Alejandra Saladino [1] 

Começo

Diante do convite para elaborar um pequeno artigo tendo como mote o tema da a próxima reunião do ICOM a realizar-se no Rio de Janeiro, deparei-me com a questão: o que dizer se tudo parece já ter sido dito? Sobre o que falar, se por cá já temos o básico e fundamental para tornar um setor museológico relevante e robusto (convenções e recomendações gerais, políticas públicas específicas, dispositivos legais, normativas, organizações formais em instâncias federal, estadual e municipal e uma massa crítica crescente e multivocal)?

Então, resolvi compartilhar pensamentos em voz alta que resultaram de dois questionamentos. O primeiro veio de uma colega de profissão e amiga que, ao fazer um breve resumo sobre palestra que assistira no POP desabafou: “Alejandra, se nós museólogos não abrirmos os olhos para as TI’s e as múltiplas possibilidades de comunicação nos museus, aí é que definitivamente perderemos espaço!” O segundo foi exposto durante os debates de uma aula do Programa de Pós-Graduação em Museologia e Patrimônio, e que resulta quase sempre em crise existencial: afinal de contas, qual o lugar do museólogo nos museus e processos museais? Quais suas atribuições e competências?

Parto de um simples argumento: apesar de ainda pairarem com força os questionamentos supracitados, o museólogo é elemento-chave na equação simples Museus (Memoria + Criatividade) = Mudança Social [i].

Antes, contudo, faz-se necessária uma brevíssima contextualização e exposição do argumento proposto.

Meio

Nos dias atuais, onde a sedução da memória (HUYSSEN, 2000) e a inflação da categoria “patrimônio cultural” (GONÇALVES, 2007) conduzem à patrimonialização e musealização de tudo e todos, são muitos os desafios para os agentes do campo do patrimônio. Assegurar o direito à memória e o reconhecimento e a proteção da diversidade cultural são os fortes e consistentes argumentos das políticas públicas do setor e, consequentemente, dos discursos dos atores.

Trabalhar com tais diretrizes enriquece e complexifica a instituição do patrimônio cultural compreendida, à luz do institucionalismo histórico, como o complexo conjunto de convenções, disposições legais, normativas, organizações formais, diversos segmentos sociais que atuam na interseção entre os campos jurídico-legal, econômico, político, cultural e científico. A multiplicação (pulverização? essencialização?) do patrimônio cultural relaciona-se à diversificação dos agentes patrimoniais (organizações não-formais, variadas e até dissonantes representações de diversos movimentos sociais, etc), que assumem um protagonismo em nível local, regional e mesmo nacional.

Partindo de uma perspectiva panorâmica, e assumindo até uma perspectiva reducionista, é possível perceber que as políticas afirmativas e inclusivas podem resultar na intensificação das disputas e tensões entre distintos segmentos sociais e campos, promovendo a hierarquização e redução das manifestações culturais a seu valor econômico [ii].

A questão é, como afirmei, que a dinâmica do campo do patrimônio cultural complexificou-se dramaticamente. A princípio e em tese todos têm direito à memória e ao patrimônio. A princípio e em tese todos têm direito ao acesso de instrumentos e ferramentas para lutar e garantir seus direitos no campo da cultura. Isso nos leva a pensar – e repensar – sobre os impactos causados pelas políticas públicas nos mais distintos contextos e os lugares e papeis desenvolvidos pelo Estado e pelos demais segmentos sociais atuantes na instituição do patrimônio cultural.

No setor museológico, por sua vez, a complexidade segue. Para além de depósitos e vitrines de tesouros e maravilhas, os museus assumem sua natureza política. É possível também perceber uma inflação no campo dos museus, sem querer aferrar-me a tipologias reducionistas mas necessárias para compreender minimamente o universo museal. Museu-instituição, museu-processo, museu-fenômeno. Ferramenta de empoderamento e reconhecimento social. Multiplicaram também os agentes sociais envolvidos no setor, que manipulam e criam novas experiências museais.

