da manhã (1925), FonFon (1920, 1926, 1929, 1930), Mundo Infantil (1929), O Brasil (1927), O Globo (1925), O Jornal (1932),O Malho (1924, 1927, 1941, 1944), O Paiz (1925), Para Todos (1924, 1925, 1927), Revista Criminal (1928), Revista da Semana (1923, 1925, 1926, 1941), Sino Azul (1929), Última Hora (1956, 1957, 1958), Vida Doméstica (1925), Vida Policial (1925). Disponível em: <http://www.hemerotecadigital.bn.br> [Acesso em: 16 março 2021 a 01 setembro 2021].

 

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