Além disso, os museus, inseridos no variado cardápio cultural dos grandes centros urbanos e organismos estratégicos para as políticas públicas de incentivo ao turismo cultural, buscam desenvolver ações e criar serviços e produtos culturais “de qualidade” [iii], capazes de fidelizar públicos e atrair o desejado e desconhecido “não-publico”.

Assim, os desafios dos profissionais dos museus também são ampliados e multiplicados. Seguir com a missão de preservar os patrimônios para os pósteros, lidar com a multivocalidade social e desenvolver estratégias para amplificar as perspectivas e narrativas oriundas e promover atividades e experiências que divirtam, informem, instruam e sensibilizem demandam recursos e inovação.

Finalmente então exponho o argumento destas breves ilações. A equação nada simples que inspira e conduz os debates do setor museológico neste ano de 2013 exige a compreensão de que os museus, enquanto instituições e processos, fundam suas bases na interseção dos campos social, cultural, político e econômico. Exige de seus profissionais, por conseguinte, atuação interdisciplinar e mesmo transdisciplinar.

Ao museólogo, em especial, é demandada formação interdisciplinar. Para que tal profissional possa contribuir para a mudança social precisa ser mais que o técnico responsável pela preservação e comunicação do acervo e que o profissional responsável pela mediação “sociedade e patrimônio”. O museólogo precisa assumir seu papel estratégico na elaboração de experiências sensoriais, que afetem pelo afeto. Necessita ocupar seu lugar de profissional com formação dirigida para a análise e compreensão do museu a partir de uma perspectiva integral e holística.

De que forma, prática e objetivamente? É possível aqui iniciar, mas não esgotar, uma lista de ações possíveis e pertinentes à formação e atuação do museólogo:

  1. Dessencializar e desrotinizar as práticas e processos técnicos. Enquanto trabalhos de memória, os museus podem ser compreendidos como um conjunto de processos que configuram a cadeia operatória da museologia. Refletir sobre os procedimentos e instrumentos dos processos (de documentação, conservação, pesquisa, comunicação etc) e inová-los para que sejam adequados às experiências que conformam hoje a diversidade museal é ação afeita ao campo da Museologia e, por conseguinte, tarefa dos museólogos.
  2. Ter “olhos de ver” e pô-los em ação. O museólogo trabalha com a cultura material de forma especial. Sua tarefa é dotar os objetos de condições para se tornarem componentes de discursos os mais variados. Em outras palavras, sensibilizar o olhar, “brincar” com a relação significante-significado, produzir novos sentidos.
  3. Ser capaz de decodificar discursos científicos para o discurso museográfico. Para tal, é fundamental que conheça, ainda que minimamente, vocabulários e praxis dos demais campos. Isto não significa que deva tornar-se um arqueólogo de segunda ou um antropólogo de quinta. Aqui o seu papel de mediador se faz necessário, para que os “produtos” (exposições e outras atividades educativo-culturais) sejam palatáveis e acessíveis aos públicos.
  4. Buscar conhecer as inovações propostas por outras áreas e profissionais. Os museus não são nem campo de estudo nem de trabalho exclusivo dos museólogos. E considerando as diversas experiências museais desenvolvidas principalmente nos últimos quarenta anos e as novíssimas tecnologias de informação, se faz mais que pertinente abrir a escuta e ampliar o olhar para essas inovações. Que sejam tomadas enquanto objeto de estudo da Museologia e/ou inspirações para outras ações.
  5. Finalmente, mas não menos importante, assumir o desafio da gestão da instituição. Novamente, a vocação de mediador se faz necessária. Com a formação e trasformação do olhar sobre o museu desde uma perspectiva integral, e munido de uma ferramenta de gestão racionalizada de recursos humanos e financeiros que, segundo a Lei nº 11.904/09 é o Plano Museológico (mas poderia ser chamada Plano Diretor, Projeto Museológico, Planejamento Estratégico, etc), o museólogo possui as condições necessárias para transpor barreiras setorais e, a partir de um diagnóstico da instituição e de uma dinâmica coletiva, colaboracionista e interdisciplinar, propor um plano de ação a curto e médio prazo. Uma vez que faz parte de sua formação a reflexão sobre os processos técnicos e institucionais, sua atuação é fundamental para tentar, ao menos, romper com certos padrões e práticas e até contornar certas pressões exógenas à própria instituição. Tudo isto com o objetivo de potencializar os recursos disponíveis e desenvolver ações que rompam com a utopia dos números (BALERDI: 2008) [iv] e resultem efetivamente em mudança social.

Fim?

O museólogo, considerando as diretrizes de sua formação e suas atribuições e competências, ocupa um lugar de destaque e desempenha um papel fundamental para que o museu tenha uma influência positiva sobre a sociedade, resultando em mudanças efetivas. Para tal, precisa assumir sua posição nos questionamentos que dão o tom da dinâmica museal: antes de musealizar, pensar no quê musealizar; antes de realizar, pensar para que e para quem realizar (BALERDI, 2008). Poderia ressaltar, à guisa de considerações finais, algo que talvez soe óbvio e ululante (mas mora na filosofia que o óbvio e o claro como água muitas vezes escapam-nos das vistas apesar de debaixo de nossos narizes): enquanto profissional que pensa e atua no museu a partir da perspectiva da Museologia, o museólogo no Brasil tem hoje as condições teóricas, políticas e institucionais mínimas para assumir e desempenhar seu papel de técnico, mediador e gestor.


[1] Museóloga (Corem 2ª região 526 - I) do Museu da República/Ibram/MinC. Professora Adjunta da Escola de Museologia da UNIRIO. Professora Colaboradora do Mestrado Profissional em Preservação do Patrimôni Cultural do Iphan. Especialista em Conservação de Bens Culturais Móveis, Mestre em Memória Social e Doutora em Ciências Sociais.

[i] Tal equação, a meu ver, é assaz complexa, se considerarmos apenas diversidade sociocultural.

[ii] Ver, SIMMEL, Georg. O dinheiro na cultura moderna. In: SOUZA, Jessé; Öelze, Berthold (orgs.). Simmel e a modernidade. Brasília: UNB, 1998, p.23-40.

[iii] Esses produtos “de qualidade” referem-se àquilo que é da natureza do museu, em outras palavras, a transmissão sensível da cultura (DELOCHE, 2007).

[iv] Utopia dos números: Ignacio Díaz Balerdi, professor de museologia da Universidade do País Basco, a respeito da era da comunicação nos museus, alerta para a tendência a realizar ações com pouca reflexão e profundidade (e, portanto, com resultados de consistência questionável) pelo simples dever de realizar, de quantificar o maior número de ações nos relatórios anuais.


Referências

  • BALERDI, Ingacio Díaz. La memoria fragmentada. el museo y sus paradojas. Gijón: Trea, 2008.
  • DELOCHE, Bernard. Définition du musée. In: MAIRESSE, François; DESVALLÉES, André. Vers una redéfinition du musée? Paris: Harmattan, 2007, p.93-101.
  • GONÇALVES, José Reginaldo Santos. Os limites do patrimônio. In: LIMA FILHO, Manuel Ferreira; BELTRÃO, Jane Felipe; ECKERT, Cornelia (orgs.). Antropologia e patrimônio cultural: diálogos e desafios contemporâneos. Blumenau: Nova Letra, 2007, p. 239-246.
  • HUYSSEN, Andreas. Seduzidos pela memória. Rio de Janeiro: Aeroplano, 2000.
  • SIMMEL, Georg. O dinheiro na cultura moderna. In: SOUZA, Jessé; Öelze, Berthold (orgs.). Simmel e a modernidade. Brasília: UNB, 1998, p.23-40.

Nota do editor:
Artigo publicado originalmente no Revista Museu em 14/05/2013.
Resgatado para a nova versão em 02/05/2020.

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